o olhar amor na arte após o fim da arte e da filosofia

Veja ao seu redor - a saída existe e está em tudo e em todos nós

Contreraman

Antes:
E as coisas que continuam já se foram. E as que se foram continuam para nunca terminarem. Até um fim que nunca vem.

Depois:
Vale o que tem amor.

Deus dá o que nosso coração manda

Os meus amigos e conhecidos podem estranhar este título tão religioso, justo de mim, que pareço não dar o devido valor àquilo que nos é dado. Mas o fato é que, aos poucos, bem aos poucos, venho me deparando com essa verdade, qual seja, que Deus nos dá o que nosso coração quer.


Thomas-Saliot_8.jpgSabe quando você faz as coisas meio por fazer, e sente que algo está errado em tua vida, que as coisas parecem meio fora de lugar, que todo merecimento que você deveria sentir pelo que tem parece não fazer efeito, e que mesmo as pessoas que te rodeiam não parecem ser as que você sempre quis que estivessem perto ou mesmo ao teu lado?

Essa sensação, creio, advém de você não viver com o coração aquilo que você faz. Sem entrar em detalhes, por vários anos eu creio ter passado por isso. Era uma sensação estranha. Eu gostava da pessoa com quem vivia. Ia aos lugares convencido de que era essa a coisa a fazer. Tentava tirar o máximo dos momentos, e creio até que tirava. Num momento de depressão, inclusive, eu chegava a olhar fotos daqueles momentos, tentando me convencer de que tudo estava certo. Mas não era verdade, tudo estava errado.

Hoje, ao passar em um shopping de primeira linha, que eu tanto visitava com essa pessoa, e ao olhar as pessoas ao meu redor, algumas até conhecidas, e a reparar no papel que elas desempenhavam - e que agora me vem à mente -, eu reparo que estava no lugar errado, que meu coração não estava ali, e que eu meio que implorava por algo que me convencesse da certeza disso por que passava, sem consegui-la. Cheguei até a ver, quando visitei o shopping, um ex-colega. E não senti nada. Eu não devia estar ali.

Mas, onde eu deveria estar? Não sei. Mas lá não era.

Acabo de descer no jardim do meu prédio para pensar nisso. Sem entrar em detalhes, comecei a reparar no papel que cada pessoa, em minha vida de por enquanto 48 anos, desempenhou e/ou desempenha. De repente, lembrei de minha ex-esposa, e de como queríamos coisas (muito provavelmente diferentes) do nosso casamento. Lembrei de uma pessoa com que recentemente me envolvi, e de como eu meio que me forçava a sentir algo a respeito de uma relação que ainda é uma incógnita. Reparei, quem sabe pela primeira vez, que as coisas concretas podem querer e podem não querer significar algo para mim. Deu-me uma sensação de leveza repentina perceber que as coisas estão ali para "entrarem ou não" em minha vida psíquica. Percebi algo sobre o poder da escolha que parecia estar além da escolha em si. Uma escolha prévia, por assim dizer.

Há poucas horas, um amigo postou, inclusive, uma matéria em que se defendia que a pessoa não escolhe realmente as opções de forma consciente, mas que a escolha mesmo é tomada vários segundos antes de ela achar que optou. Não li a matéria a fundo, mas é como se fosse isso mesmo: como se a gente optasse antes mesmo de optar, e portanto como se o peso da escolha - e das suas consequências - não nos dissessem tanto respeito assim. Eu diria que a opção feita antes da escolha é feita pelo coração, e que como tudo o que diz respeito ao coração (veja o coração, ele diz) tem a ver com Deus, então diria que a escolha por coração se deve a ele.

Voltando um pouco ao momento que passei naquele shopping, muita coisa pequena chamou a minha atenção, e nem sempre de forma realmente agradável. Por exemplo, o modelo de família que o frequenta não me parece o tipo de gente com que eu sempre gostei de conviver. Não é uma questão de inadequação de classe social, é mais algo como modos, como valores, como valores compartilhados. Fui olhado por diversas mulheres e garotas como alguém de alguma forma atraente, mas algo nelas me parecia um pouco fora de lugar. Como se eu quisesse "menos" de algum quesito qualquer. Os seguranças não me viam tão à vontade, também, embora não se dispusessem a fazer algo a respeito. Em suma, eu deveria estar meio deslocado, sendo que mesmo aceito pelas pessoas em questão eu também não me sentia tão bem assim. E olha que frequentamos aquele lugar uns bons anos, indo quase toda noite até lá.

Um aspecto a mais cabe-me citar também agora, com o qual encerrarei este post. Houve uma época em que li muitas biografias (é a primeira vez que comento isto publicamente). Eu lia tantos livros, quem sabe, mas muito provavelmente, para ver em que medida elas me aliviavam da tarefa de percorrer sozinho, sem exemplo anterior, uma jornada que me provocava mas ao mesmo tempo que me atemorizava. Hoje não leio mais nem biografias nem muitos livros com caras similares. Por que será?

Creio que por admitir 1) que nenhum percurso, em termos biográficos, tem tanto a ver com outro, e 2) por (agora) entender que é o coração quem o dita - ao percurso; que é por meio da dedicação interna, dada por um coração insuflado por Deus - ou, para os agnósticos, por nada que lhe diga (a Deus) respeito - rumo a um destino que só a nós cabe interpretar (se é que cabe, até porque tem quem não admita tempo para isso). É assim, pois.


Contreraman

Antes: E as coisas que continuam já se foram. E as que se foram continuam para nunca terminarem. Até um fim que nunca vem. Depois: Vale o que tem amor..
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