o olhar amor na arte após o fim da arte e da filosofia

Veja ao seu redor - a saída existe e está em tudo e em todos nós

Contreraman

Antes:
E as coisas que continuam já se foram. E as que se foram continuam para nunca terminarem. Até um fim que nunca vem.

Depois:
Vale o que tem amor.

A paixão é mau caráter

A paixão é loucura.

Quem me lê, que não tenha má intenção. Pois não é por ser livre de peias que a paixão mau caráter não merece resposta.


1716524-71fe76-7.jpgPraticamente todo mundo tem experiência em se apaixonar ou ter conhecido alguém que ficou apaixonado/a por ele/a. Mas creio que poucos se meteram - ou se atreveram - a pensar decididamente, de forma sistemática, a respeito. Vou tentar. Posso me dar mal, já aviso. E prometo: não irei falar lugares comuns.

Antes de mais nada, o ser apaixonado quer. Ou seja, deseja. E quer sem limites e faz o que for possível e impossível para ter o que quer. E não está nem aí para mais ninguém. E nesse sentido pode usar, se aproveitar, se mancomunar, manipular, manusear, se aproveitar emocional e sexualmente de quem quer que seja, roubar, mentir (principalmente), se insinuar, e toda e qualquer atitude antiética e amoral para tentar conseguir o que quer.

Mas todos sabemos que aquilo por que o ser apaixonado se apaixona não merece esse esforço e atitudes todas. Por vários motivos, mas principalmente pelo fato de que o objeto da paixão não é nunca nada daquilo. Ele (o objeto) pode ser excelente, mas tem falhas. E a característica mais clara do ser apaixonado é que ele não as vê. E que portanto ele, ser apaixonado, como que se divide em si, se biparte, e só vê o que é bom, e por isso (por aquilo que é bom) o ser apaixonado está disposto a tudo. Só por isso que ele vê, e que só é bom.

Mas e com o que é ruim no ser que é objeto de paixão? O ser apaixonado não vê isso, mas o que faz ele com isso (porque afinal isso, o que é ruim, se apresenta, existe)? Ele terceiriza. Deixa para os outros. Se o objeto de paixão está com falta de dinheiro, mas o ser apaixonado só quer o que nele é bom, este ser pede para alguém dar dinheiro ao objeto da paixão. E se essa pessoa - esse que for dar o dinheiro - estiver amando o ser apaixonado é até melhor - porque simplesmente será mais confiável. Não importam os sentimentos dos outros para o ser apaixonado. Não importam em nada. Mesmo. Mas isso não torna o ser apaixonado uma pessoa ruim.

Simplesmente ele vê o que quer, e apenas o que quer, não vê o resto - nem do objeto da paixão, nem dos que o rodeiam -, não dá valor - como é óbvio - ao que realmente existe, até porque ele não vê a não ser o que quer, e se dispõe a fazer de tudo por algo que no fundo não existe - porque é só o que ele quer. Eu mesmo já experimentei essa sensação: de perceber que eu estava dando tudo por aquilo que eu não via claramente. Mas no meu caso isso se transformou em alguma outra coisa. No caso do ser apaixonado, isso normalmente não se torna em nada mais. Simplesmente porque ele não consegue assumir o prumo, o rumo, a compostura. Ele fica assim até que aquilo acaba e se torna praticamente nada.

A emoção descontrolada não tem escrúpulos de qualquer ordem, e a emoção da paixão é a prova mais cabal e exagerada disso. O problema é que essa emoção só surge desse jeito por características ou problemas da pessoa que se apaixona, que podem ter origens biográficas, psicológicas ou mesmo esquizóides (fisiológicas), e essas características ou problemas só são aparentemente satisfeitas, para o ser apaixonado, por aquilo em que essa pessoa se apaixona. Mas isso é mentira, claro, porque o ser apaixonado só vê o que quer, e portanto não pode ver claramente em que medida isso - o objeto da paixão - realmente pode contribuir com seu problema. E nós sabemos que questões desse tipo só se solucionam com amor, e não com paixão. E o amor só surge quando ele quer. E não adianta implorar para que ele surja do ser por quem nos apaixonamos, ele só surgirá - se surgir - por algo maior.

Perguntem-se: algo maior pode surgir de algo menor? Se for da mesma essência, pode ser, não é? Mas e se não for? Dificilmente. Tudo que começa errado tem muita chance de acabar errado. A não ser que algo se intrometa e faça a pessoa cair em si.

Quando isso acontece, porém, o estrago está muitas vezes feito. Pessoas se matam por quem não as enxerga, pura e simplesmente; pessoas desaparecem de nossa vista sem sequer termos visto seu rosto, por nos fecharmos em nosso desespero, que nunca acaba; pessoas fazem mundos e fundos para nada, enquanto pessoas que se dizem conhecer umas às outras passam de leito em leito tentando atribuir sentido a vidas que não o têm. A paixão é loucura e não tem caráter.


Contreraman

Antes: E as coisas que continuam já se foram. E as que se foram continuam para nunca terminarem. Até um fim que nunca vem. Depois: Vale o que tem amor..
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