o olhar amor na arte após o fim da arte e da filosofia

Veja ao seu redor - a saída existe e está em tudo e em todos nós

Contreraman

Antes:
E as coisas que continuam já se foram. E as que se foram continuam para nunca terminarem. Até um fim que nunca vem.

Depois:
Vale o que tem amor.

Quando a alma do outro começa a morrer dentro de ti

No mundo, as pessoas se aproximam e afastam. Vivemos e morremos sozinhos, sempre - é claro. Enquanto as pessoas se aproximam, tudo parece bastante interessante e alvissareiro. Já, quando se afastam, parece restar algo de podre no reino de Dinamarca.


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Quando isso acontece, a outra pessoa percebe - cedo ou tarde. Tudo surge ora aos poucos ora repentinamente. Algo aconteceu que bateu fundo. Não importam as razões. Não importa se somos livres ou não, ou se não afetamos ou nos afetamos com as liberdades alheias. Se assumimos os riscos de determinados atos - ou não para o bem ou para o mal. Não importa. Importa que restou, naquele momento, um sabor ocre na boca e deixou marca aqui dentro. Algo parece haver morrido naquele exato momento. Pode ser decepção, desconsideração, dor mesmo. Não importa muito a palavra para isso, em última instância.

A relação formal e informal entre as pessoas, nessas ocasiões, pode não mudar. Podem elas se manter do mesmo jeito, se tratar como se tratavam, terem os mesmos interesses de antes, e atitudes correspondentes. Mas quando algo acontece a alma pode acabar sendo afetada, e nada continuar realmente como antes. Amantes podem continuar a relação, e até mesmo ela se aprofundar. Amigos podem continuar tão próximos quanto antes, parentes podem se relacionar da mesma forma. Mas quando algo acontece algo aqui dentro também pode acontecer.

O mais claro indício de que algo desse tipo aconteceu ocorre na forma como encaramos aquela pessoa. Às vezes, algo de seu brilho natural como que desaparece. Outras vezes, nossas lembranças dela passam a assumir um caráter mais obrigatório do que natural. Por vezes sentimos quase como um leve peso termos de recordar certos momentos, certos trejeitos, às vezes até o jeito pelo qual tal pessoa fala, se comunica, se expressa. Sentimos um leve amargor aqui dentro, nem no coração nem o cérebro, e parecemos então apenas ser obrigados a deixar passar. Como se algo precisasse ser deixado para trás. Com o tempo, então, na medida em que essa pessoa continua a nos frequentar ou a nos ver, sentimos essa dor como algo que merece resposta, e nos afastamos, pouco a pouco, milímetro a milímetro, às vezes em distâncias ainda menores.

Quase qualquer coisa pode motivar esse novo estado em nossa alma. Mas em geral tudo isso acontece quando a água transborda o copo. Quando algo supera nosso limite natural e parece ir além até de nosso maior alcance. Não que esse tipo de ato - os passados e o atual - não sejam passíveis de perdão ou desculpa. São, sim. Mas o novo estado de angústia como que independe deles. A gente na verdade muitas vezes acostumou-se a perdoar de antemão, até. Como se soubéssemos que a pessoa é assim mesmo, e que portanto não irá mudar. É algo inelutável, cuja percepção é clara e distinta, e a dor, suave e permanente. Pode haver algo que consiga fazer a impressão inicial voltar? Pode. Mas teria esse algo ser de tal forma radical - ou suave, quem sabe - que sua existência é praticamente inviável.

No mundo, as pessoas se aproximam e afastam. Vivemos e morremos sozinhos, sempre - é claro. Enquanto as pessoas se aproximam, tudo parece bastante interessante e alvissareiro. Já quando se afastam, parece restar algo de podre no reino de Dinamarca.


Contreraman

Antes: E as coisas que continuam já se foram. E as que se foram continuam para nunca terminarem. Até um fim que nunca vem. Depois: Vale o que tem amor..
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