o olhar amor na arte após o fim da arte e da filosofia

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Contreraman

Antes:
E as coisas que continuam já se foram. E as que se foram continuam para nunca terminarem. Até um fim que nunca vem.

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Vale o que tem amor.

Gershwin e Porter, e por que os outros ficam atrás

Gershwin e Porter são insuperáveis, ainda hoje, porque se aceitam, mas não aceitam o que vêem. Mas tiram sarro disso. Não levam a sério. Tiram sarro.


MI0001626675.jpgTenho duas biografias desses gigantes, compradas e lidas há muitos anos, as duas pela José Olympio Editora. Mas não são as obras deles o que mais me fascina em sua (deles) trajetória, senão seu jeito aparentemente inerte a tudo que pudesse influenciá-los. Gershwin era ele mesmo; Porter, também. E isso é algo que hoje falta, e muito, em todas as áreas.

A gente sabe muito bem que, diante da vida, a gente sempre tem duas opções básicas: gostar e desgostar. A gente encontra um vizinho, e diante de seu porte, seu aroma (ou cheiro), seu jeito de ser, sua fala, a gente se aproxima - ou se afasta. Muitos negócios surgem disso. O negócio dos perfumes. A oratória. Tudo o que condiz com a aparência (fitness, etc.). A moda.

Quem houve Motörhead, parece (digo, parece) querer fazer com que as pessoas se afastem. A música que dói, as letras que não respeitam o "bom" tom, o jeito gutural, as roupas pretas, o Snaggletooth (a figura), tudo parece querer afastar. Com o tempo vi que isso era verdadeiro, a sensação. Lemmy e trupe não queriam por perto quem eles não queriam por perto: os falsos, os hipócritas, os cheios de mimimi, os idiotas. Mas ele nunca disse isso. Era a música que motivava a aproximação - ou, nesse caso, o afastamento.

No caso de Gershwin e Porter, tudo aproxima. E sabemos como eles eram. Porter, homossexual, que pegava homens no cais do porto, cheio de tiques e manias, sensível ao extremo. Gershwin, sexualmente indefinido, com uma casa enorme, de vários andares, com toda a família vivendo às suas custas, portas abertas, festança o dia e a noite toda, e ele tocando, se divertindo, e divertindo todo o mundo.

Gershwin e Porter faziam da música a sua (deles) forma de sedução. Compensavam seus (deles) jeitos estranhos tocando e compondo e fazendo a diversão desse Estados Unidos que começava a tomar os lemes de um mundo novo. Porque a Europa entrava em conflitos insolúveis sem guerra; porque a Ásia mal conseguia dominar seu jeito macambúzio de saber o que era a Humanidade; porque o resto do mundo queria um rumo a tomar.

Mas hoje as pessoas pegam os dois, Gershwin e Porter, e os amaciam. Tornam-nos suaves e doces; adocicam-nos com Ella e Diana. Evitam os sons estridentes de suas notas, fazendo-as macias e até mesmo quase calmas. Quando eles, de calmos, não tinham nada. Porque eles viviam num mundo em transformação, repleto de desafios com os quais lidar, e que ainda não sabe como fazê-lo. O desafio sexual, por exemplo. Porter ainda seria um escândalo, hoje, com seu comportamento arredio a normas, com sua sexualidade amarrotada.

Gershwin e Porter são insuperáveis, ainda hoje, porque se aceitam, mas não aceitam o que vêem. Mas tiram sarro disso. Não levam a sério. Tiram sarro.


Contreraman

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