o olhar amor na arte após o fim da arte e da filosofia

Veja ao seu redor - a saída existe e está em tudo e em todos nós

Contreraman

Antes:
E as coisas que continuam já se foram. E as que se foram continuam para nunca terminarem. Até um fim que nunca vem.

Depois:
Vale o que tem amor.

"Poema em sim, em meu lugar", de Ayron Barsan (crítica)


A sina dos homens fortes é aceitar o contraponto, rendendo-se ou não a ele, mas superando-o com seu trabalho. Acredito que ele vá optar por isso. Senão eu não estaria aqui.


d066580b-aeab-432e-b85c-2f84131167ea-large.jpgConheço o Barsan (chamo-o assim, a ele, cujo primeiro nome parece nome de banda de rock) há alguns anos. Lembro-me bem de quando ele apareceu no Starbucks do Shopping Frei Caneca, e assistiu o começo do que iria ser um ensaio mal-sucedido para uma peça de teatro que nem aconteceu. Lembro-me bem também de como ele se conduziu ao bater o texto com um ator, em um outro ensaio posterior.

Desde então, a pessoa Barsan foi aparecendo aqui e acolá em pequenos textos no Facebook, e expressando que, em minhas palavras, de alguma forma ele "queria existir". Porque existir não é fácil. Ser é inevitável, a gente é. Mas existir é outra coisa bastante diferente.

O Barsan não é, claro, apenas um sujeito macambúzio, distante do mundo concreto. Ele participa de espetáculos com seus amigos. Ajuda a mãe em seus artesanatos. Publica textos no facebook. Toca, canta e faz tudo aquilo que um jovem costuma fazer ou quer fazer. Mas ele sempre me aparentou uma distância, uma saudável distância em relação a tudo o que consideramos dado: a existência.

Um dia, por celular, ele me pediu uma indicação de leitura. Eu lhe sugeri - não costumo sugerir livros, que fique bem claro - o "Cartas a um jovem poeta", do Rilke. O alemão está bastante distante, hoje em dia, de minhas leituras, preferências ou preocupações. Mas nessas cartas ele diz a um jovem, cujo nome eu perdi, coisas que normalmente ajudam as pessoas mais sensíveis a tentarem sair desse mal-estar de gente que tem dificuldade de se encaixar e que precisa se expressar de alguma forma - e que por algum motivo escolhe a poesia para isso. O Barsan disse-me ter gostado muito do livro, o que me agradou bastante.

Escrevo tudo isto, num texto que deveria se propor a ser um ensaio crítico, para delimitar, bem claramente, que o autor sobre o qual estou escrevendo é um jovem. Um jovem que mantém uma distância, um assombro e um certo medo em relação ao mundo real, esse mundo existente, que pouco a pouco nos engole. Um jovem que por isso, por ser fiel a essa distância, e a esse assombro, usa de todos os meios de que dispõe para enfrentar, por si só, esse certo medo e com isso aceitar. Aceitar a existência.

Barsan não é um poeta, com formação e tudo. Mas faz poesia. E para se expressar poeticamente faz uso do ponto de vista lírico. Para ele, o que importa é como ELE vê, como ELE sente, o que ELE sente. Por isso, para ele, dane-se o concreto, a realidade. O lírico, claro, sempre é, até certo ponto, um romântico. E é por isso que, depois de ele, Barsan, superar alguns problemas de ordem metodológica, acaba descambando na relação com "o outro", no caso, ela, e abordando então o amor. Mas antes, claro, é preciso entender e destravar a realidade, essa que nos invade, e que nos atrapalha. Daí o jeito meio experimental, meio desconfiado, com que Barsan aborda, já no começo do seu primeiro pequeno livro, a existência. E o faz em pequenos poemas, alguns com formato bastante tradicional; outros, mais experimentais, mas sempre com alguma leiva de antiquado - porque todo lírico é antiquado. A quem duvida, por favor, peço que veja como andam os jovens, hoje; o que lêem (SE lêem); o que ouvem (PORQUE ouvem); o que fazem (E fazem). UM POETA, HOJE? Isso chegaria a ser motivo de riso, tanto entre jovens como entre adultos. Mas isso existe. Até porque, se há algo que os novos meios proporcionaram, ao contrário da diminuição da leitura e da escrita, foi o seu aumento. E, na rabeira (sempre lá), estão os poetas. Como sempre.

Ocorre que a realidade, essaque nos invade e atrapalha, é física. E aparece, já bem no começo, como bolhas. Mas que aparece, em nosso interior, como um "sinto". Sim, porque independente de qualquer coisa, a gente "sente" - mas não podendo ou teimando em não nos limitarmos a isso, queremos dar um sentido a esse sentimento. E achamos? Não. Bonito, belíssimo - mas trágico. Conclusão: sofremos. E sofrendo, buscamos escapar. Conseguimos NA realidade? Não. Só no vazio. Mas num vazio que se EXPRESSA: no silêncio.

Mas claro que esse silêncio é ilusório, mesmo se real. Porque nós aqui dentro não paramos, máquinas pensantes que somos. Claro que não pensamos QUALQUER coisa; pensamos a favor e contra pensamentos anteriores e posteriores, e bem aqui já entendemos e expressamos que há pensamentos que nos atráem e outros que nos repelem, e estes - que nos repelem - são, vejam só, os "modernos" ("os espinhos agudos das mentes modernas, moldadas para serem navalhas afiadas"). Previsível? Mais ou menos. Se Barsan fosse apenas um garoto que acredita em contos de fadas, tudo bem. Mas Barsan não é apenas isso, como fazem crer seus posts de bonequinhos com formatos de caveiras vivas, e pequenos objetos com ângulos agudos em formato de dentes; buracos fazendo as vezes de globos oculares; brancos e pretos contrastantes à la Tim Burton. A questão, aqui, está em que Barsan busca "algo mais", que não seja simplesmente emoção, mas que não o restrinja à razão ("uma chama que aqueça a sola, e a resgate, de uma razão fria que assola"). Chama? Parece chavão. Mas algo que se vê em sua insistência pelo teatro. Pela expressão, em suma.

(Estranho eu me lembrar, agora, do rapaz, em tempo real, Barsan - e de sua relutância em dizer, em expressar - como eu mesmo, em tempos de outrora)

O enlevo que aproxima Barsan de Burton passa-se, meio que de forma inopinada, após um pequeno laivo de Augusto do Anjos. E chega numa linda e leve descoberta do mundo por um tal de Sr. Batata, no qual podemos ver inclusive a chamada redução fenomenológica de um Husserl em sua busca infrutífera de uma certa pureza primal. Vemo-NOS (Barsan e eu) nos depurando do artificial, do impuro, do inconveniente, em busca do fundamento último do EU que não nos faça ter vergonha de sermos, nem medo - pois é o medo, no fundamento, o grande obstáculo a existir (porque ser, a gente é de qualquer jeito). E o que nos resta? Descartes, claro. Pensamos, seja como for. Não que a busca de Barsan não seja simpática ou mesmo simbólica de nosso destino. Mas é previsível (e nisso há também uma certa autocrítica).

Mas esse ser, QUE EXISTE, o que é, além de pensante? Ou melhor, o que NÃO é? Barsan avança, logo a seguir. NÃO É singular. COMO SE não existisse. Bonito. Um ser como que em relação. Em que tudo vem de fora e se torna algo lá dentro, mas que nunca é singular, nunca está afastado do outro - ou da outra, e que portanto existe sendo um todo. E no qual a liberdade está em escolher como se sente - e age por dentro ("selecione o que está aqui fora, e mude como age aí dentro").

Recordo-me então - não o vejo pessoalmente há vários menos - como ele, Barsan, parecia ver o que fazíamos, nos ensaios que cometíamos, numa lanchonete noturna do centro da cidade. E recordo-me claramente: havia um "gap", um intervalo, algo que dificultava meu entrosamento com ele ENQUANTO a cena acontecia, e NA MEDIDA em que ele precisava dar-ME um retorno, no tempo exato, daquele texto que precisava estar, NO ATOR/ATRIZ, perfeito para a cena - que, como disse, não ocorreu. Pois era esse gap algo, hoje noto, virtualmente existencial. Uma espécie de senão à realidade, uma espécie de recusa. Uma recusa não dita, que parecia revelar algo lá dentro. Claro que é essa recusa que faz muitos artistas surgirem - quando não restrita a ela mesma, claro; quando se torna algo para além da recusa. Uma afirmação. Como este livro, que parece narrar absurdamente tudo o que lhe passa, a ele, Barsan, em seu interior.

Mas a busca incessante de Barsan não pára - como já disse. E ele quer saber o que resta, se formos o que somos? O sentido que ele encontra é o do ciclo. Que de um papel você encontra outro, e que o outro te encontra para fazer de você, afinal, o seu (dele) papel. Mas haverá significado nisso tudo? Não. Apenas a dúvida. Como se pernoitasse um pessimismo incomensurável por detrás de toda e qualquer esperança - como se ao final descobríssemos um sentido restrito à nossa condição de finitos, encimados pela realidade que nos condicionou a tentarmos ser o que virtualmente um dia quisemos. Mesmo no ato da escrita, que leva a um círculo que nos impele a tentar descobrir-nos - sem acharmos.

Mas é então que Barsan decai. Não porque ele discorde de mim. Nem porque ele decida apostar. Nem porque ele se assuma como jovem - que, afinal, tem tudo para viver. Barsan decai porque começa a explicar. E a juntar alhos com bugalhos sem necessaraimente fazê-lo. Como se quiséssemos ser felizes. Queremos? Como se quiséssemos viver. Queremos (ou estamos condenados a isso)? Como se braços ao alto nos conduzissem necessariamente a algum lugar - para além de nossa virtual insignificância. Mas o problema não é a mensagem: é escolher pela ausência do ambíguo. Ou - que seja - pela anuência do sentido. Século XXI, com sentido? Estranho.

Pois Barsan, então, aposta. Aposta no sentido único (longe da poesia). Aposta no sentido bonito da vida (longe da realidade). Aposta na busca do amor (longe da solidão aprazível). Aposta no amor (acima de tudo).

Lembro-me então do Barsan, nos poucos momentos em que nos vimos, e nos diversos pequenos textos que passou a jogar no Facebook, em busca de algo que a acalentasse - e que pudesse encontrar resposta (ou acenos sob a forma de polegares para cima). E lembro-me que ele parecia acalentar um certo amor, carinho até, por detrás de suas relutâncias; e que mesmo escondidas por detrás de palavras que nunca pareciam duras, mas que podiam expressar uma certa dureza do real, ele ainda parecia esboçar certo sorriso (que eu não via pois estava por detrás da tela).

É preciso portanto entender de onde radicaria tanto otimismo. Estará para aquém da realidade, uma convicção cega; ou para além das convicções, numa sabedoria milenar; ou, na melhor das hipóteses, numa insistência restrita em sua própria sensação de jovem, que tem tudo a viver?

Vivemos numa época em que as oportunidades parecem lançar ao universo empreendedores individuais que ousam optar pelo Bem. Quando digo Bem, refiro-me a tudo o que eventualmente possa Melhorar o mundo. Essas iniciativas não se apoiam, como é óbvio, ao menos hoje, no atendimento à situação desfavorável de parcelas historicamente prejudicadas ou mesmo vilipendiadas da sociedade. Nem se restringem a cuidados com o meio-ambiente ou com a saúde das pessoas (sob quaisquer de seus sentidos). Hoje, parece ser favorável (em todo o mundo) optar pelo Bem. Por vislumbrar ideias que causem o Bem do geral ou do particular. E não mais acreditar em que o lucro seja o fundamento de tudo - dos negócios, ao menos. Chega a ser quase de mau gosto hoje buscar o lucro a qualquer preço. Sabemos, claro, que na realidade os explorados continuam existindo e sobrepujando em número os seres livres em escolha; sabemos também que, mutatis mutandis, as empresas buscam, sim, o tempo todo o maior e mais conveniente lucro. Mas para o jovem de hoje a via do Bem parece ser, ao menos num contexto amplo de mentalidades, uma opção, se não (apenas) palatável, conveniente e bastante... lucrativa.

Barsan não parece embarcar nessa. Sua busca, sempre lírica, é de outra ordem - eminentemente pessoal e distante do que seja a realidade nua e crua de gente que precisa viver, ou ao menos subsistir. E nela (nessa busca) os obstáculos são imensos - a começar pela própria aceitação das origens, que ele faz em seguida, remetendo-se ao passado de antepassados que mal poderiam imaginá-lo. A indiferença também mata-o por dentro, e podemos sentir isso na pele (que não parece mais ser como a nossa).

Ocorre que parecemos então sentir o que todos os livros nos dizem - e com razão. A sensação de estranheza do não reconhecimento. A sensação de solidão da indiferença. A sensação de insegurança presente na invisibilidade. Leituras que remetem a clássicos daqui e de acolá, de outrora e do presente, que fazem, contudo, perdermos de vista sua (do Barsan) singularidade e sua emoção com essa perda. Ele parece então escorrer em seu próprio discurso, optando por uma lucidez que o aproxima da realidade que ele tanto recusava e que o torna estranho... a nós. É quando eu não mais sinto o Barsan, esse que tanto me impelia a senti-lo, tanto pessoal quanto virtualmente.

As palavras então não me alcançam mais. As homenagens parecem-me distantes. As mulheres que cita não são as que conheço. E o amor que ele dedica parece-me canhestro. Nem seu apelo à ação contra a automação me comove. Não vejo quem diz isso. Vejo a mensagem. Não mais o sujeito. Quem sabe seja essa a intenção.

Isto não é, como seria de se apreciar, de uma crítica à forma ou ao conteúdo. É a constatação de que Barsan, com o tempo - ao menos do livro -, cede ao discurso corrente EM OPOSIÇÃO à busca de si mesmo, e que sinto isso de forma palpável e inelutável, constatando que ele envelheceu - em poucas páginas, envelheceu. Lembro-me de um colega, chamado Tiago, jovem e promissor, sempre às voltas com meninas bonitas e leituras admiráveis, a quem eu aconselhava não se ater àquilo que tinha ou que via, e que procurasse o conselho dos experientes que, no sistema, já se foram. Ocorre que o Tiago - e eu, para meu desgosto - já havía(mos), ao menos naquele instante, desistido do diálogo (seja com o outro, seja conosco mesmo), e portanto para nós a derrota já estava dada. Já neste livro, Barsan, que começa dialogando de forma profusa e insistente no começo, opta, num determinado momento, por parar com isso - e se dedicar PARA FORA, como numa tribuna em que discursasse em prol de ideais que ele apenas PARECE admitir e SENTIR. Pois se há algo que me incomoda, nisto tudo, é o caráter plácido da admissão de verdades, longe do rigor cáustico de jogá-las fora pela simples integridade da busca da verdade.

Isto não quer dizer que Barsan agora se recuse a ver o real. Ele o vê, isso é certo. Mas esse seu real vira lamento de época, e não assume o rigor de alguém que olha por debaixo dele, em busca de seu fundamento e de seus pés de barro. Vira crença, como parece ter se tornado todo este milênio que mal se inicia. E crença, como sabemos, é apenas uma aposta no potencial frutífero de uma vontade que se tem - por se ter. Alguém, ou mesmo o próprio Barsan, podem considerar que meu ponto de vista, talvez até lúcido, seja devido a uma maior experiência de vida ou mesmo acadêmica - ou de leitura, quando muito. Mas lamento desagradá-los. E por isso preciso falar de mim.

Encontrei o amor (descompromissado) há pouco mais de um ano. Descobri o amor (romântico) há pouco menos. Retomei meus contatos familiares, que haviam se quase rompido, há pouquíssimos meses (ainda são uma descoberta), e converti-me a Deus. Não carrego crucifixos por aí por simples assunção de minha insignificância, e falar em Jesus e mesmo no Deus cristão não me parece mais uma violência - faço-o com o maior prazer (agora sem o peso da hipocrisia, facilmente identificável no tom de voz). Em suma, virei um cara do Bem. Mas não posso deixar de ver. E quando vejo discurso ao léu, como especialista em textos e discursos, não posso disfarçar um certo mal-estar.

Barsan tem, de longe, muito mais coragem do que eu. Lançar um livro de poesia-prosa assim, sem tomar cuidado, e optando por acreditar POR MEIO DE UM LIVRO numa época de realidade crua que parece esconder tudo de bom naquilo que existe e de religiões em polvorosa, todas oferecendo mundos e fundos de realidades que não irão existir, a não ser para o ser humano medíocre que busca satisfação e desejo, é bastante corajoso. Ainda mais me convidando para criticá-lo.

A sina dos homens fortes é aceitar o contraponto, rendendo-se ou não a ele, mas superando-o com seu trabalho. Acredito que ele vá optar por isso. Senão eu não estaria aqui.


Contreraman

Antes: E as coisas que continuam já se foram. E as que se foram continuam para nunca terminarem. Até um fim que nunca vem. Depois: Vale o que tem amor..
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