o olhar amor na arte após o fim da arte e da filosofia

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Contreraman

Antes:
E as coisas que continuam já se foram. E as que se foram continuam para nunca terminarem. Até um fim que nunca vem.

Depois:
Vale o que tem amor.

Whisky & Hamburguer (filme; dir: Caue Angeli)

Quem for um dia assistir "Whisky & Hamburguer", do jornalista e aprendiz de cineasta Caue Angeli, longa ou média metragem (1h10) feito a partir da última peça (estamos em abril de 2016) do dramaturgo e diretor de teatro Mário Bortolotto, com ele e Patrícia Villela, irá participar de um pequeno milagre.


940893_10207684261616551_5927631445696589444_n.jpgMas claro, como todo milagre, este também tem sua explicação, que não é nada rasteira, mas que dá espaço - também como todo milagre - a especulações e a algo que perdura na lembrança e nos recônditos espaços do espírito (escrevo assim realmente para desagradar os mais rasteiros).

Como todo milagre, claro, é preciso citar o santo. O milagre: um longa metragem feito em um dia. O santo: a união da fome com a vontade de comer. A fome: filmar. A vontade de comer: ser filmado. Agora, expliquemos o milagre.

O texto do Mário estava, em toda sua minúcia, dominado por ele e pela partner. Pois esse texto é a base de sua última peça de teatro, que ficou em cartaz no teatro que ele dirige. Em seguida, as marcações. O Mário, sendo dono do texto e da direção, sempre soube, desde que a peça ficou pronta, como as marcações deveriam ocorrer. Só tem um detalhe: eu não estou falando que o filme resultante é teatro-filmado (porque não é).

O filme resultante é filme mesmo. Teatro é outra coisa. Outros motivos para o milagre: Caue é estreante, e foi com paixão, e com paixão soube limitar-se ao fato de ser estreante, e deixar-se levar pela experiência dos partners (Patrícia e Mário); Mário conhece cinema bastante bem, e sabia em que o filme poderia resultar, mas não se intrometeu no trabalho de Caue, que é de Caue (aqui um detalhe: conheço o Mário mais ou menos bem, e o filme que vi não é dele, mas de outra pessoa, no caso, o próprio diretor); não houve frescura, como em nada em que o Mário se mete ou de que participa.

Mas, e o filme em si?

O filme é bom. "Narra" a pós-separação de um recém-abandonado, que vive à base de whisky & hambúrguer, como no título. E que, descobrimos alguns minutos depois, está sendo visitado por uma amiga, talvez a melhor - tanto que ligou para ele o visitou, ao invés de ter esperado que ele ligasse - e ele não ligaria, pois acabou perdendo o celular. O filme, claro, é textocêntrico, centrado no texto entre os dois, e nem poderia ser diferente. A trama toda se passa nesse tipo de acerto de contas consigo mesmo (dele com ele, dela com ela), que, ao contrário do que normalmente acontece (por via de ensimesmamento, de queda em si), aqui ocorre a dois.

Tirando o fato de que é um filme (ou seja, não uma peça de teatro), o filme diferencia-se em alguns aspectos da peça (que assisti algumas vezes no teatro daquele grupo). Antes de mais nada, nele, no filme, ocorre uma ação, simples, que consiste em ele, Roberto, subir as escadas até o apartamento carregando uma Vertigo, a revista que o próprio Marião consome exaustivamente e que povoa parte de seu universo pessimista. Nesse ponto, eu já sentia um certo risco. Pois por conhecê-lo mais ou menos bem, eu tinha medo de ver o Marião atuando, e não o personagem chamado Roberto. No começo, foi o que vi (o Mário), mas depois isso mudou. Passei a ver o personagem, que fora abandonado e que se deixava levar na vida pela comida e bebida do título.

Problema foi ver o apartamento imaculado, a frigideira também incólume de sujeira, e não sentir o cheiro (embora quase pudesse) do dito cujo. Não havia verossimilhança, que se restringia ao texto.

O filme assim foi-se passando, e ao contrário da peça, com maior vagar, permitindo-me sair de vez em quando da realidade dita para embarcar na minha, que é a que faz emocionar. Pois ninguém se emociona com a tragédia (amorosa) alheia.

Definitivamente, ninguém. A gente se emociona somente com as nossas tragédias - e quando não se emociona mesmo assim precisa viver com elas. O filme, aqui, claro, mostrou outro milagre. Mesmo durando pouco mais do que a peça, conseguiu, em meu caso específico, levar-me mais longe do que o texto ou o drama que foi apresentado.

Mas claro também, o filme não é perfeito. Não pela ambientação, ou pela quase total ausência de apelar a outro tipo de imagem, enquanto o texto estava sendo dito (de forma mais lacônica por ele, e apolínea por ela). Mas pelo fato de não dar TANTO tempo quanto necessário em certos momentos, principalmente no último 1/6 dele. Pelo fato de não optar por sair um pouco dos rostos e apostar em imagens que pudessem nos OBRIGAR a entrar AINDA MAIS em nós mesmos. Pois há momentos em que o texto do Mário parece hermético, e se for dito de forma automática ou sem as devidas nuances podem fazer com que nos percamos em seu hermetismo. São trechos curtos assim, claro; trechos curtos mais ensaísticos que qualquer outra coisa.

Centrado nos personagens, o texto flui, mesmo assim, com leveza nos 70 min que perfazem toda a fita. Com leveza e perfeita condição de pertencimento, tanto com ele quanto no que diz respeito a ela. E aqui uma colocação a respeito do texto da peça, e desta no contexto. Há quem defenda que Whisky faz parte da chamada Trilogia da Amizade na obra deste prolífico dramaturgo. Eu não diria bem isso. "Borrasca", que também foi filmada, trata, claro, da amizade entre três amigos (um deles, não presente), mas se apresenta percorrida pelo signo da morte de um deles. Em "A Pior das Intenções", não forçaria dizendo o mesmo, mas me perguntando o que resta entre elas, as protagonistas, que ao final saem para curtir uma cidade em que acabam de chegar - após colocar a amizade em xeque (senão xeque-mate). Já aqui a gente se pergunta: o que fica, nela - que nos abandona - e em nós. A gente sempre reluta, claro, em responder, mas fica com um claro e límpido nada. Eu diria mais então: que esta peça parece ser um desfecho a uma certa trilogia da Morte.

Porque as pessoas parecem ir embora, não é, Mário. E em termos emocionais parece também nada restar.


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