o olhar amor na arte após o fim da arte e da filosofia

Veja ao seu redor - a saída existe e está em tudo e em todos nós

Contreraman

Antes:
E as coisas que continuam já se foram. E as que se foram continuam para nunca terminarem. Até um fim que nunca vem.

Depois:
Vale o que tem amor.

... teremos, então, um dia novamente a verve e competência conservadoras - mas não burras - de um Lacerda, um Paulo Francis et caterva?

Quando fazia jornalismo na USP, em meados da década de 80, o jornalista e polemista Paulo Francis estava no auge. E, estando no auge, preenchia uma página inteira do jornal em que escrevia. E escrevia a rodo, e parecia não prestar contas a ninguém.


paulo francis.jpgEra uma época (também) conturbada, em que a ditadura saía do protagonismo e víamos às voltas com políticos de cepa antiga e nem tão antiga, que iriam conduzir o país à chamada Nova República.

Mas o que mais me atraía em Francis não eram seus comentários políticos - esses, eu quase dispensava. Mas suas fontes. Seus livros, seus autores. Foi por meio dele que, lembro-me, tive contato pela primeira vez com Edmund Wilson, com H. L. Mencken, e com a verve estranha desses aristocratas do pensamento travestidos de jornalistas. Mencken era jornalista, prioritariamente. Mas Wilson, não. E, creio, eles já estavam mortos quando soube de sua existência.

Edmund Wilson edmund-wilson-1-sized.jpg

"Rumo à Estação Finlândia", de Wilson, foi de fato um dos livros que nossos professores recomendavam, e que eu devorei em poucos dias. Contava a revolução de 1917 na Rússia. O que me atraía no autor era a disponibilidade que ele possuía de compatibilizar conhecimento profundo do tema com exposição clara do assunto. Pois todos os outros, em comparação, me pareciam pedantes, arrogantes e pior, não pareciam me dizer absolutamente nada.

Rumo a... RUMO_A_ESTACAO_FINLANDIA_1232242353B.jpg

Mas, ao contrário de meus colegas, eu assumi Wilson como modelo. Eles, mais ponderados, não iriam fazer um negócios desses. Mas eu sempre fui estouvado. Pois eu percebera, não sei se por dica do Francis, que Wilson era um cara realmente interessado por aquilo que havia de mais importante, na sociedade, na história, no momento, e eu também queria fazer parte da trupe. Já Mencken era gozador, irônico e sarcástico, numa vertente satírica que depois eu iria curtir bem mais com o maravilhoso Karl Kraus.

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O Livro dos Insultos o-livro-dos-insultos-de-hlmencken-429801-MLB20426243100_092015-F.jpg

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Wilson, por exemplo, assim como Renan, em sua época, soube dos achados no Mar Morto e lá foi ele pesquisar e escrever a respeito. Seu "Os Manuscritos do Mar Morto" cativaram-me de imediato, embora não os tenha lido até o fim. Pois Wilson era um cara que se interessava e cavoucava na história, também, e buscava SUA interpretação, sua forma de ver, que é o que até hoje eu considero a qualidade por excelência do jornalista que não quer ficar submerso nos fatos.

Os Manuscritos do Mar Morto OS_MANUSCRITOS_DO_MAR_MORTO_1383710993B.jpg

Em suma, Wilson era um ensaísta, como eu quis (e ainda quero) ser. Mas que tipo de ensaísta? Um teórico do teatro, como Northrop Frye, que revolucionou o campo, naquelas bandas? Ou um cara que se propunha apenas escrever numa The New Yorker, o alvo por excelência de todo e qualquer escritor mais alentado que se preze (nos Estados Unidos)?

Por ensaísmo eu entendia (e ainda entendo) um sujeito que superava os seus limites. Que, enquanto jornalista, não ficava restrito ao seu métier de correspondente de guerra (como um Hemingway) ou que, por outro lado, se atinha a um New Journalism no sentido de tentar inovar no estilo. Wilson era ensaísta por entender a revolução de outubro de 1917 enquanto momento histórico, sim, mas também enquanto momento humano, tentando entender o drama que tinha sido aquilo para Reed, o maior jornalista de todos os tempos.

Wilson também inovava no jornalismo ao encarar os manuscritos do Mar Morto porque estes revolucionavam (naquela época) o entendimento daquilo que havia sido a cristandade, o cristianismo, e o entendimento de Jesus e de sua trajetória não para a religião, necessariamente, mas para a história humana. Como havia feito Ernst Renan, em sua época, ao verificar que, se de Cristo não podemos saber quase nada, podemos saber ao menos que ele, sim, existiu, de acordo com os métodos da História humana.

Claro que Francis, ao se dedicar a revelar esse tipo de influência norte-americana, meio que poderia estar exagerando em seus delírios de grandeza. Pois ele mal deixou um ou outro romance, bastante mal avaliado por seus compatriotas e congêneres da época, e mal soube traçar algo realmente de mais permanente neste país que ele praticamente abandonara para, de longe, nos mandar seu "Diários da Corte" (hoje, em nova edição, pela Três Estrelas).

Eis a nova edicao dos textos de Francis na Folha 394698.jpg

Ocorre que ele, ao se meter com a Petrobras, capotou. (Chorei muito na ocasião). Um de seus pupilos, na ocasião, e hoje também falecido, o Daniel Piza, pegou a sua chama, mas convenhamos com bem menos talento.

Daniel Piza donc-danielpiza.jpg

Essa época, como testemunhas da história, era pródiga de rebentos tardios de liberdade. Presentes num Francis, num Millôr, e nos mais recentes Angeli, Glauco e Laerte, cada um em seu meio. Com a saída de cena de Francis, pareceram apagar-se as influências dos meus heróis, não fosse a Filosofia que os mantivesse ainda vivos, ao menos em minha memória.

Claro que não só da Filosofia. Naqueles tempos, meu curso mandava ver nos mais tradicionais e mais avançados rebentos do chamado New Journalism, um tipo de jornalismo que fazia uso de alguns dos recursos da literatura. Tom Wolfe, Gay Talese, Truman Capote e muitos outros eram a pedida da época, a que o jornalismo brasileiro nunca soube fazer jus com justiça (se bem que tenho discordâncias a respeito).

Capote truman_capote_rose.jpg

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Esses caras, alguns dos quais ainda vivos, deram um ar mais leve e algo propositivo a um curso fraco que mal nos nutria do que mais precisávamos: o jornalismo puro e simples. Por incompetência, ausência de didática ou falta de recursos? Não se sabe. Alguns de meus colegas se saíram bem no mercado, eu mais ou menos. Mas não pelo curso. Nunca pelo curso. No afã de seguir as pegadas dos gringos, eu lia e lia Francis, e até uma The New Yorker ou The Economist, para me animar. Pois eu sentia, como ainda sinto, que aquele jornalismo aparentemente menos ambicioso desses rebentos do conservadorismo norte-americano tinham, sim, algo a me ensinar - e tinham, é claro, assim como ainda têm.

Ocorre que os maiorais do new journalism não me animavam tanto assim. Cabe explicar. Talese, Wolfe e Capote, dentre outros, pareciam, com seus talentos, mais do que comprovados, querer tentar dar um verniz mais respeitável a esse ofício que tanto parecia sofrer de deformidade de nascença ou mesmo de complexo de inferioridade: o bom jornalismo puro e simples. Ocorre que eu nunca senti que ele, o jornalismo, precisava no fundo desse tipo de bom-mocismo. Pois eu via jornalismo de qualidade em bastante coisa que aparecia, embora precisasse, claro, ter de cavoucá-la em meio a miríade aparentemente infindável de lixo. Nesse sentido, todos esses beletristas pareciam-me quase inexpressivos. Eu iria verificar que tinha razão nos anos seguintes, ao ser repórter de rua, coisa que poucos de meus colegas realmente iriam conseguir ser.

Foi nessa época que eu, sozinho, do meu jeito, fui me deparando com outros modelos, outras influências, que os professores às vezes passavam, mas que não cumpriam, digamos, nenhuma bandeira. Pois nessa época, é bom notar - e de certa forma ainda hoje - os profes pareciam precisar professar uma bandeira, uma espécie de jornalismo que os afastasse dos outros e que pudesse lhes granjear - ou tentar granjear - um lugar específico ao sol. Nessa leva estava, por exemplo, Dominique Lapierre, um jornalista de peso que cobriu a saga de Gandhi ("Esta Noite a Liberdade") e que fez outro catatau na história dessa cidade que parece jamais parar de permanecer em guerra ("Ó Jerusalém").

D. Lapierre AVT_Dominique-Lapierre_4085.jpeg

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Esta Noite a Liberdade 18369691.jpg

Lapierre havia escrito o livro sobre Gandhi com a colaboração de Larry Collins, e abriu meus olhos com ele ao jornalismo quadradinho escrito pelos nossos colegas de mais recursos lá do hemisfério Norte. Muitos de meus colegas, aqui, porém, não foram nessa direção. Tornaram-se assessores de imprensa (nada contra), ou assessores políticos (nada contra), ou professores de jornalismo (idem), ou funcionários públicos (claro que também nada contra, of course).

Lapierre e Collins, cabe notar, não faziam profissão de fé em algo que intitulavam de algo diferente de bom jornalismo. Eles cobriam eventos de importância histórica superior - no caso, a bipartição da Índia na Índia e no Paquistão a partir do fenômeno Gandhi, e a questão de Jerusalém, cidade destruída no afã civilizatório por todas as religiões que fizeram a origem do mundo ocidental - simples fazendo correta apuração dos fatos, mas sempre olhando para além, para a história, para aquilo que iria realmente ficar. Seus textos, porém, não eram nada literários, não buscavam efeitos, nem olhares altaneiros por sobre a realidade. Eram apenas jornalismo, e era isso o que me fascinava.

L. Collins larry-collins.jpg

Fato é que aquela época parecia, ao menos na faculdade, e para mim, isenta de reais exemplos de jornalistas ou jornalismo de alta qualidade, o que era engano meu, vim ver depois, pois ele estava sendo feito nas redações, nas cidades, nos pequenos jornais de pequenos municípios que lutavam arduamente para se manter, em geral sem sucesso. Eu era apresentado a outra gente: José Hamilton Ribeiro, Joel Silveira, Rubem Braga, gente que em sua maioria estava parando de escrever, e que era mais objeto de adoração no Sindicato dos Jornalistas do que propriamente nas redações. Ou nas escolas, sempre atrás de todos.

Jose Hamilton Ribeiro 15275540.jpeg

Joel Silveira 01950_gg.jpg

Rubem Braga rubembraga2.jpeg

Ribeiro, no caso, que depois vim a conhecer - embora superficialmente - pessoalmente, havia brilhado nessa que era entronizada como a grande mostra de new journalism tupiniquim, a Realidade. Lembro-me, como se fosse hoje, do meu olhar embevecido diante das reportagens que o José Hamílton fizera quando voltara, todo quebrado - machucado mesmo, fisicamente, sem uma das pernas - da cobertura que fizera da Guerra do Vietnã. Como ainda leio com certo assombro dos artigos - bastante datados, atualmente - de Joel Silveira, que fizera o mesmo na Segunda Guerra Mundial, cobrindo o trabalho heróico dos pracinhas, e como hoje reparo com alguma atenção no estilo do Rubem Braga, nos jornais que já ficaram na memória, seja sobre a história daqueles tempos, com figuras como Samuel Weiner ou Assis Chateaubriand.

Pois o Zé Hamílton fazia jornalismo em condições privilegiadas - mesmo quando na abjeção de ter um membro amputado durante uma cobertura, Joel era fruto de uma outra época - e eu não podia me ver, em sã consiência, privilegiado para cobrir uma guerra (mal conseguia trabalhar em revistas de setor, como uma outra em que na época o José Hamílton também trabalhava), e nem tinha liberdade para exercitar minha liberdade de escrita (como se tivesse já critério para isso) em qualquer meio em que pudesse arrumar uma boca. Eu não tinha capacidade nem experiência para tanto. Tudo o que eles haviam feito ficava como ideal impossível de cumprir, mesmo de sonhar.

Não que os meus, digamos, modelos estivessem realmente distanciados da mente de meus colegas, seja onde for estivessem. Pois Truman Capote estava virando filme, em "A Sangue Frio" ou diversos outros, e Wolfe de vez em quando desembarcava por aqui, chamando a atenção com sua elegância e verve. Nada contra.

Trailer de "A Sangue Frio" in-cold-blood-poster.jpg

Mas a geração de Francis, e de sua verve também aparentemente inesgotável, teria se acabado com o seu falecimento, que me causou choro quando trabalhava num portal de internet (a de Ulysses, aconteceu quando eu treinava no Cepê, da USP).

Nessa época, final dos 80, anos 90 em toda sua polvorosa, e a crise da Nova República em todo seu desenrolar, com Collor, Sarney et caterva (voltando ao título deste artigo), o jornalismo precisava se espraiar de alguma forma. O bom jornalismo, digamos. E ele se deu, claro, por meio das famosas biografias, seja de personagens, seja de momentos históricos, ou fenômenos. Essas biografias ocorreram por meio de dois principais nomes: Fernando Morais e Ruy Castro. O primeiro, com personagens às vezes dantescos, mas sempre fantásticos e portanto memoráveis como Assis Chateaubriand, e este, outro, por entre o meio musical e teatral, com a Bossa Nova e Nelson Rodrigues. Com rebentos menores, como a bio do Ulysses, pelo Luiz Gutemberg, que eu também devorei.

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...e o senhor que tomava litio e que desapareceu como lenda 871103083015716eade9769a1176ad0cc44e8a9a.jpg

Morais e Castro, no caso, apenas seguiram o afã de fazer um bom jornalismo, e dele proporcionar às editoras um lucrativo nicho de biografias de ênfase jornalística, não promovendo, nesse sentido - mas também não se propondo a - nenhuma novidade em termos de estilo ou de enfoque provocativo ou polêmico. A polêmica não fazia parte do métier deles. Eles faziam bom jornalismo, com boas e alentadas fontes, e ponto.

O jornalismo, então, do representante conservador, polemista e provocador de certa intelligentsia (que é o foco deste artigo) parecia haver praticamente morrido. Pois o também conservador Piza (desculpe-me) nunca fez realmente jus a seguir o "patrão", nem causava o menor incômodo em ninguém. Pois Francis era idiossincrático, não buscava agradar, com raras exceções. Era fruto de uma época em que você colocava uma besteira no jornal e podia sair apanhando (quando ele falou, injustamente, de Tônia Carrero levou umas porradas de Paulo Autran, por exemplo). Hoje, se você publica algo sobejamente exagerado sobre alguém, pode levar um tiro ou uma ação judicial.

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Antecedentes

Mas voltando a Francis. Ocorre que ele não surgira por acaso. Mesmo ele, idiossincrático como só ele, tinha a quem recorrer, enquanto exemplo e enquanto antiexemplo. No caso dos estrangeiros, cabe antes de mais nada lê-lo, e verificar em que medida ele realmente reacendia à obra de um Wilson ou de um Mencken. No caso de Wilson, já vimos, deixava-o ele ao londe. No caso de Mencken, ele não chegava sequer a tanto, em suas diatribes, que se perderam no Manhattan Connection, onde hoje só irritam aqueles a quem ele se referia. Mas, então, a quem Francis queria emular? Ao maior de todos os nossos maiores: claro, a ele, a Carlos Lacerda.

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Putz, mas aí seria ir longe demais? Não, não seria. Primeiro, porque vários dos contemporâneos de Francis e cujos exemplos permaneceram após a sua morte (viveram mais) dividiram as tribunas com Lacerda, o mais conhecido deles, Millôr Fernandes.

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Millôr, todos sabem, começou como moleque nas redações dos Diários Associados, do para alguns saudoso Assis Chateaubriand, e embarcou, desde o começo, não nos artigos com muita bagagem cultural, mas nas charges, e nos desenhos com ênfase irônica ou satírica. Millôr dividiu as tribunas com Lacerda, sim, mas, venhamos e convenhamos, não fazia sequer sombra a ele.

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Porque aqui temos de fazer uma distinção - ou várias. Lacerda era realmente tribuno - era deputado e, além de jornalista, vinha de uma linhagem de políticos de nível nacional. E os alvos de Lacerda não eram quaisquer um, mas tão somente Getúlio Vargas, o homem de Estado da Revolução de 30 (essa sim, Revolução), que encaminhou o país todo a uma nova história (a CLT, a Petrobras e muitos marcos começaram com ele). E mais ainda: foi a partir do atentado feito contrra Lacerda - o famoso da rua Toneleros, em que o major Raul Vaz resultou morto, e ele, Lacerda, ferido - que Getúlio viu-se às voltas com as condições que levaram ao seu suicídio.

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Não qualquer um poderia bater de frente com Lacerda, cuja vida está virando filme, ele sendo encarnado pelo nosso colega Alexandre Borges. Millôr jamais poderia fazer frente a esse colosso, que deixou memórias e toda uma história a contar, em seu Depoimento, que eu mesmo devorei com sofreguidão quando fazia Jornalismo na USP (pós-graduação). Nem Francis poderia, como podemos supor.

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Mas a marca de polemista de Lacerda deixou muita gana naqueles caras que sabiam escrever bem e que queriam, uma vez ou outra, dar uma de polemistas. Lacerda sempre foi o modelo para todos, se não de ideais, nesse sentido conservadores, de verve, e de acidez da crítica. Lacerda tinha família. Tinha estilo. Tinha agressividade. Parecia (apenas parecia) apenas se escudar na palavra. Lacerda não parecia temer a ninguém. E tão logo Getúlio caiu, Lacerda parecia então aquele corvo confiável e confiante de toda a UDN de que sempre fez parte (mesmo quando nem reacendia a ela). Lacerda também ficou como estigma de confiança do conservadorismo quando veio 1964. Mas Lacerda caíra em descrédito. Lacerda foi mancomunado pelos militares que, estes sim, assumiram a condução do país. Lacerda morreu desacreditado e no opróbio, como um golpista que fora e que jamais fora.

Mas a verve de raiva e de talento de um Lacerda não sumira da face do conservadorismo brasileiro, sem achar quem pudesse empunhá-la. Claro, os tempos correram, e havia Rubem Braga; havia, Cony; haviam, outros. Mas Lacerda, ou seu modelo, ou antimodelo, permanecia, impávido, como um colosso (tirando um sarro da letra do Hino Nacional).

Tempos outros

Os tempos FHC, e depois os de Lula, e mesmo de Dilma, nessa busca de arautos do conservadorismo, pareciam ser outros. As biografias jornalísticas estavam mais do que consolidadas; os conservadores pareciam bichos relegados aos confins da história; os comentaristas eram pessoas mais aparentemente razoáveis, como psicanalistas e historiadores, e os comentários mesmos pareciam mais relegados a cadernos de variedades ou segundas páginas de cadernos de cotidianos. O Daniel Piza tinha seu lugarzinho garantido no meio dos livros, das peças teatrais, dos cinemas de gente de bom gosto, e ninguém parecia mais querer mexer com ninguém.

Foi a época, por exemplo, da ainda ativa Maria Rita Kehl, tentando jogar alguma luz, às gerações vindouras, daquilo que teria sido a geração 68 (que causava náuseas num Francis e em todos os que o seguiram), ou de psicanalistas vários, com ela, que ainda jogavam sua verve nos jornais sobejamente atacados pela internet. Como o Contardo Calligaris, que li bastante até há pouco tempo.

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Todos eles, sempre tentando entender filigranas que à grande maioria dos mortais pouco interessava, ou tentando trazer luz sobre momentos da história que faziam a festa entre estudantes de jornalismo, de história, de filosofia, etc. em universidades de primeiro e segundo escalão que começavam a pulular por todo o país. Tinham audiência, é certo; tinham prestígio, também; mas não tinham aquela virulência dos sujeitos que aqui comento, representantes conservadores que retinham as influências lá de longe, ou de muito longe, histórica e geograficamente falando. Mas isso mudou.

Os tempos de Lula caíam por terra e os representantes virulentos e bastantes antipáticos começavam a retomar suas forças, a partir de Estados do Sul ou Sudeste, muitos deles, e das formas mais estranhas possíveis, com reencarnações as mais variadas. A mais conhecida dessas referências, ou antireferências, surgiu do meio musical, pelo Lobão.

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O Lobão sempre fez-se querer ser diferente. Sendo roqueiro, adepto de drogas, do lema do rock ou não, ele sempre também quis apitar no meio da política, e sempre trilhou vias profundamente idiossincráticas e mesmo inovadoras no meio musical ou não. Mas no meio editorial ele não havia se lançado como alguma ênfase diferenciada até que resolveu se opôr ao PT, a tudo que reacendesse PT, a tudo que reacendesse esquerda, e a se colocar como uma via aparentemente estranha tanto à esquerda quanto à direita.

Porque à direita nós também passamos a ter, no meio ambiente da polêmica, "nosso" arauto de tudo o que fosse anticomunista, antiesquerdista, antipopulista, que é o arquiconhecido Olavo de Carvalho. Olavo é um profundo conhecedor da verve de Francis, e ele nunca fez questão de esconder isso.

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Mas ele tenta reacender a algo mais: a um pensamento anterior aos frankfurtianos, anterior aos althusserianos (que eu li entre sôfrega e desconfiadamente na minha primeira graduação), anterior a todos esses que vieram, segundo ele, dominar o pensamento das ciências sociais nas USPs, PUCs, e outras da vida, segundo ele impedindo a juventude de pensar - pelo menos a juventude burra.

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Navegar nas lides olavianas é outro e arriscado. Outro porque bem notamos um Feliciano citando o Olavo no seu voto do impeachment; arriscado por isso mesmo, mas também porque Olavo fez sua obra nos jornais, porque ele não pode ser resumido a um beabá felicanesco ou bolsonaresco; porque Olavo ainda dá um certo valor à Filosofia, o que se depreende claramente de seus livros, alguns dos quais eu leio e que devoro com certa fruição - porque, concordando ou não com ele, ele escreve bem. Como todos os que venho citando. Todos aqui escrevem bem. Todos, sem exceção.

Novos provocadores

Hoje, em termos de provocações, ou pseudoprovocações (para citar o quase recém-falecido Abujamra), o panorama é bastante estranho. Passado o afã pelo impeachment (que, cumpre notar, ainda não tem seu desfecho claro), os provocadores parecem ter-se contido em seus lugares. E os lugares parecem ser outros. São os jornais, em parte, claro; mas são também as tribunas por twitter, ou por canais de facebook, ou até mesmo pelos sites ou blogs pessoais. Quem hoje reacende as provocações do Lobão? Poucos. Quem hoje (passado o achincalhe que foi notar como o MBL se restringiu à sua solene insignificância) ouve o Kim Kataguri? Quem hoje sequer cita o Roger, do Ultrage? Poucos. Onde está o conservadorismo à la Francis, que é o objeto de estudo aqui, agora que eles parecem ter conseguido que queriam? Não se sabe.

Sabemos, porém, que quem ainda fala escreve bem. Seja no espectro mais à esquerda de um certo conservadorismo, seja à direita, todo aquele que se supõe possa levar a sério o legado de um Lacerda ou de um Paulo Francis escreve bem.

Como um Mário Prata, que se bem não dispute lugar com nenhum dos já citados deve tê-los lido a todos, ou um recente Antonio Prata, da mesma família, que faz suas provocações nos jornais, mas agora para gerações que parecem nem ler mais, venhamos e convenhamos. Ou mesmo o Mário Bortolotto, que embora não escreva sempre em jornais ou revistas, quando não está entediado com o baixo nível do debate até tenta jogar alguma luz nesta geração para a qual aqui eu escrevo (tentando fazer a passagem de bastão, de uns para os outros).

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Ou mesmo o Mário Bortolotto, que embora não escreva sempre em jornais ou revistas, quando não está entediado com o baixo nível do debate até tenta jogar alguma luz nesta geração para a qual aqui eu escrevo (tentando fazer a passagem de bastão, de uns para os outros).

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Podem me dizer que eles não são conservadores. Mas são o quê, então? São progressistas, no sentido de acompanharem as lutas dos estudantes secundaristas, que, estes sim, questionam o poder estabelecido com base nas pautas do próprio poder, ou os seus próprios meios, quais sejam, CPIs, etc.? Não, eles, os articulistas citados, todos eles, e mesmo os amigos, mal acompanham as lutas acirradas dos que mais são atingidos pela exclusão, pela ausência de meios, ou mesmo pelo achincalhe físico. Não, eles são, sim, conservadores. Não a ponto de conversarem com o Olavo, mas são conservadores. E não provocam, o que ainda é pior.

Alguns (quasi-)provocadores

Hoje o que aparentemente não falta é tribuna. Temos o facebook, temos os meios tradicionais, temos até os jornais. Todos parecem ter um lugar ao Sol, mas aparentemente nenhum parece fazer jus a ele. Os provocadores não parecem provocar quase nada, e quando o fazem, é sobre assuntos que interessam a minorias ou a pessoas que, por razões biográficas, precisam ainda superar fases da vida.

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Temos um Jabor. Mas, venhamos e convenhamos, o Jabor provoca algo a alguém? Ou ele não é hoje mais uma espécie de repetidor do refrão "é uma vergonha!" por um representante dos mídia de triste memória que eu me recuso a citar, e que não causa vergonha a mais ninguém? Um excurso pessoal é que noite destas vi o próprio Jabor na entrada de um teatro de amigos esperando sua vez para assistir uma peça, e fiquei pasmo em como ninguém tinha, nem mesmo nesse lugar bastante conservador, nada a falar para ele. Foi bem triste e convenhamos patético. Um provocador que não consegue sequer uma companha em mesa de bar é algo que faria corar uma Dorothy Parker, rememorando os anos 20 (olha lá, faz quase um século!).

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Fato que são tempos diferentes, estes. O que não significa que não se publiquem artigos (se publicam) ou só se publiquem matérias (tipo coisas verdadeiras), é bom ressaltar. O momento hoje é totalmente outro. Pois, olhando a penca de gente que outros dizem ler, podemos considerar, por exemplo um filósofo Pondé um cara polêmico, ou que seja, algo provocador? Lamento, mas não consigo. Pondé leu os filósofos que interessam, é certo, e até tem certo rigor ao abordar certos assuntos, mas como levá-lo a sério, justo a ele, que se dispôs, tão logo o impeachment pela Câmara passou a olhos vistos ao mundo, a gravar uma espécie de panorama de conjuntura para o MBL!!!!!!!!!!!! Impossível.

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Dirão que o mundo mudou e que o mundo seria agora, ao menos em parte, de algo como minorias ou representantes delas, e que por causa disso eu deveria dar trela aos argumentos de uma também filósofa Márcia Tiburi. Sorry, galera, mas também não consigo. Pois lembro-me bem da Tiburi, em charlas em meios teatrais das quais eu mesmo fiz parte (e o pessoal da Mídia Ninja, de triste memória), totalmente perdida, sem ter o que falar sobre o resquício do que foram as manifestações de 2013! Ela com certeza achou o seu quinhão. Mas até achar que ela tem algo de provocativo a dizer, agora, vai uma longa distância, quase intransponível, entre o Sol e a estrela Vega. E Villa? Bom, voltando, então, ao assunto em questão...

Um mundo sem provocadores? (Uma pequena provocação)

Este meu pequeno artigo (na verdade, um ensaio que se provou mais prolífico do que eu mesmo imaginava) partiu de uma premissa: a de que o pensamento conservador, de alguma matriz polêmica, 1) se manteve escondido durante os anos FHC e Lula, sem conseguir emergir, com sucesso, por falta absoluta de competência e de bandeiras, 2) agora ressurgiu, reassumindo parte do destaque da opinião pública, e parece ter conseguido seu intento, mas 3), tendo acontecido o que aconteceu, perdeu sua relevância e suas bandeiras, ao que parece reassumindo o país o mesmo padrão conservador de quando surgiu (por volta da década de 50, quando Lacerda, conseguiu o seu intento). Mas a pergunta que resiste é: será que é só isso, mesmo? Será que agora estaremos restritos ao afã rasteiro desta gente que parece não pensar e que, pior ainda, não tem nem coragem para provocar nem para aguentar uma ação judicial em troca?

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Os fatos são rasteiros. Como li recentemente no LinkedIn, 7% do que sai é jornalismo (lá nos Estados Unidos). O resto, pura propaganda ou má intenção, e como sabemos, aqui não deve ser diferente. Pois bem sabemos a facilidade que é mascarar propaganda com fatos, muitos fatos, excesso até deles. Não que não existam jornalistas mesmo por aí. Mas são poucos. Dos meus colegas, então, melhor nem falar de alguns.

A esperança é a de sempre: no jornalismo, para quem não faz parte, ou não conhece, as mudanças em geral transcorrem abaixo da superfície do mar. Quem pode dizer, por exemplo, como chegamos a um Panama Papers, em que centenas de jornalistas ao redor do mundo devassaram, por meio de deep web, transações transnacionais que estão jogando muitas empresas e funcionários públicos para o paredão que consiste na revelação de tramóias? Quem pode dizer, de onde pode dizer, o que ninguém mais tem coragem de dizer?

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Ao meu maior, Karl Kraus, dedico este artigo como singela homenagem pelo exemplo (e se vc nao sabe nada sobre ele, agora que eu escrevi tudo isto, PROCURE). Karl_Kraus.jpg


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Antes: E as coisas que continuam já se foram. E as que se foram continuam para nunca terminarem. Até um fim que nunca vem. Depois: Vale o que tem amor..
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