o olhar amor na arte após o fim da arte e da filosofia

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E as coisas que continuam já se foram. E as que se foram continuam para nunca terminarem. Até um fim que nunca vem.

Depois:
Vale o que tem amor.

Cântico dos Cânticos: quando Deus encontra o amor carnal, e nós, o sexo

A Bíblia, apesar de composta por tantos e tão mal lidos livros, só tem um que fala do amor carnal, o amor de um Amado por uma Amada. E a grande sacada dele é fazer-nos intuir o infinito que é o sexo feito com amor


In-love-sex-and-sexuality-23389167-450-338.jpgO sexo domina em grande parte nossa vida. Mesmo casados, ele nos controla por vezes, e quando solteiros, nos faz entrar em grandes confusões e viver também grandes experiências. Freud criou grande parte de seu corpus teórico como psicólogo - disciplina que ele criou - a partir de observações sobre o papel do sexo na formação do indivíduo.

Mas nas religiões o sexo é tratado de forma, em geral, conservadora. Não se pode falar sobre ele em ocasiões em que a religião está em questão. Os papéis sexuais parecem, assim, para quase qualquer religião, estar determinados de antemão e nada poder a partir daí ser discutido. É como se o sexo fosse proibido, quando todos sabemos o quanto ele nos guia, em nossos dias, e o quanto os problemas relativos a ele são importantes para nós.

Nesse sentido, sendo virtualmente proibido falar sobre sexo, ao menos com quem dá tanta importância à religião, só nos restaria falar sobre amor. Mas amor o que é, em termos sexuais? A posse da alma e do corpo (para continuarmos cartesianos) do nosso ser amado.

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Mas como nos proíbem de forma subentendida a falar sobre sexo, pensamos então que o sexo enquanto domínio do corpo não é algo sobre o que se deve falar ou sequer pensar. E jogamos então nosso pensamento para o domínio da alma, do ser, daquilo que a pessoa realmente seria, e não o seu corpo. Deixamos para trás as questões mais rasteiras, os pensamentos proibidos, as coisas libidinais.

Tendemos, assim, a pensar no sexo separado da alma, do ser da pessoa, e quando pensamos em amor achamos que ele deve necessariamente se entrosar com o sexo. E que o entrosamento ocorrerá natural e calmamente, que a compreensão que temos com a pessoa enquanto o amor vige naturalmente vai também "funcionar" na cama. Mas aí damos com os burros n'água. E percebemos que não tem nada a ver.

Ocorre porém que se formos por outro lado, pelo lado do sexo sem o amor, tendemos a nos esfriar e a considerar que os atributos para um bom sexo dizem respeito a questões simplesmente corporais, a mexer bem o quadril, fazer um bom oral, ter uma boa pegada, e assim por diante. E quando nos dizem que sexo com amor é mais gostoso e pode nos levar mais longe do que podemos imaginar, a gente duvida. Não sem razão. Afinal, nunca conseguimos compatibilizar as duas ideias, amor com sexo bem feito.

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Um breve excurso pessoal é que eu fui casado dez anos. Fiz muito sexo mesmo antes de casado, e tenho que admitir que ele era bastante satisfatório para mim e para ela. Nos gostávamos muito, mas também havíamos ficado muito tempo na seca, e queríamos tirar o atraso. Com o tempo, nossa relação foi esfriando e o sexo manteve-se do mesmo jeito. Até o fim, quando nos separamos. Tentamos muito fazer o que nos agradasse, mas creio que no cômputo geral não conseguimos.

Ocorre que, quando, após alguns anos, eu me envolvi novamente com alguém, me dediquei com amor. Não sei ainda muito bem se o amor era mesmo tão forte assim, mas minha vontade era mesmo deixar a decepção para trás e olhar mais para minha parceira, respeitá-la e ao mesmo dominá-la como nunca fizera antes, e fazer-lhe agrados que a mim antes não haviam me ocorrido fazer. Eu era bastante conservador e machista sobre sexo até aquele momento, preciso admitir. E aconteceu o que eu não esperava. Uma receptividade absurda. E passei então a me sentir um outro homem.

Voltando então ao começo deste texto, o livro do Cântico dos Cânticos identifica o amor carnal a algo que diz respeito a um amor que de romântico tem apenas a metade. Pois, muito embora Deus seja citado muito poucas vezes no livro todo, é como se a mão dele ungisse o casal, e o amor fosse verdadeiramente real. Como se, por detrás de todas aquelas linhas de beleza e de amor profundamente correspondido, houvesse algo maior. Algo que fizesse o amor interno e o amor carnal valer realmente a pena.

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Claro que, na vida real, isso - esse amor que cria a ponte com o Criador e que faz o amor interno, vivido, e o amor carnal valer a pena - é apenas um ideal. Mas a questão é: tirando isso, o que nos resta? A confiança em aprender a se valorizar transando sem amor? Ou a ideia de que mais vale quantidade a qualidade? Ou a vontade ser dominar ou ser dominada para curtir a vida momentaneamente, mantendo o medo, no interior de si, de amar, e de realmente se entregar com amor?

Um outro excurso pessoal é que, antes do meu último relacionamento mais sério - aquele, em que me entreguei -, eu tinha bastante medo de me entregar por inteiro no sexo. Como já disse, eu tinha um comportamento bastante machista e egoísta no sexo, e não sabia - ou não queria - como proporcionar-nos maior prazer (e acho que ela também não sabia, pois havia perdido a virgindade comigo).

Depois, naquele último relacionamento, eu não optei por manter essa via, muito ao contrário. Tinha uma vontade de amar e de sexo tão grande que, ademais de me entregar ativamente a ela, me entreguei - não entendam mal, porque não tem nada a ver - também passivamente, deixando nossos corpos ditares as regras, e não EU APENAS fazer isso. E foi revolucionário. Não fiquei fixado nisso, queiram saber, mas a entrega, em todos os sentidos, mostrou-me a diferença que faz.

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Mas, por que a pessoa então não se entrega, com amor, no sexo com pessoas que acaba conhecendo a fundo o suficiente para tal? Não posso dizer por quê, como é óbvio. Mas sinto sempre haver muito medo envolvido. Medo de se comprometer. Medo de a pessoa entrar demais na vida da outra. Medo de sentir uma paixão tão grande que não consiga mais segurar a peteca. Medo de muita coisa. Medo até de sentir prazer demais.

Pois aquilo a que, ao que me parece, o Cântico dos Cânticos se dedica é justamente ao afã de retirar esse medo. Não de demonstrar por que ou como o amor entre o Amado e a Amada pode ser realmente maior. Não de mostrar como ele acontece, ou deve acontecer. Mas o livro, sua leitura, no caso, parece querer mostrar que para amor real, maior, ideal, não é preciso ter medo, e deixar-se levar pela torrente de sentimentos e sensações que estão a todo momento à nossa disposição.

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A Bíblia é, a meu ver, o tempo todo um livro que propõe um encontro - seja no Antigo e no Velho Testamento. Um encontro nosso com aquele Deus em que acreditamos. Um encontro com ele e no fundo conosco mesmos. Como se ele pudesse nos guiar, de forma inapelável, aos nossos objetivos e a uma importante paz de espírito. Não vejo o Cântico dos Cânticos de forma diferente. Leio-o e percebo o quanto ele me transmite por um lado paz, e por outro confiança. E o que é o amor sem confiança? Nada.

Sem cometer heresia, contudo, diria ainda mais. Diria que quando fazemos um sexo com amor, assim como bem feito - porque existem técnicas, e muitas, mas eu fico pasmo ao perceber como a gente as aprende quando se dedica com amor -, a gente também se aproxima da mesma paz.

A paz que é ver a pessoa a que nos dedicamos ou que se dedica a nós - na cama - realmente feliz, para assim realizar, de forma efetiva, no seu espírito, e no nosso, e no Dele, um talento que ganhou (que ganhamos) gratuitamente de Deus.

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