o olhar amor na arte após o fim da arte e da filosofia

Veja ao seu redor - a saída existe e está em tudo e em todos nós

Contreraman

Antes:
E as coisas que continuam já se foram. E as que se foram continuam para nunca terminarem. Até um fim que nunca vem.

Depois:
Vale o que tem amor.

Jazz, Blakey, Marsalis, "Colateral" e a sensação de que a noite nunca deve acabar

Nunca passei por essa sensação ao vivo. Creio que muitos outros também não. Refiro-me não a grupos nacionais, que já vi, mas a gente que realmente faz a diferença - e por gente refiro-me a banda, ambiente e espectadores. Nessas ocasiões, até um cara mal-educado no momento errado pode estragar a noite - uma vez, num show a que fui convidado, um de nossos colegas fez esse triste papel e bom, a noite se foi assim, capengando. Uma pena.


jazz.jpg"Os anos de jazz" é hoje uma expressão atemporal que remete a todos aqueles ambientes, facilmente reconhecíveis, em que o foco está no swing e no compartilhar de almas entre todos os presentes, embalados por algum grupo de jazz. Os filmes de Robert Altman (embaixo, Kansas City) ...

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... mostram isso quase palpavelmente; eu considero que uma das cenas em que isso fica mais claro está, por incrível que possa parecer, num filme de ação, "Bullitt", quando o detetive e a namorada jantam num restaurante com música ao vivo. Vejam: static1.squarespace.jpg

Nunca passei por essa sensação ao vivo. Creio que muitos outros também não. Refiro-me não a grupos nacionais, que já vi, mas a gente que realmente faz a diferença - e por gente refiro-me a banda, ambiente e espectadores. Nessas ocasiões, até um cara mal-educado no momento errado pode estragar a noite - uma vez, num show a que fui convidado, um de nossos colegas fez esse triste papel e bom, a noite se foi assim, capengando. Uma pena.

Quando abandonava minha fixação pelos guitarristas virtuosos da década de 80, comecei aos poucos a me aproximar dos grandes e intocáveis nomes do jazz norte-americano de todos os tempos. Isso por intermédio de cds, comprados baratinho numa lojinha que ficava no Conjunto Nacional.

Conjunto Nacional natal-2013_avenida-paulista_101213_foto_josecordeiro_0033.jpg

Lembro-me do êxtase experimentado ao encontrar hoje faixas comuns de Sonny Rollins, John Coltrane e da estranheza ao ouvir Cecil Taylor, no qual fiquei fã de carteirinha e cujo trabalho no piano acompanhei a apenas 5 m de distancia, quando veio nos prestigiar com sua loucura bendita.

Cecil Taylor cecil-taylor-04.jpg

Como morava com meus pais, eu não podia ouvir música alto, e por isso usava fones de ouvido daqueles que hoje viraram moda hipster, mas que eram os únicos que me serviam. E notava como, por meio daquelas faixas enormes, algumas, exatas, outras, eu conseguia avançar numa sensibilidade aguçada que me remetia a sentimentos que eu sinceramente não conseguia desenvolver. Mas eu tinha medo disso. E por isso acabei recaindo numa visão mais engenheira e menos lírica do que me aparecia. E fazia como que cálculos com as notas que ouvia. Era uma higiene mental, em suma. Mas isso foi depois.

Nos anos 90, eu engolia sem dó todos os hits que iriam formar minha musicoteca de jazz nos anos seguintes. E ia percebendo aos poucos a graça da coisas, assim como o significado vivencial desse tipo de audição. Cito-lhes por exemplo, Time Will Tell, do Wynton Marsalis, com a banda do Art Blakey, que eu assimilei (foi a primeira com a qual fiz isso) nota por nota, tal qual um Steve Vai pegando, uma por uma, das mais complexas composições e improvisações de um Frank Zappa, o primeiro virtuoso a criar estilo.

Art Blakey blakey_wide-8026ab7f58376b0b74a50b4dac4b796418ec3fea.jpg

Foi ouvindo essa coisinha que parece não parar nunca, e cujos solos, embora não perfeitos, criam um contraponto legal à base rítimica, que eu fui me "sentindo" no local de jazz perfeito, e idealizando o que teriam sido aqueles lugares, e com isso "admitindo" (refiro-me a mim) a realidade suja de um lugar que parece não dar em nada mas que tinha Miles Davis de prontidão para entoar sua parte (reparem que no filme Colateral, do Michael Mann, há uma espécie de esforço de retomar a lenda que eram aqueles tempos e lugares, por serem qualquer lugar, e também porque o cara que anda pela noite sabe muito bem que muitas vezes achamos pérolas perdidas em becos mal-afamados).

Colateral, a cena do jazz Collateral.jpg

O Wynton veio um ano destes aí ministrar cursos em escolas de música para gente que leva tudo isso como profissão, e não para um reles mortal como eu, que me contento em ficar olhando de longe, ou quanto muito só um pouco mais perto. E o Anthony Braxton, conhecido bastante tempo depois, também veio uma noite, que eu perdi por descuido. Mas na verdade eu bem me lembro: eu não queria ver mais aquilo lá, não - nem o Wynton dando aula, nem o Braxton experimentando. Nessa época, eu já voltara a me familiarizar com esse negócio de noite, e de bar noturno, e de vida enquanto a música rola, os amigos chegam, e dançam, as garotas vêm e vão, ou vamos com elas e tudo o mais. Eu conhecia então o que era o lugar daquelas noitadas de jazz sem ter estado sequer um minuto em meio a elas.

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Não que eu conheça muito, claro. Não conheço. O Marião, que a todo esse universo foi apresentado por outras pessoas, sabe, por exemplo, muito mais do que eu jamais poderia esperar, dado que ele também realmente se dedicou a cultivar o gosto, e por isso também é tão bem cotado entre os do teatro e seus amigos. Mas foi navegando naqueles cds matreiros, que ainda possuo, e usando equipamentos pré-históricos é que eu consegui aos poucos me aventurar no universo que hoje é falsamente rotulado como noir, mas que de negro não tem apenas a cor da noite e da maioria dos músicos, mas a ênfase de vida, algo soturna, mais para melancólica, que é mais coisa da Filosofia.

Capa do face do dramaturgo e diretor Mario Bortolotto, que tem tudo a ver com seu bar e teatro, do qual sou avido frequentador e aprendiz 13133228_10154128216507905_5057767646241572976_n.jpg https://www.facebook.com/mario.bortolotto?fref=ts

Outra ocasião comento.


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