o olhar amor na arte após o fim da arte e da filosofia

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Contreraman

Antes:
E as coisas que continuam já se foram. E as que se foram continuam para nunca terminarem. Até um fim que nunca vem.

Depois:
Vale o que tem amor.

De Conan a Sellers, com o Oscar de Morricone e o exagero de Vangelis: uma história pessoal em cenas e trilhas

Uma vida regada a trilhas exageradas e outras, comedidas, que fizeram uma vida, do começo quase ao seu fim.


harmn.jpgLembro-me bastante bem de quando fui, com um amigo próximo, assistir "Conan, O Bárbaro" nos cinemas. Eu deveria ter uns 15 anos, mais ou menos, e foi assim, imberbe, que levei de cara - e na cara - as frases de Nietzsche ("O que não me mata me fortalece"), que comprovei verdadeiras, e a forte cena da morte da mãe de Conan.

A conversa com o pai dele nos montes, e tudo o mais sempre pareceu-me menor, talvez por não ter paciência para histórias de deuses - exceto, porém, a noção de podermos nós, seres humanos, ou mais especificamente homens, ser quase deuses - se assim o quisermos. Pois Conan era algo mais que um homem: era aquele que por se suplantar ia além de seu mero destino. Como eu sempre quis. Para mim.

The Wheel wheel.jpg

Esse supradestino era, acima de tudo, o que eu derivava da trilha de Basil Poledouris. Uma trilha coesa e tranquila que, passadas décadas, ainda reconheço de cor, e cujos valores admito para sempre superlativos. O triunfo da vontade, a alegria da liberdade, a posse do próprio destino, o caráter menor do desejo do corpo, a negação de tudo o que venham nos dizer superior ao ser humano. Está tudo lá. Ainda me emociono ao ver aquela trupe - bastante mal ensaiada - dos órfãos de Doom jogando as velas na fonte em frente de onde James Earl Jones perdia literalmente a cabeça nos braços de Arnie.

The Orphans of Doom orphans.jpg

Já desde aquela época eu parecia preferir - nos efeitos em mim da memória - as trilhas de filme bastante quadradas, faixa por faixa, àquelas mais ambientais de filmes quase sempre superiores. Talvez fosse por querer atribuir sentido unívoco àq uilo que acontecia à minha frente. Talvez fosse por estreiteza mental, somente. Nunca soube.

Assim desse jeito eu havia "engolido" "Guerra nas Estrelas". E não assimilado assim tão bem "Poltersgeist". Não tanto pelos méritos de um ou de outro. Mais pelo que eu já disse. E que levarei comigo.

Pois é estranho como as trilhas se tornam parte da gente. E como podemos sair dos acordes das músicas e das faixas e adentrar, de forma absurdamente eficaz, nos universos da tela e dos diretores. Como entender que aquela musiquinha bastante datada (Little Green Bag, de George Baker) fosse me fazer adentrar de tal forma no universo dos meliantes, em "Cães de Aluguel", por exemplo?

Reservoir Dogs fghgsqi3.jpg

Como entender o sentido de liberdade contido em "Expresso para o Inferno", em sua última música, clássica (Gloria em D Major, de Vivaldi), cujo sentido Kontchalovski adaptou de Kurosawa?

Runaway Train expresso.jpg

Quase sem exceção, então, eram as trilhas que me retinham nos filmes, e em sua fixação enquanto obra filmada, mas, ainda mais importante, em sua temática e sua visão absoluta do mundo.

Não adiantou, comparativamente, que "Blade Runner", em seus delírios de grandeza (justificada), me alçasse infinitamente na descrença pelos seres e na crença pela relação, na grandiosíssima trilha que hoje a gente acha com mais de três horas no You Tube. Pois, embora eu me recorde muitíssimo bem de tudo, no filme e nos trechos da trilha, o caráter magnífico desta meio que parece afastá-la de meus valores mais profundos, e assim de minhas recordações mais fúnebres ou funestas - que me perseguiram por toda a vida.

Blade Runner's End Nope-not-Jared-Leto.-But-possibly-more-psychotic.jpg

and Beginning Made for each other Blade Runner.png

O mesmo com "1492", também de Vangelis, que embora por vezes me anime a pensar no continente em que vivo, em outras ocasiões me afasta de mim pelo mesmo motivo. Pois é como se eu relutasse até o fim em dar um sentido às coisas, e especialmente às mais importantes - algo que também ocorre em "Mishima", cuja abertura, eu me lembro, tanto me animou quando sofria, sozinho, as dores da família que parecia se desfazer (a minha).

Houve, claro, nesse afã de assimilar para recordar ad infinitum, tentativas de captar, por meio da trilha, aquilo que de mais relevante parecia o diretor (ou o romance base para o roteiro) me dizer na tela. Em "Donnie Brasco", de Mike Newell, eu tentei diversas vezes essa conexão - sem sucesso. Em "Heat - Fogo contra Fogo", de Michael Mann, também. Mas não adiantou.

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Embora os filmes tenham ficado em mim - naquilo que de mais profundo querem dizer (a amizade, no primeiro; o destino, no segundo) -, não o foi pelas trilhas (embora algo pelos sons - no caso, a estridência de determinados momentos em Heat).

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Significaria isso que os responsáveis pelas trilhas não foram competentes o suficiente? Talvez. Em Donnie, teria sido necessário reformular tudo (aqui, o tema principal). Em Heat, quem sabe entender que algo a mais deveria ter sido fornecido - algo mais entranhado, mais forte, de maior empatia. Sei muito bem: Donnie ganhou prêmios pelo linguajar; mas isso para mim não é em nada relevante: pois a dor da amizade não passou naquela faixa título ensimesmada.

Mais ou menos nessa época (ou algo depois) vim ter o primeiro contato com a obra de Morricone, e com ela com a altura possível e inimaginável (até aquele momento) da identificação entre obra e obra (cinema-música). Mas isso aconteceu (por incrível que possa parecer) por outras mãos que não as dele: por John Zorn.

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Pois foi nas pesquisas por jazz dito difícil que cheguei, pela via transversa, à obra original do italiano. E com isso aos temas de todo o sempre, que pouco depois viraram filmes vendidos a batelada nas bancas: "Era uma vez no Oeste", "O Bom, o Mau e o Feio", etc.

Once... once.jpg

O maior barato foi notar o quanto Morricone parecia falar direto para mim, apostando que, ao final do filme, eu ficasse com sua mesma impressão de desesperança e brilho (o meu pai era tambem a cara do Henry Fonda). O ser humano é medíocre, mas quer alçar altos vôos, coitado. Como em "Era uma vez na América" (cujo tema de amor me lembra minha ex-esposa), "Os Intocáveis" (cujo tema de encerramento me traduz claramente a vitória que é a vida simplesmente vivida), e especialmente "Era uma vez no Oeste", cujo encerramento com a harmônica revela o peso que é o destino definitivo (e que me lembra meu pai).

Untouchables untouch.jpg

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Ocorria que, com tudo isso, o leque de emoções parecia, sim, bastante chapado. E que isso, embora pudesse me satisfazer (sempre fui emocionalmente limitado), não fazia o que poderia haver de melhor acontecer. Eu precisava, com meus meios, "entender" o que era viver à margem. Eu precisava também "entender" o que era matar alguém, em suas mais profundas esperanças, no ridículo da vida plenamente vivida. Eu precisava.

A margem eu encontrei em Bob Dylan, no único trabalho dele com o grande Sam Peckinpah, "Pat Garrett & Billy The Kid", trilha hoje mais conhecida pelas composições fartamente gravadas pelos outros. Como aqui, na revelação da trama, no que havia nela de mais profundo, cavando um fosso entre Pat e Billy, também "dizendo" o que era vida de bar.

Billy and Pat pat-garrett-billy-the-kid-01.jpg

E aqui, no corte da orelha do policial por um dos Mrs. da trama de "Cães de Aluguel". Pois esses trechos de filme, com as respectivas trilhas, pareciam, realmente, me dizer: é aqui. Aqui em um tipo de vida que aparentemente não me dizia respeito; e aqui também, numa espécie de ironia diante do que podemos até evitar, mas não queremos.

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Maior ironia seria perceber que, após centenas de filmes, e de estar absurdamente entediado com o que via - pois não me parecia acrescentar nada, em camadas de profundidade entremeada com a leveza necessária das cenas -, eu somente iria mesmo me possibilitar descansar com Satie, em "Muito alem do jardim".

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Pois não era para mais nem para menos que aqui eu podia finalmente ter e não ter esperança - num ser humano bobo que não para de se incomodar com aquilo que ele é: nada, em suma (via Johnny Mandel). Viver é um estado da mente. E a vida, so um jardim, como com Rousseau.

Chance, in Being There 79_2_screenshot.png

Como o próprio Lemmy diz (bonus).


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