o olhar amor na arte após o fim da arte e da filosofia

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E as coisas que continuam já se foram. E as que se foram continuam para nunca terminarem. Até um fim que nunca vem.

Depois:
Vale o que tem amor.

Uma breve história idiossincrática do jazz: das bandas de rua à chatice dos "elegantes"

Jazz hoje parece ser musica de gente chata. Ou falsamente elegante, que quer pagar horrores por shows de Diana Krall, dentre outras meninas bonitas. Mas o jazz que realmente vai sobreviver ee coisa bem diferente. Esse jazz permanece nas ruas e nos bares, tal qual o rock de verdade tambem aparece e desaparece, nas ruas e bares. O jazz ee sinal de liberdade. Esta ee uma pequena historia muito minha sobre o genero.


booker_pittman-E.jpgNão me lembro muito bem como cheguei ao mundo do jazz instrumental. Mas lembro-me bastante bem que minha passagem por esse ramo se deu de forma inteiramente distinta do jazz cantado. E que na verdade eu considero o jazz cantado algo mais como blues. Ou seja, jazz para mim é jazz instrumental. Naquelas formações clássicas, com aquelas deixas respeitosas, e aqueles solos antiegolátricos.

New Orleans' style OTL3.jpg

Minha trajetória no jazz instrumental (a partir de agora, só jazz) deu-se por meio daqueles sujeitos que haviam sido influenciados pelos maiores, e não necessariamente pelos maiores. Há exceções, por certo. Pois eu comecei a curtir o clima do jazz pelo Wynton Marsalis. Pelo Art Blakey. Pelo J. J. Johnson. Eu não fora apresentado ainda, quando comprava aqueles CDs baratinhos da série XXXX, ao Charlie Parker, ou ao Miles Davis, ou ao Chet Baker, só para citar alguns.

Nesse sentido, eu ouvia gravações das décadas de 50 e 60, principalmente, de clássicos que haviam sido gravados originalmente por outros ou que depois iriam ter outras regravações. "Time Will Tell" foi um caso exemplar. Feita pelo grupo do Blakey, essa música nunca foi considerada clássica na versão deles. O próprio Art Blakey tinha outras versões de clássicos de longa data, e era elas que eu curtia. A família Marsalis também apenas começava seu reinado no métier, então eu apenas era iniciado às obras do seu pai e de outros irmãos da família. E não sabia escolher muito bem.

Daí que eu me mexia pela vida e obra de outros, como:

Ben Webster ben.jpg

Cannonball Adderley cannonball01.jpg

Coleman Hawkins abd26c3b4746b9f1231652c136f90.jpg

Dexter Gordon 508720653eb78.jpg

Dizzy Gillespie Dizzy_Gillespie01.JPG

e vários outros. Eu não gostava tanto das Big Bands, e o trabalho dos caras que as dirigiam, como Duke Ellington e Glenn Miller me parecia similar ao de sujeitos que eu ouvira na minha infancia, e cujo nome escapa, e que nao eram jazz (meus pais nao chegavam a esse ponto). Os trabalhos destes me marcaram muito, aliás; mas "diziam" outra coisa. Eu queria algo mais limitado, mais preso ao instrumento do que ao evento, se é que consigo me fazer entender. Por outro lado, as big bands mostravam um clima que me atraía, e isso eu não poderia deixar de admitir.

Em todos os instrumentos, passei a ter meus preferidos, tão logo pude entrar na obra dos maiores. Em saxofone, o jeito brincalhão mas ao mesmo tempo rigoroso de um Charlie Parker dava de dez a zero nas intenções mais sacras de um John Coltrane, por exemplo. O Charlie passava-me então, e sempre me irá passar, a impressão de um espírito realmente livre de peias, mas todas as incursões de fãs (como o grande Clint, em Bird) em sua obra me pareciam bastante chatas e com intenções que não me agradavam, no sentido de entronizá-lo como divino e tudo mais.

Bird 502772609.jpg

Comparado aos dois primeiros ("Bird" e Coltrane), contudo, um Brandford Marsalis me parecia sobejamente diluído, em que algo parecia faltar. O que era isso? Não sei, mas a impressão me acompanha até hoje. Por outro lado, grandes como Coleman Hawkins e Dexter Gordon não me diziam tanto quanto os primeiros, e tocavam a meu ver notas um pouco a mais do necessário. Parecia haver algo de ego naquilo, e isso me chateava e obrigava a avançar em outros universos.

Num trombone, J. J. Johnson, já citado, era o meu deus, por se ater de alguma forma àquilo que a música, nos primeiros acordes, prenunciava, e por ter um toque límpido, asseado. Não conheço quem se assemelhe a ele, e muito do que vejo de instrumentos similares me desagrada.

Claro que um Chet Baker, agora no trompete, parecia competir de forma tranquila, mas o Chet de triste história parecia-me lírico demais, meio que apostando em passar alguma mensagem, em acreditar no amor, e em tudo o que a isso diz respeito. E isso me incomodava um pouco, tenho de admitir. Foi quando me decidi a pesquisar mais na história no jazz e a comprar, pela Amazon, os primeiros frutos de alguns dos maiores.

Foi assim que eu recaí na obra do Louis Armstrong, obra que muitos dos meus então conhecidos nem sabiam existir em catálogo.

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E foi então que eu percebi o tom alegre do jazz dos primórdios de então, assim como o frescor das gravações desses grupos que muitas vezes tocavam mesmo na rua, em desfile ou em procissões.

The Hot Fives and Sevens louis.jpg

O aspecto sacro e profano do jazz veio-me então à tona, e foi então que eu percebi como ele tinha a ver com o blues, nisso que mais me atraía, naquele momento: a história. Entendi algo daquela vida, e algo da graça que deveria ter sido acompanhar toda essa história, por fora ou - melhor ainda - por dentro, nos bares, nos muquifos, nas brigas. Como ver aquele sujeito mal-encarado colocar o veneno no copo do Robert Johnson, o primeiro dos guitarristas realmente de blues, o homem do pacto com o Capeta.

Não sei bem então como isso se deu, mas avançando na lista de jazzistas dos 50 para cá foram surgindo muitos jazzistas brancos e muitas iniciativas de difícil enquadramento. Como conjuntos montados para dar recados políticos - XXXX, de -, ou jazzistas mais modernos cujas parceiras assumiam perfis próprios, com obras alentadas (como Carla Bley), ou mesmo pianistas negros que tocavam de forma diferenciada, como o grande Thelonious Monk.

Foi aos poucos, então, que fui achando minhas preferências em sujeitos de lirismo incontido mas que tinham uma pegada mais clean e de maior abertura idiossincrática, como Keith Jarret, e outros, ainda mais "difíceis", que encaravam os seus instrumentos como outros não os sentiam (no caso, o piano como percussão), e que navegavam em obras não-comerciais de grande apelo para a crítica - no caso, Cecil Taylor, com seu free jazz.

Muito havia então o que pesquisar, e muito com o que discordar, inclusive. Pois entendia e conseguia decifrar as diatribes de um Cecil em seu Olu Iwa, muito claramente, mas não via tanta graça naqueles vôos de ordem quase antropológica, na medida em que algo, em minha opinião, seja como for, parecia se perder.

Olu Iwa 51SUGjjL06L.jpg

Era como se a plateia estivesse sendo alugada para não estar lá, e para ver tudo de fora, como simples espectadora, sem poder sequer dançar ao som daqueles instrumentistas. Esse afã egolátrico pegava pesado contra mim, e em grande parte porque eu aprendera, ouvindo os primeiros, que o jazz tinha e sempre teve esse negócio de catarse coletiva, de festança, de festividade. E aqueles vôos dos caras em transe parecia-me algo mais para budista que realmente tradicional.

Já em Jarrett havia mais simplicidade. O grande Keith era para mim um sujeito macambúzio, tranquilo, que esperava do jazz aquilo que de mais simples ele tinha, o poder de passar uma mensagem. E isso ele o conseguia, primorosamente. Era uma espécie de monge a nos tranquilizar, ao dizer que a vida era simples, que poderia ser levada tranquilamente, e que seria mais fácil trabalharmos nossas emoções em quietude, rigor e parceria.

Jarrett é o único cara de quem tenho DVDs (os Standards), tocando com outros grandes, em uníssono patente, na medida do entrosamento real entre as almas. Claro, existe algo de fresco (no mau sentido) nesse tipo de jazz praticamente anódino. Mas dá para levar. O Köln Concert toca inteiro sem parar na BBC quando alguém de real mérito falece não é por motivo menor (também, foi o primeiro LP de jazz a superar a cada de um milhão de cópias vendidas).

Mas quem sabe o jeito "branco" de encarar o fenômeno jazz, ou o jeito límpido que parecia se opor àquilo que eu via nos filmes, e àquilo que havia ficado das maiores noites do jazz, seja em que parte do mundo fosse, parecia me afastar de sujeitos mais atuais, de gravações mais límpidas, de jeitos mais suavizados de tocar. Quem sabe por isso aos poucos eu começasse a perder a atração por tanto lirismo contido, e agora nem me metesse agostar de um Bill Evans (tambem aqui) ou um Brad Melhdau. Eu sentia que algo havia se perdido, que estes caras de agora pareciam repisar o antigo sem recriar algo de novo ou que falasse ao meu dia a dia ou que me dissesse haver alguém por detrás do teclado.

Foi então que minha paixão retrocedeu. Que deixei de ver graça nos experimentadores, como Anthony Braxton, que não via mais élan nos cantores e cantoras (embora, como já disse, eles não me passassem jazz, sequer nas entrelinhas), que os próprios latinoamericanos, alguns recentemente falecidos, como Gato Barbieri, nada ou quase nada me diziam. Tudo parecia ter-se diluído, em suma. E o jazz com isso foi morrendo aos poucos nas minhas prioridades auditivas. Hoje ouço-o com algo de saudade e dor. Mas jazz é isso mesmo, também é isso. E por isso de vez em quando traio-me e volto ao que era antes. O garoto ouvindo sem querer e sem parar.

Big band de Duke Ellington duke-ellington-and-orchestra.jpg


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