o olhar amor na arte após o fim da arte e da filosofia

Veja ao seu redor - a saída existe e está em tudo e em todos nós

Contreraman

Antes:
E as coisas que continuam já se foram. E as que se foram continuam para nunca terminarem. Até um fim que nunca vem.

Depois:
Vale o que tem amor.

O fascínio pela beleza da força

Pois, pouco importa o que eu pense, nutro também um fascínio pela beleza da força. Porque é isso o que os armamentos passam: força. E mais: que esse fascínio hoje se estende a outros âmbitos. Um obcecado pela força. Não necessariamente pelo seu uso, mas por sua beleza. Por sua força. A força NA força.


362784e4-2b55-429c-a4db-13c57c7cbb79-original.jpegEstes dias, fui, convencido por uma amiga, fazer terapia de grupo - uma desculpa para ir com minha mãe tentar conseguir remédio para um mal que tenho. Não fui a contragosto, nem briguei com minha mãe, fique entendido. Foi lá no bairro da Pompeia. Esperamos uma hora, porque precisamos passar lá, antes de entrar no cadastro.

Eu nunca tinha me proposto a esse tipo de coisa. Nunca me senti à vontade em grupo, e nesse caso não deveria ser diferente. Mas o grupo era pequeno, bastante diferenciado, gente de vários tipos, e em algum momento me senti à vontade de falar. Minha mãe praticamente só ouviu, e ficou muito triste com algumas coisas que tive de revelar. Se é para falar a verdade, então, que seja.

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Durante a conversa, percebi que eu dourei a pílula na questão de ter assistido um golpe de Estado com 6 anos de idade, o que é verdade. Percebi isso ao contar o trauma, que é real, porque após ele sair de minha boca ficou também em mim a impressão de eu estar praticamente atuando, representando mesmo. Essa impressão me ficou indelével até chegar em casa.

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Entrei no Google e de repente vi alguns vídeos sobre aviões russos. E percebi que era isso mesmo. Eu não nutro necessariamente em mim o peso de ter sofrido um choque pelo Golpe de 1973. Eu, bastante ao contrário, nutro também um fascínio pela beleza da força. Porque é isso o que os armamentos passam: força. E mais: que esse fascínio hoje se estende a outros âmbitos. Eu sou um obcecado pela força. Não necessariamente pelo seu uso, mas por sua beleza. Por sua força. A força na força.

Passei a faculdade quase toda tentando ser dissuadido de pensar assim. Por diversos fatores, bastante razoáveis. A beleza da força tornou-se, no jargão da arte, o tema por excelência de documentários em que se mostrava como esse tipo de pensamento originou arte de matriz nazista ou socialista. Pois, tirando a discussão sobre realismo socialista, a questão é que aquelas obras de época transmutavam um profundo desejo de domínio, inescapável em Leni Riefenstahl, por exemplo, no seu célebre documentário Triumph des Willens (1935).

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Uma questão por detrás do pensamento nazista e socialista (recordemos que o nazismo é nacional-socialismo) é a de que o pensamento burguês estaria passando, naquela época, por sintomas de degenerescência, visível, segundo esse pensamento, nas demonstrações artísticas em voga, na época. Claro que não dá sequer para entrar na maçaroca dessa polêmica.

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Só digo que, se o degenerado parecia para os nazistas passível de destruição, por outro lado ele (o degenerado) passaria, para eles, a impressão de fraqueza. O que importava, para essa estética, era o bonito, o belo, o formoso, o que seguiria padrões clássicos, em suma, o forte.

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Não se pode negar que nessa estética do forte há conexões inescapáveis com o pensamento de direita, seja de que matiz seja (mesmo religioso, até o mais aparentemente inofensivo). Pois mesmo nas vertentes mais leves a direita sempre quer aquilo que represente uma certa naturalização da realidade, ou uma exacerbação dela numa espécie de celebração da vida, da beleza e da força.

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Eu diria que mesmo nas vertentes mais diluídas, como no jazz, a direita, ou o pensamento conservador, assume o lugar da simplificação, da diluição em melodias ou registros facilmente identificáveis e belos, portanto potentes. Mas talvez eu aqui esteja exagerando.

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Quando o jazz se torna experimentação, a direita sai, ignorante, em busca daquilo que consiga facilmente decifrar e que seja claramente belo, por exemplo.

Ocorre que o belo por detrás da força, e esta naquele, também está em demonstrações transgressoras, como por exemplo as fotos de Mapplethorpe, principalmente em seu auge.

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Não se pode negar que em suas fotos extremas não exista uma celebração do corpo, da força, da beleza clássica mas também da possibilidade de sua transgressão por atos de sexo dito deturpado, degenerado. Aqui eu coloco o link de varias fotos que mostram bem isso, ao meio que se dizer que esse ato, que muitos podem considerar degenerado, inadequado, também mostra a beleza do corpo e a força do gesto, que claro não é para muitos ou quase todos nada simpático.

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Mas nisso pulamos toda uma época, essa em que o pensamento frankfurtiano celebrou ao contrário (ou seja, destruiu enquanto farsa) a estética nazista e tudo aquilo que com ela pudesse se assemelhar. O que não deixou de ser devido, que seja em nome dos milhões mortos de tudo quanto é jeito.

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Ocorre que a história continuou, e com ela a celebração estética de certas coisas ou seres ou mesmo paisagens, do mesmo jeito de sempre, exultando a natureza, o belo tradicional, gestos belos, animais belos (sempre os belos), e por aí vai.

O Grande... Caprio (Gatsby, 2013) great-gatsby.jpg

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Guerras continuavam, e com elas também uma espécie de celebração da força por meio dos aparatos, tanques, aviões, couraçados, e sua ação, nas armas, canhões, em suma, explosões.

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O cogumelo da bomba atômica passou a ser lamentado, mas também quase celebrado em sua magnificência.

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O pensamento que une beleza e força não foi derrotado, e permaneceu alerta a outras demonstrações, quem sabe ainda mais pujantes (R.I.P.).

Minha passagem por essa questão da beleza e força se deu, como bem disse, por meio de um golpe de Estado que vi aos 6 anos de idade. E nunca parou de vez, embora tenha recrudescido.

Aprendi sobre muita coisa, e tendo contato com arte pude entender em que medida certas opções artísticas traem algo do imaginário das pessoas.

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Heston, aqui, tem a cara do meu pai. Lembrando que ele recebeu uma arma na mao quando houve o golpe. omega-man.jpg

Em momentos-chave, ou ao conhecer realmente as pessoas, a gente percebe que certas identificações realmente fazem sentido, e podem também nos conduzir em rumos quem sabe um pouco incômodos.

Os anos 2000 revelam, por exemplo, que certas demonstrações de pureza ou de busca de pureza ainda permanecem, e jamais quem sabe vão desaparecer. Mas por meios inusitados, como no culto ao sofrimento, ao luto da paz, ao desaparecimento da compaixão.

Como em "Clube da Luta", em que certos caras como que parecem superar fases da vida lutando sem parar, ou em prol do próprio sofrimento, ou em sua subjugação pela vitória - e até pela derrota.

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Não se pode negar que exista certa beleza na luta - como na guerra, claro - e que exista a beleza do sangue, e do pus, e das lágrimas.

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Nesse contexto, também se aplica, portanto, essa identificação da beleza com a força, e da força com algo mais, que para muitos é difícil de identificar.

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Pois na vertente do pensamento não se pode claramente colocar do mesmo lado um Nietzsche de um Schopenhauer ou um Cioran. Pois o alemão bigodudo apostava no poder, na exacerbação das forças, e em sua assunção sem vergonha, enquanto o Scho clamava pelo fim de tudo, e o Cioran estava mais ou menos farto de toda essa lenga-lenga de gente qualquer querendo alguma coisa.

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Os pessimistas até nisso se dividem, claro, e não compartilham o mesmo lado da rua. E aqui, é claro, é que sempre vicejarão para todo o sempre os neonazistas e os caras com complexo de inferioridade que acham por bem matar os outros para simplesmente existirem. Patético, claro.

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Mas os tempos avançaram ainda mais, e muitas coisas bizarras também aconteceram. Como o culto ao corpo virar uma febre que levou muitas a morrerem de anorexia

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outras e outros a se empanturrarem de silicone (e às vezes morrerem) em busca de forma perfeita

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e ainda outros se bombando de tal forma que pareceram perder suas vocações e formas originais (como os que antes eram chamados de halterofilistas e que hoje são uns malhados bastante chatos e de ego ensimesmado).

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Isso sem contar os UFCs da vida, que levaram as artes marciais ao ponto de se transformarem em arenas universais, do tipo da Roma antiga. Em que medida isso qualifica os defensores desse tipo de estética a serem rotulados de direitistas, fascistas ou conservadores?

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De minha parte, gosto de músculos. Eles expressam potência. Especialmente (gosto pessoal) quando em áreas em que a questão é a genética. Explico.

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Não me enganam os músculos localizados onde os mais desavisados costumam olhar. Acredito nos pulsos grossos. Nas pernas com coxas potentes. Nos quadris que parecem engolir nossos pintos. Pois aprendi, com o karatê, que um soco muito potente, vindo de um braço com pulso fraco ou mal trabalhado, simplesmente quebra o braço.

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Entendo, por percepção pessoal mesmo (podem chamar eugenia, que não me importo), que pessoa com pulso forte expressa saúde e genética privilegiada. Esses aspectos são os que me convencem, realmente, e pasmo em encontrá-los em animes, fotografias de mulheres com halteres (menos), e em demonstrações de militarismo em grupos de facebook.

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Considero que esse tipo de saúde inspira força, ou imagem de força, e nesse sentido, sim, considero que identifico beleza a força e a um certo tipo de triunfo da vontade.

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Muitos devem pensar assim, e outras muitas, também. Não é raro que a pessoa escolha seu par em função desse tipo de percepção, e que decida inclusive ter filhos com ela/e por causa disso. Não é algo que se deva criticar, é algo quase animal, em suma.

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Eu mesmo quando me casei queria uma mulher forte, digo, quase gorda, gordinha, com útero avantajado, pois era assim que eu via a minha prole - e talvez ainda veja, quem sabe. O culto, claro, à saúde não é assim tão simples para ser simplificado desse jeito. Saúde é uma coisa, força é outra.

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Voltando ao tema deste post. Quais seriam então, atualmente, hoje mesmo, as características que fariam crer na divulgação de beleza enquanto força ou mesmo de uso de critérios estéticos para defender uma suposta ideologia da violência ou da simples vitória do mais forte sobre o mais fraco? Os esportes vêm sendo objeto cada vez mais de controle, nesse sentido. Uns UFCs da vida seriam exceção, mas mesmo eles parecem ter sido interiorizados por todos (muito embora muitos não gostem).

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A beleza apolínea vem sendo cada vez mais atacada pelo politicamente correto - mas (aqui cabe ressaltar) atacada por critérios que demandam um criticismo maior (o empoderamento, por exemplo). É como se o empoderamento fosse o massacre anterior, em que o lado adverso já sairia perdendo.

A guerra tornou-se, em grande parte, anódina, e chega a ser coisa de garoto perdido ficar lendo muito sobre armas. Pois, nestas guerras tecnológicas, é como se víssemos as guerras transcorrerem sem a demonstração de força das armas. Tudo parecendo limpo, ou o máximo possível limpo.

Chega a ser estranho. A gente ve a bala sair, e nada. Parece que o alvo nao ee o corpo de alguem, e o resultado, o sangue e a morte de um qualquer

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As belezas tradicionais continuam incólumes, sabemos, enquanto modelo. Homens e mulheres malham e se tornam mais robustos, e isso se tornou quase um imperativo para muitos. E claro, isso é uma aposta num determinado modelo de ser humano. Mas nada que faça crer que esse modelo darwinista dá o tom. Nada. Seja como for, o mundo tornou-se mais limpo e ao mesmo tempo mais selvagem.

0f98edceed486402ac5f3a6a4b99fc27.gif Pensem em por que esta imagem...

Talvez tenhamos interiorizado esse critério, tornando-o natural. Mas com um verniz civilizado. Estaremos no brave new world?

Agradecimentos:

Grato ao demo Dioniso Bacardi, por motivar alguns insights.

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Antes: E as coisas que continuam já se foram. E as que se foram continuam para nunca terminarem. Até um fim que nunca vem. Depois: Vale o que tem amor..
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