o olhar amor na arte após o fim da arte e da filosofia

Veja ao seu redor - a saída existe e está em tudo e em todos nós

Contreraman

Antes:
E as coisas que continuam já se foram. E as que se foram continuam para nunca terminarem. Até um fim que nunca vem.

Depois:
Vale o que tem amor.

O perdão, no fundo, só nasce do amor


frases_desculpa.jpgMuito tem se escrito sobre o perdão desde o fim dos tempos. E eu estranho que (se não me engano) ele - o ato, feito por meio da palavra - pareça estar de fora do arcabouço conceitual de Austin e Searle em seus atos de fala. Pois, ao perdoar, está-se também - assim como ao se prometer - fazendo literalmente um ato, e isso é essencialmente relevante no trato entre as almas. Devo ter lido pouco de ambos.

Preciso quase começar este item fazendo mais um excurso pessoal. Eu estava envolvido com uma pessoa. Mas não tínhamos uma relação formalizada. Fomos ao seu apartamento para retirar uns pertences. Descemos e, como eles eram muitos, decidimos usar aqueles carrinhos de condomínio. Mas descemos e... ela havia perdido a chave. Eu a conhecia. Estava com compromissos, mas sabia que isso pouco importava, porque ela sairia procurando a chave até o fim dos tempos. Levei um bocado para convencê-la de que não valia a pena, que melhor seria se levássemos os pertences na mão. Ela assentiu. Descemos com alguns deles. Subimos e... vi a chave de um carro da marca do dela no elevador, no piso, bem no canto. Não achei que via direito, peguei a chave e a chamei. Ela veio e viu a chave na minha mão. Eu lhe disse, bastante surpreso e irritado, essa é a chave de teu carro? Eu estava estourando porque a tarde escorria nos dedos e eu tinha o que fazer. Ela me olhou e pela primeira vez desde que não conhecemos não tinha palavras a dizer. Eu a olhei, me compadeci e descobri o que era amor. Amor descompromissado, porque não tínhamos relação formal. Foi uma das maiores descobertas da minha vida, e precisei contá-la em detalhes. Um dia ela lerá este relato, com certeza.

O perdão diz sim. O perdão não encontra subterfúgios nem argumentos para limitar o seu alcance. O perdão diz sim e não tem limite. Perdoa tudo sem concessões. Por isso, o perdão nasce exclusivamente do amor. Porque perdoar por desconsiderar o fato é mensurar, medir, calcular. Perdoar como sentimento é outra coisa. Perdoar é usar o coração para cometer o ato de maior compaixão que existe. O de virtualmente esquecer. Passar um pano e com isso amar.

Mas eu disse apenas virtualmente esquecer. E disse também passar um pano. Por que virtualmente? Onde passar um pano? Não escrevo nunca nada por acaso. A gente virtualmente esquece porque, claro, a gente no futuro irá se lembrar daquilo. Mas esquece em nossos corações. E passa um pano ali, nesse exato lugar, no coração. Porque o perdão é, como ato que complementa o de pedir desculpas, um ato superior em que o ato perdoado em si já não tem importância, em que aquilo que perdoamos passa a outro âmbito, e em que nos comunicamos diretamente com o ser da pessoa que perdoamos. Não perdoamos o ato, em si; perdoamos a pessoa; aceitamos a pessoa como ela é; dizemos sim. Sim, essa garota com que eu convivi era assim. Não havia o que fazer. Não tinha que culpá-la. Ela era assim. Ela é assim. E assim será até o fim dos tempos. E por aceitá-la assim, e aceitar aquele fato, eu a amava. Incondicionalmente. Sem tirar nem pôr.

É curioso, isso, porque, quando vamos refletir sobre um amor romântico, um relacionamento amoroso, isso também funciona do mesmo jeito - só que não. Quando vivemos com a pessoa que amamos; quando a encontramos frequentemente e compartilhamos momentos importantes com ela; quando transamos com ela, e a conhecemos em momentos a que os outros não têm acesso, também a perdoamos como eu contei na historinha anterior. Mas também e sempre de alguma forma a cobramos. Não perdoamos simplesmente, assim; perdoamos quem amamos romanticamente de forma similar a como, na maior parte do tempo, a mãe perdoa o filho - cobrando-lhe uma postura. Porque, no limite, claro, a mãe perdoa sempre o seu filho por tudo o que ele faz - mesmo que em virtude desses atos ele venha a ser punido ou mesmo preso. Mas no dia a dia a mãe perdoa o seu filho apenas parcialmente, sabendo que precisa cobrá-lo, porque se não a coisa desanda. E no caso do amor romântico acontece da mesma forma. Não é possível perdoar sempre sem condições. É preciso deixar claro que o perdão estabelece uma nova situação. Tal como expliquei no texto sobre pedir desculpas, e sobre o peso das desculpas entre pessoas que realmente se amam.

Eu realmente não consigo pensar o perdão entre pessoas que se amam como algo que permaneça distante dos desígnios de Deus ou do deus em que elas, ela e ele, ou ele e ele, ou ela e ela, acreditem. Porque o peso do perdão parece ser, quando se ama, tão grande que ultrapassa barreiras, remove montanhas e elimina qualquer vestígio da dor que fica quando alguém comete um desatino, uma traição, promove uma decepção, e tudo o mais.

Vocês podem reparar que, há pouco, fiz um texto sobre músicas do Motörhead. Pois bem. Em I Don't Believe a Word há um misto, em minha opinião, entre dor e vingança. Pois é quase inacreditável que alguém que possa dizer o que essa música diz esteja realmente perdoando aquela/a que lhe cometeu uma afronta de tal poder. E talvez seja por isso que eu considero que, por detrás do perdão em sua integridade, nem é mesmo a pessoa que perdoa - mas Deus. Pois, em algumas situações, a pessoa simplesmente não aguenta. Ou eu não considero possível que ela aguente. O perdão no fundo, então, parece vir de lá. Claro, é muito chato realmente que aqui eu me meta a fazer pregação. Mas eu lhes digo: em situações como essa, eu não aguentei.

Precisei pedir ajuda.

E ela veio.

Ainda bem.


Contreraman

Antes: E as coisas que continuam já se foram. E as que se foram continuam para nunca terminarem. Até um fim que nunca vem. Depois: Vale o que tem amor..
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