o olhar amor na arte após o fim da arte e da filosofia

Veja ao seu redor - a saída existe e está em tudo e em todos nós

Contreraman

Antes:
E as coisas que continuam já se foram. E as que se foram continuam para nunca terminarem. Até um fim que nunca vem.

Depois:
Vale o que tem amor.

O salto ao infinito de Paul Celan

Existem poetas que deixam sua marca na obra. Outros, que deixam um exemplo de vida. Outros, insistem em juntar vida e obra. E outros ainda, permanecem em nós por irem além: fazerem de sua vida, e sua morte, sua obra.


Autumntree.jpgEu praticamente só gosto destes últimos, por motivos inteiramente idiossincráticos meus. Hölderlin, Rilke, Pound, Kavafis, Lacenaire e Celan estão dentre os meus preferidos DENTRE essa categoria. E Celan é para mim o maior. Não TANTO pelo mérito da obra. Mas por algo que tentarei expressar nestas breves linhas.

Celan era judeu, nascido Antschel, de uma família que prezava o saber tradicional. Foi criado em família poliglota e adotou o alemão. Era um rapaz contido, que viu seus pais serem conduzidos à morte no Holocausto. Mas sobreviveu. Existe uma biografia em inglês dele, cuja capa está aqui.

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Seu jeito educado e tranquilo até hoje me comovem. E sua dedicação às letras, também. Sendo poeta - e mais, tendo optado por ser poeta - numa época de massacres era estranho. E ter testemunhado a morte de entes queridos, ainda mais. Mas Celan era um sujeito que buscava compreender, entender, ir a fundo nas camadas do sofrimento para torná-las sua paixão, a letra.

Seu maior poema, Todesfuge, ou Fuga da Morte, trata do Holocausto e para mim sintetiza, em letra, voz e postura, o que aconteceu. Ele pode ser ouvido, em alemão, aqui, recitado por ele mesmo. Há aqueles que consideram que a poesia escapa ou suplanta as línguas. Sugiro aos mais sensíveis que tentem sentir a poesia por detrás dessa língua que a maioria não conhece. Eu considero isso realmente possível - e um exercício até desejável.

Mas Celan escreveu muito, a maioria do que ainda não foi traduzido para o português. Irei citar aqui a maioria dos livros que tenho dele, em traduções para o português do Brasil e de Portugal.

Não me proponho a citar preferências. Simplesmente irei notar um aspecto, absolutamente óbvio, que perpassa a poesia do meu camarada sofredor e que tem tudo a ver com uma postura existencial de quem percebe que o mundo o ultrapassa.

Com o passar do tempo, e o aumento do sofrimento interno, os poemas de Celan foram ficando anagramáticos, enigmáticos e absurdamente curtos, pequenos, sutis. Mas não passaram a assumir uma característica aparentemente similar de um haikai. Não, eles começavam a se tornar gotas, como lágrimas. E praticamente deixaram de ser passíveis de entendimento.

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Era como se Celan mantivesse em si a vontade de falar. Mas não tendo mais crença no que falar, só lhe sobrassem murmúrios, sussurros, lamentos ou mesmo choros contidos em meio a pequenas palavras soltas. Como nas pessoas que, na vida real, começam a descrer e a perceber que não são mais ouvidas e, ainda mais grave, que não lhes resta mais alma para dizer qualquer coisa. Um dia, claro, se matam, de vez ou aos poucos.

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Um episódio da vida de Celan ainda é obscuro para mim - embora eu tenha um livro inteiro sobre ele. Celan, que acreditava ainda na palavra, quis um dia conversar com Heidegger, que já passara pela experiência de apoiar os nazistas. Sei que eles se encontraram. Mas também sei que eles não parecem ter se compreendido mutuamente.

Still de peça inspirada no encontro 70_urbanek.jpg

Preciso antes de mais nada dizer que para Celan, como para todos os que trabalham de alguma forma com a palavra, esta é ação. Ou seja, é nela que se fundam as esperanças do ser humano. E Heidegger não era bobo, também. Para ele, que era mais tosco, ao menos um pouco, a palavra também ia longe o suficiente para justificar o ser humano.

Mas eles não se entenderam. E Celan, não sei bem quando nem por quê, pulou no rio Sena. Existe um livro em francês apenas sobre esse encontro.

Ponte no Sena Pont_du_Change_Paris-XIXe_s.jpg

Um dia visitei Paris (foram duas vezes) e tentei imaginar qual ponte ele teria usado - é fácil descobrir. E tentei vê-lo naquele exato momento em que desistia.

Eu, de minha parte, sou um homem de palavra e de ação. E sempre o cito quando a pessoa acha que sabe o que é o mundo.

Não sabe nada, inocente! (Esta pequena frase é uma pequena homenagem ao rocker Vespasiano Ayala, recém-falecido)

Dedicatória: Dedico este texto aos dois cariocas que morreram na ponte criminosa em São Conrado.


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Antes: E as coisas que continuam já se foram. E as que se foram continuam para nunca terminarem. Até um fim que nunca vem. Depois: Vale o que tem amor..
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