o olhar amor na arte após o fim da arte e da filosofia

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E as coisas que continuam já se foram. E as que se foram continuam para nunca terminarem. Até um fim que nunca vem.

Depois:
Vale o que tem amor.

Angeli e os ideais que não voltam jamais

O Angeli não publica mais suas tirinhas na Folha. Isso, para alguns, é uma pena. Eu confesso que o lia - ou o via - apenas quando suas tiras eram replicadas para mim por alguém. Mas li a entrevista que ele deu para uma revista - a Brasileiros - e achei bastante interessante saber de algumas coisas que passaram em branco na minha história - mas que na dele fizeram diferença.


letstalk348.jpgPois é interessante que eu tenha 48 anos, seja dramaturgo, ator bissexto e diretor, além de jornalista, tenha vivido boa parte do que ele viveu - em termos de história - e não tenha compartilhado alguns pontos, que hoje temos em comum.

Mas este artigo é sobre um ponto em específico que ele comentou na entrevista, que pode ser lida aqui. Num determinado ponto do texto, Angeli comenta que fez um personagem ou algumas tiras ou algumas histórias pensando em abrir a cabeça daquela galera metaleira que, ao menos teoricamente, seria um derivativo do rock, da geração beat e indo mais para trás de Elvis e a contracultura (aqui, mais à frente), mas que na prática reproduzia (a galera metaleira) valores tradicionais ou até mesmo retrógrados. O trecho da entrevista vai aqui:

"Em meio a tantos leitores, a seção de cartas da Chiclete só tinha metaleiro, uns headbangers estreitos, e eu comecei a pensar: ‘Porra, vamos tentar abrir um pouco mais a cabeça desses moleques, colocar um pouco mais de postura na revista’."

Pois bem, eu faço parte dessa galera metaleira. E realmente, em relação a todos ou quase todos os grandes heróis da contracultura, do rock e do experimentalismo na época, eu não os engolia. Mas o meu caso pode ser ainda um pouco mais complexo, porque eu frequentava e cursava a ECA-USP, numa época em que os caras do Premeditando o Breque estavam estourando, em que os Lou Reed e David Bowie da vida eram pedida certa, e em que todos ou praticamente todos os meus colegas advinham de classes sociais mais altas, com maior acesso à cultura dita menos rasteira.

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Eu, não. Eu ficava ouvindo heavy metal, Iron Maiden, guitarristas, mas começava a ser introduzido na música erudita. Já em termos de costumes, eu reproduzia os modelos que me foram passados pela minha família, e todos os meus reveses, todas minhas decepções, advinham de esses modelos estarem ruindo por terra em minha família, e depois em meu imaginário. Eu começava a descrer de tudo o que me fora dito, mas não tinha algo em que me apoiar como opção. E esses ideais libertários, mais ou menos agressivos, do rock tradicional, de todos os derivativos em termos de costumes, e do que veio depois, não eram entendidos por mim como opção. Pelo menos naquela época.

Daí advém um aspecto interessante na fala. Angeli diz que queria abrir a cabeça daquela galera, mostrando de quem eram eles (os metaleiros) descendentes, onde tudo começou, e como. É interessante que ele tenha pensado nisso, sempre tentando, do seu jeito próprio, fazer uma leitura inteligente do panorama, dos personagens patéticos desta trama humana, e dos grupos sociais. Mas acho isso de uma ingenuidade tamanha...

Pois esse pessoal, os metaleiros, como aliás qualquer um que simplesmente gosta e curte alguma coisa, simples e geralmente não quer saber. Por um outro motivo claro: o desgosto desse tipo de fã (o metaleiro) em relação a gente que possibilitou, ao menos em parte, o surgimento de outras vertentes do rock (o metal) advém simplesmente do fato de que esse fã não se enxerga nesses outros músicos e ativistas.

Porque chega um momento em que a música avança, as influências são dadas a outras gerações, e a linha perde o fio. Eu mesmo, hoje, ao gostar de Lou Reed e Bowie, não enxergo nada do que eles fazem como tendo algo a ver com qualquer coisa de heavy metal que veio depois. E mais, quando penso em rock pesado, penso em Motörhead e outras bandas, e nelas, no seu mérito (delas), nem penso em nada de contracultura, ou mesmo de sexo, drogas e rock'n roll. Penso no Philty Animal, em seu bumbo duplo, e tudo mais. Mas não penso, como o Lemmy pensava, nos Beatles, por exemplo. Cada um escolhe de quem aufere qualquer mísera influência. Muita ingenuidade do Angeli (desculpe) em querer influenciar aquela garotada.

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Mas aqui tem um outro aspecto que eu gostaria de ressaltar. O primeiro deles é que essa geração rock, sexo, drogas e rock'n roll ganhou a parada geracional, sim. Tornaram-se todos eles, ou quase todos, uma espécie de contramodelo daquilo que sempre foi tido como tradicional. Os supostos antiexemplos de Dylan, Richards, Lemmy, Young, Reed, Anderson, Bowie, e todos os outros, dominam hoje o panorama daquela geração. Sim, eles ganharam. Mas, por outro lado, parece haver em todas suas trajetórias um chamamento a que eles é que teriam razão. De que são eles os caras que realmente sabem o que fazem. São eles aqueles que devemos admirar. Acontece que isso nunca foi, não é e nunca será a verdade. Porque, se um Reed teve a trajetória que teve, foi por sua conta e risco. Se ganhou, por mérito e quem sabe algum demérito, foi porque era a pessoa certa na hora certa. Mas não é por isso que eu tenho de segui-lo.

E é isso o que parte dos metaleiros que eu conheci e que conheço também quer dizer, quando se nega a reconhecer - ou sequer a conhecer - a trajetória daqueles caras, ou seus méritos enquanto artistas que abriram caminho na multidão para expressarem o que achavam que era apropriado para aqueles tempos. Claro que, comparativamente, esses modelos (ou antimodelos) são bem mais discretos quanto àquilo que as pessoas são ou devem ser. Richards, em sua biografia, apenas e tão somente conta como ele encarou a vida, não fica fazendo rodeios para expressar como as outras pessoas têm de ser. Nem o Lemmy faz isso. Muito menos Reed ou Dylan.

Mas, como diz Kant, nós, em nossas existências, meio que dizemos ao mundo como este tem de ser. Basta assumirmos nossos atos para fazermos isso. E é isso o que eles fazem. Mostram que há outro caminho. Mas daí a nós entendermos ou alguns outros sujeitos nos dizerem como tem de ser, vai uma longa estrada. Não precisamos ir até esse ponto. Nem precisamos sequer gostar do que eles fazem. Afinal, são artistas, não é mesmo? Artistas como quaisquer outros. Nem tecnicamente aliás eles se dizem superiores... (Os Rolling Stones falam de si mesmos que eram apenas medianos, e que havia muitas bandas melhores do que eles).

E isso, na geração do Angeli, é interessante. Ele não se trata como modelo. Mas é olhado pelos que o seguiram como tal. Sua postura (do Angeli) de sair da Folha no auge é um exemplo, claro. Mas não se pode pensar que um cara como ele realmente pensaria em continuar, no atual estado de coisas. Pois todos os que se prezam realmente só param quando percebem ter feito o que deveriam. E se propõem a abrir espaço aos outros.

Mas voltando ao assunto deste artigo. A questão, creio eu, é que desde que os roqueiros ganharam o mundo e se tornaram exemplo nos seus supostos antiexemplos, passou muito tempo. Muitas levas de músicos de inspiração diversa se seguiram; muitos deles (dos roqueiros) morreram; muitas ondas surgiram e ressurgiram, muitas delas seguindo os ideais de sempre; mas muitos outros, mais oportunistas, também pegaram o bonde do estilo e de vida, e com isso as gerações que se seguiram guardaram para si, sim, algumas de suas lições; mas muitas de outras lições elas (essas gerações) também jogaram fora; e nesse sentido tentar convencer, como o Angeli em sua época, da validade de outras posturas de vida gente que nunca esteve interessada em ir tão fundo é pura perda de tempo.

O mundo se tornou muito mais complexo. Os estilos, muito mais difíceis de aquilatar. As derrotas impostas à sociedade pelo mundo organizado, muito mais profundas. Os momentos históricos, muito mais traumáticos. Difícil esperar que gente que estourou dos anos 60 aos 90 possa hoje realmente estar a par da amplitude dos problemas, e da mentalidade de uma juventude para quem eles são apenas uns tiozinhos ou avôs sem tanto assim de interessante a dizer (a elas). Eu, de minha parte, nesse tempo todo, bebi da inspiração daquela geração, sim, mas também, e com muito mais interesse, da de gente que fazia a cabeça dela, e que não é do ramo musical, como de um Warhol, e de seus críticos, de um John Cage, com seus livros sempre bastante interessantes, e claro, a partir do contato com o Cemitério de Automóveis, da geração beat, que eu já conhecia, mas com outra pegada, e dos milhares de autores brasileiros, aos quais, de outra forma, eu teria acesso mais indireto, sem realmente sacar a sua (deles) pegada.

Nessas influências, que perpassam outras artes - como a do teatro, pela qual passei absurdamente dedicado nos últimos anos -, eu vejo, sendo sincero, muito mais o que dizer do que nos grandes antiexemplos do mainstream do rock (há exceções, claro). E creio que as gerações que ainda bebem destes devem um dia perceber que ficaram, sim, em parte para trás. Basta trocar uma ideia de segundos com jovens das gerações mais recentes para perceber que eles nasceram sob a égide dos chamados antiexemplos, e que como toda geração eles querem seu espaço particular, distante de tantas e tão antigas influências - como aliás todos nossos heróis fizeram, para depois - digo depois - tentarem retomar a tradição com suas próprias formas de ver o mundo.

Diria, para finalizar, que grandes fãs das antigas gerações não precisam, claro, fazer nada para se impor diante do mundo. Os grandes ídolos estão morrendo, e com eles um estilo de vida, que está ficando todo diluído de forma às vezes quase inimaginável. Mas, a quem quer ainda saber o que acontece, e trocar ideia de vez em quando com alguém que nunca jamais ouvirá falar ou sequer curtirá em CD (geração de CD) ou em arquivo algum jazzista de grande porte e exemplo para todo mundo, seria interessante que entendesse que a vida é feita de reciclagens. E que o que se perde pode voltar com uma roupagem bastante interessante, lá na frente. Isso é esperança.

Mas que todo o sistema torce contra, ah, se realmente torce. E sempre irá torcer.

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