o olhar amor na arte após o fim da arte e da filosofia

Veja ao seu redor - a saída existe e está em tudo e em todos nós

Contreraman

Antes:
E as coisas que continuam já se foram. E as que se foram continuam para nunca terminarem. Até um fim que nunca vem.

Depois:
Vale o que tem amor.

Dos 50s até hoje, o romantismo surge, morre e renasce na música - e os timbres, milagre, cada vez mais leves

Toda época tem seus cantores e cantoras que marcam época. E - ainda mais importante para quem lida com arte e precisa trabalhar o som, o sentido e a sensação a sério -, cada época tem seu jeitinho todo especial de expressar emoções.


when-harry-met-sally-when-harry-met-sally-2681168-1600-900.jpgTenho notado como, nos registros mais elegantes daquilo que é popular (porque nem sempre o popular é necessariamente de qualidade ruim), a sutileza e os tons de fala subentendidos vêm dominando a cena. Não irei me estender muito sobre isso, mas lhes deixo as toadas de um Projota (Ela só quer paz) e de um Drake (Hotline Bling), ambos já saindo aos poucos dos primeiros lugares das paradas, meio que para colocar-lhes a pulga atrás da orelha sobre isso.

Ao invés disso, meu intuito aqui é retomar o legado de alguns dos maiores hits de todos os tempos, a maioria em inglês, e mostrar como os registros de voz mudaram, assim como os temas, e a forma de tratar assuntos de sempre - como o tão mal-amado (estou sendo irônico) amor. Como é óbvio, minhas escolhas são idiossincráticas, embora tente seguir uma espécie de rigor mínimo. Porque, afinal de contas, estamos - você e eu - aprendendo.

Vamos aos Estados Unidos das décadas de 50 a 70. Como é que as dores de cotovelo eram cantadas, naquele país multiétnico que ainda iria passar pelos movimentos negros de emancipação (a partir da corajosa Rosa Parks, que "ousou" se recusar a ceder seu banco de ônibus a um branco)? Os negros disputavam seu espaço nas paradas "pop" com gente que aprendia a cantar nos cultos religiosos.

O onibus em que tudo comecou a acontecer Rosa_Parks_Bus.jpg

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Como Etta James. Negra de cabelo branco, a grande Etta tinha um jeito tão peculiar de arrebatar audiências que eu mesmo estranho quanto tempo levei até "encontrá-la". Baixinha, gordinha (mais para gostosinha, na verdade), com cara de brava e barraqueira, Etta aprendeu a cantar desde os seis anos, numa igreja de Los Angeles, e nunca abandonou seu jeito "fatal" de cantar e de se apresentar (mesmo quando já era uma "lady" reconhecida por todos).

Podem achar engraçado ou patético, mas foi com Etta que encontrei o limite de minha voz. Basta cantar "It's too soon to know" ou "In my diary" para sacar que até chegar à sua (dela) expressividade, é preciso, para além da genética e do esforço, um treino constante que nos permita superar picos que outros podem nem imaginar existentes. Claro que Etta não se limita a chorar mágoas; ela é responsável por versões antológicas de clássicos mais poderosos e nada melodramáticos como "(You Can) Leave Your Hat On", do repertório de uma penca de outros grandes.

Ainda entre as ladies, eu nem gostaria de abordar aqui as moças nada comportadas do jazz, como Billie Holliday, por exemplo. Ou gente de timbre mais aveludado, como Ella Fitzgerald, ou mais contido, embora forte, como uma Aretha Franklin. Posso abordar, por exemplo, uma Peggy Lee, branca, enorme, de grandes peitos aconchegantes, que narrava histórias (fictícias) bastante tristes, como em "Is That All There Is?", ou pegadas mais "fatais", como em "Big Spender".

Eu mesmo "dancei" em cena um de seus maiores hits, "Fever". Peggy fazia uma espécie de Marilyn, claro, mas com um jeito meio dona de casa, meio I Love Lucy, embora não passasse claramente "essa" impressão. Um perfil ambíguo, lindo de ver - e de ouvir. A loira que a gente gostaria de ter em casa. Aparentemente barraqueira.

Em que medida essas mulheres expressavam o que era ou "deveria ser" a mulher para a época? Perguntinha difícil. Em que medida os temas abordados, e a forma como eles o eram, permitia entender o assunto "amor" entre casais naquelas épocas e em outras? Não sei. Sei apenas que algo do melodramático parece, aos poucos, ter se perdido, e - sob outras roupagens - o comportamento das pessoas passou a ser apresentado com outros timbres, outras sutilezas, outras grosserias, outras sacanagens.

Harry & Sally - Feitos um para o outro harry-sally.jpeg

No caso dos homens, então, considero que muitos ficaram no tempo. Mas gostaria de relembrar alguns clássicos, e outros mais recentes, que vêm sendo revividos em posts no facebook e que me surpreendem por uma certa maturidade e pelos timbres absolutos de voz. No caso dos clássicos, aquele que mais surge sempre, quando vamos falar de relações impossíveis, é Ray Charles, mas não o de "Georgia On My Mind", se não o de "Born to Lose" ou, mais especificamente, "You Don't Know Me".

O que me "pega" no Ray é que, apesar de choroso, ou mesmo choraminguento, ele não parece encaixar-se nesse papel. Pois, no caso dele, todos os embates parecem maiores, remetendo aos problemas de relações raciais (como em "You Don't Know Me"), ou numa espécie de pessimismo acachapante daqueles sujeitos do blues (como em "Born to Lose"). Pois, nele, o amor parece estar sujeito a outras forças, ao menos em parte - na parte que importa.

Ocorre que os cantores de sucesso desde os 50 não mantinham todos esse tipo de élan. Muito ao contrário até. Pegue-se um Johnny Mathis, em "Misty". Ele não parece - digo, parece - remeter-se ao fato de ser negro, em plenos anos 70, em que a turma do flower power pregava o entendimento, a paz e o amor. Mathis parece restringir-se, neste caso, a uma contemplação que para muitos - e muitas, principalmente - pode parecer absolutamente ridícula (hoje, claro).

Óbvio, claro, que deixo, nestas minhas escolhas, absolutamente de lado gente do funk mais absorto, como James Brown, ou mesmo alguns dos maiores caras da Motown, que revolucionou para nunca mais ser a mesma a música norte-americana - e mundial. Prefiro, ao contrário, avançando um pouco mais na década de 70, focar minha atenção num Billy Paul, recentemente falecido, em suas grandiosas "Me and Mrs. Jones" e "Your Song", com arranjos que agradam até os roqueiros mais empedernidos.

Um excurso pessoal. Lembro-me bem como, no final dos anos 70, um pós-púbere, começo de adolescente, ouvia esse cara, Billy Paul, e conseguia sentir-me melhor por breves instantes, seja lá onde estivesse, em tramas que não entendia na época, por dizerem respeito a uma emoção que eu ainda não experimentara o suficiente. E era estranho, porque essa era uma época de Kool & The Gang e caras do funk via motown que dominavam as rádios, e que pareciam não dar espaço realmente a mais ninguém.

Note-se que todos esses que citei - menos os funkeiros - insistiam num romantismo que hoje é para muitos piegas demais, deslocado, e que confunde as bolas. Um romantismo, porém, que apesar de piegas não era brega, mas que também não poderia jamais fazer uso dos recursos dos safadões de hoje para levantar as plateias e chamar a atenção das garotas, aparentemente bastante mais liberadas. Faz sucesso esse romantismo, hoje? Quem sabe. Num Victor & Leo, por exemplo.

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Mas fiquemos nos 90, por enquanto. Houve, naquela época conturbada de um pós-Afeganistão, e de invasão do Iraque, com captura do Saddam, uma espécie de revival do romântico em vozes poderosas, no limite do piegas, como de uma Whitney Houston, alavancada por sua "atuação" com um outro enganador, o Kevin Costner. Como o mundo poderá esquecer um I Will Always Love You, ou um I Have Nothing? Impossível, decerto. E tivemos também, mais tarde, um Titanic, pelo jeito absurdamente tradicional de uma Celine Dion, em MY Heart Will Go On. Eu mesmo, sabendo que tudo era bobo demais, chorei demais ouvindo essas mulheres. Se bem que eu estava em outra - no geral.

Era como se o mundo precisasse de vozes poderosas para contraporem-se a uma descrença generalizada na paz, na medida em que os Estados Unidos não tinham mais por que se limitarem às fronteiras de uma Guerra Fria, e em que os interesses geopolíticos já se contrabalançavam, na prática, em meio a terrenos que - hoje sabemos - serão para sempre disputados. O filme de Houston, por exemplo, narrava o envolvimento de um guarda-costas. Já Titanic, uma história que deixou mais mito que rastro, e que aparentemente dizia respeito a algum entendimento entre gente que tinha recursos e outros que jamais os teriam. Era como se ambos os filmes falassem algo sobre entendimento, sobre o poder do amor. Não se podia apelar para gente que cantasse esse tipo de coisa baixinho. Era preciso soltar o gogó.

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Mas é curioso que hoje, na metade da segunda década do terceiro milênio, passadas as modas (permanentes, pois deixaram rastro) de uma Madonna, ou as levadas mais introspectivas de uma Cindy Lauper, mas, mais importante, as liberações de uma Shakira (só para usar um exemplo), as mais importantes representantes do romantismo descomedido (sim, não comedido) sejam italianas (Laura Pausini e Lara Fabian, com a estreante Michaela Michielin), enquanto nos homens ainda há quem aprecie a esperança de um David Coverdale (sim, ele mesmo), em Starkers of Tokyo (vejam em especial "Don't Fade Away", de grande relevância para mim mesmo).

Em outros continentes, claro, muitas outras fazem seu papel de jogar o gogó para fora, e essas foram o milênio e uma certa mistura de marketing, boa técnica e necessidade de acreditar (ou seja, romantismo) que revelaram. Como em uma Katy Perry, que eu não entendia muito bem até muito pouco tempo, numa Firework, por exemplo, ou uma Adele, cuja lenga-lenga de sofrimento e fotos em preto e branco, assumidas num porte avantajado de quem busca aquele "algo mais" embalavam até mesmo minha ex-esposa que buscava um lugar em si para si mesma. Era uma década pós-Chernobil, com um tsunami à toda, mostrando milhares de pessoas ao vivo, e as trapalhadas de usinas nucleares perdendo a pose (refiro-me ao Japão, no caso, Fukushima).

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O resto, claro, são rebentos mais líricos de uma Anitta (que tem coisas bem bonitas, apesar ou por razão mesma da rima, como por exemplo "Zen"), ou a liberação aparentemente estranha de uma Valesca Popozuda. No Brasil, Lucas Lucco pode ser bastante espinafrado, até mesmo porque insistiu em provar seu talento na telinha, mas não se pode negar que seu "Mozão" não tenha causado suficiente furor entre as garotas e mesmo alguns marmanjos (eu chorei muito quando vi o clip pela primeira vez, e olha que adoro Motörhead).

Claro que ninguém precisa se limitar a gêneros ou artistas, e a mesma pessoa (antiromântica) que pode gostar de um Lucco, nos limites bem claros àquilo que ele quer dizer, pode apreciar um "Candy", de um Iggy Pop "um pouco" mais tranquilo. E isso é bastante comum.

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Assim como também é possível conjugar uma espécie de romantismo piegas de um Lucco, com um jeito mais roqueiro e descompromissado de um Iggy E uma pegada bate estaca de um Offer Nissim, lá de Israel (para quem não consegue imaginar lirismo nesse tipo de coisa). Mas é possível. E reparem: tudo ali, tirando o ritmo da estaca, é bastante sutil. Pois é bom que em termos de romantismo ninguém se iluda. Talvez a ferida esteja onde não esperamos.

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