o olhar amor na arte após o fim da arte e da filosofia

Veja ao seu redor - a saída existe e está em tudo e em todos nós

Contreraman

Antes:
E as coisas que continuam já se foram. E as que se foram continuam para nunca terminarem. Até um fim que nunca vem.

Depois:
Vale o que tem amor.

A dor que liberta a palavra que importa - e conforta

Porque às vezes a melhor ajuda só pode vir de quem precisa dela ainda mais.


Compassion.jpgPassei por muitos revezes nesta vida, e ainda passo. Mas, por algum motivo que desconheço, sempre consigo superar - embora quase sempre com alguma ajuda - e continuo acreditando nas pessoas e no poder da bondade. Conto agora um pequeno episódio que me aconteceu ontem num grupo de encaminhamento terapêutico que frequento há mais ou menos um mês.

As pessoas que vão ao grupo são do tipo mais diverso. Vai desde homem que quer resolver problemas emocionais, garota que dedicou a vida ao trabalho e estudo que agora sente estar ficando velha e chata, menina com depressão profunda, garota com problemas de relacionamento familiar, etc. Mas ontem apareceram dois casos muito graves.

A moça ao meu lado, uma morena bonita mas toda de preto e muito fechada, explicou que havia sofrido estupro há um ano, seguido de assédio moral na empresa em que trabalhava. Disse que é amante de um homem casado, que tem uma filha que fica com a avó, que não trabalha há alguns meses e que não tem vontade de viver. Toma remédios antidepressivos fortes, e coloca-os todo dia na pia do banheiro, pensando em se matar com eles. Não se sente útil para ninguém, nem mesmo quando faz comida como bico e as pessoas gostam do que prepara. Chora compulsivamente e diz que precisa de ajuda.

Eu nunca havia visto pessoa mais desesperada que ela. Mas tendo já passado por isso - vontade de me matar -, entendo e respeito sua situação. As pessoas fazem algumas perguntas, e descobrimos que ela se sente culpada por ter sido estuprada. Deve se sentir culpada também pelo assédio moral. Num determinado momento, fiquei emocionado mas não transpareci.

A moça do meu outro lado, por sua vez, disse que perdeu seu primeiro marido por infarto, que está há 9 anos com outra pessoa, e que teve toda a família (irmãos e irmã) assassinada por ladrões. Diz que está com diabetes, busca tomar remédios, mas as atendentes não lhe dão chance para poder ser atendida e se medicar. Diz que sustenta o novo companheiro, que gasta, se endivida e não consegue tocar a vida - e que pensa em se matar para lhe deixar o patrimônio, o que ela recusa -, e ela não sabe mais o que fazer. Uma pessoa lhe pergunta por que ela quer se medicar, e ela responde.

Num determinado momento, contudo, a primeira moça, a que quer realmente se matar, lhe pergunta se ela esqueceu realmente o seu primeiro relacionamento. E a segunda moça diz que não. Então, conclui-se que ela não consegue esquecer o amor que morreu de infarto e se sente culpada pelo segundo, ao qual agradece não ter ficado sozinha. Para uma pessoa de fora, ver este tipo de ajuda, por parte de quem precisa ainda mais de ajuda, pode parecer normal. Mas para mim é quase um milagre. Penso no esforço que a primeira moça deve estar fazendo para sair de si e olhar a outra pessoa, ou mesmo na capacidade que adquiriu de identificar o sofrimento alheio. Fico pasmo. É muito lindo o que vi.

Não desmereçam a reunião de pessoas com problemas entre si. Quem sabe somente elas, somente elas, consigam ajudar umas às outras.


Contreraman

Antes: E as coisas que continuam já se foram. E as que se foram continuam para nunca terminarem. Até um fim que nunca vem. Depois: Vale o que tem amor..
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