o olhar amor na arte após o fim da arte e da filosofia

Veja ao seu redor - a saída existe e está em tudo e em todos nós

Contreraman

Antes:
E as coisas que continuam já se foram. E as que se foram continuam para nunca terminarem. Até um fim que nunca vem.

Depois:
Vale o que tem amor.

O divã como "religião"

Uma entrevista de um eminente psicólogo e psiquiatra de origem argentina, o sr. Izquierdo, num site e minhas reflexões (assim como vivências, até mesmo recentes) sobre o uso e a utilidade da psicologia (e mesmo da psiquiatria) na atualidade (sabendo que a maior parte de meus amigos e amigas é medicado ou medicada de alguma forma com psicotrópicos, estabilizadores de humor e mecanismos antidepressivos), vem fazendo-me crer que, ultrapassada pela neurociência, a psicologia e mesmo a psiquiatria derivada dela são hoje mais uma forma de religião do que qualquer outra coisa.


Tomas_Karlsson_Freuds_Divan.JPGEntendamos primeiro o que quero dizer com isso.

Religião, na etimologia mais conhecida e divulgada, é um fenômeno que surge da necessidade que o ser humano tem, ao que parece de forma atávica, de se re-ligar (re-ligare) a algo maior, seja um Deus, uma crença com ou sem Deus, ou a si mesmo. A ideia de religião, em si, então, surge de uma busca, que também, claro, pode se dar por meio da Filosofia, mas que em geral se dá por uma introspecção para a qual as religiões se dizem melhor gabaritadas, ou por possuírem livros inspirados, ditos divinos, ou mesmo por se constituírem como igrejas, no caso, grupos de fiéis, com ordenamentos ou hierarquias que serviriam para melhor conduzirem o fiel a si mesmo, por meio de Deus, ou a Deus mesmo, em si e nas pessoas ao seu redor (ou no mundo, como no budismo, que dá importância extra à natureza e à observação do comportamento humano).

Pensando assim, de forma genérica, torna-se fácil imaginar que a psicologia, conduzida por profissionais, ou mesmo a partir de livros de auto-ajuda ou não, possa se constituir, estrito sensu, numa espécie de religião por ajudar o homem a se reencontrar. Mas minha pegada não é assim tão superficial, conectando uma coisa com a outra, e dizendo que por constituir uma forma de autoconhecimento a psicologia deva se assemelhar a algo conduzido tradicionalmente em púlpitos ou a partir de livros que dizem sagrados. Minha pegada tem a ver com algo de minha experiência enquanto sujeito que passou por terapia por quase uma década, que agora retoma a terapia de grupo de maneira informal, que foi diagnosticado com um mal psíquico do qual tentei me livrar sem muito sucesso, e que atualmente toma diversos remédios relativamente leves mas com os quais eu consigo me conduzir melhor no dia a dia, sem recair em crises fortes, independente do que me aconteça (estou até escrevendo um livro sobre isso).

Antes de mais nada, apesar de formalmente eu ser um leigo no assunto, li muitos livros sobre psicologia e conheço em linhas gerais as atuações da psiquiatria no cérebro (em casos de depressão e de psicotrópicos diversos), e não paro de pesquisar, em livros que compro ou dos quais faço download (prefiro os clássicos, mas também leio sobre autoajuda em psicologia).

O método freudiano, todos sabem, baseava-se essencialmente na fala e na expressão de questões que diziam respeito à vida do paciente. Claro que também dizia respeito aos sonhos e a questões culturais diversas, mas o freudiano típico é aquele que acredita ou dá valor àquilo que de alguma forma é expresso. Óbvio que a partir daí muito sai de relevante, e a maior parte da terapia tradicional baseia-se, claramente, na expressão para um psicólogo ou para um grupo de pessoas, mediadas por um psicólogo. Óbvio que nesse trabalho Freud não buscava revelar a psicologia propriamente dita do paciente, mas resolver questões que, na sua época, a medicina não conseguia, por meio cirúrgico ou por tratamentos de choque ou de outros típicos para males como neurose, epilepsia e uma variedade que existia há muitos séculos. Porque Freud era mais um médico do que um psicólogo, que foi uma disciplina que ele criou.

Ocorre que a psicologia avançou muito desde então e mesmo Jung foi pegar suas ferramentas de outros lugares, em desenvolvimentos por meio dos quais ele discordou de Freud (eles romperam), e aos quais ele passou a dar diferente ênfase. Jung foi além na questão cultural, dentre outras, e estabeleceu metodologias - algumas ou todas repudiadas por Freud - que não se baseavam exclusivamente ou principalmente na palavra, como por exemplo os testes com mandalas, um dos quais (a por palavras) eu mesmo fiz, com uma terapeuta de origem junguiana mas que tinha formação química, ou seja, em psicotrópicos, algo que eu sempre me recusei a tomar, e cujas conclusões me ajudaram muito para tratar, por meios próprios, questões que, claro, poderiam ter vindo à tona de outra forma, mas que daquela forma me e nos satisfizeram.

Seja como for, o charme e a utilidade, de muitas formas, da conversa não deixaram de valer para muitos os que consideram a psicologia um depositório de saber. E mais: estando a psicologia espalhada por todo o mundo, sempre haverá quem vá aos textos freudianos clássicos, que hoje são facilmente adquiridos nas livrarias físicas e virtuais, e daí retire inspiração para solucionar questões que, vá lá, somente consigam vir à tona por meio da palavra ou que mais facilmente venham por meio dela.

A questão, porém, é que, se dependesse apenas da fala, de eu expressar tudo o que me advinha - e eu sempre fui muito dedicado em contar meus sonhos e minhas ideias aos meus terapeutas, que foram uns cinco no total, mesmo por meio escrito ou por escrita de meus sonhos, por exemplo, assim como muito desbocado -, eu nunca teria chegado ao ponto de conseguir ser medicado e de conseguir controlar males pelos quais fui diagnosticado, sim, e dos quais vim a sofrer bastante, estando ou não casado. Ocorre que de alguma forma a fala foi-me eventualmente insuficiente e em alguns momentos inconveniente e mesmo desnecessária, e de alguma forma meu caso se tornou grave o suficiente para me obrigar a tomar remédios (que, como já disse, eu tentei abandonar de forma bastante agressiva, para comigo e para com outras pessoas, sem contudo conseguir).

Porém, um de meus terapeutas, ao me explicar por que era necessária, além da medicação, a psicoterapia, ou seja, a terapia tradicional, eu entendi o valor da fala, e de jogar para fora o que incomodava, e também o valor de de vez em quando o terapeuta falar algo, se devesse, e mesmo de interromper ou evitar a fala, assim como a necessidade da terapia de forma geral, que é a questão da vontade, de se dedicar a superar os problemas, e de - com isso - ajudar a fazer com que a serotonina, que meu mal mantém longe das sinapses, e que os psicotrópicos ajudam a espalhar, consiga se aproximar delas e fazer com que meu cérebro funcione bem, de forma adequada, e com que eu consiga resolver meus problemas sozinho ou com mais alguém.

O valor da fala, contudo, ficou absolutamente claro para mim muito recentemente, quando uma amiga, por facebook, me convenceu da importância de reparar nos sentimentos de meus familiares - especialmente minha mãe - a meu respeito, e com isso de retomar a medicação, por um lado, e a terapia, por outro, mesmo que em grupo. Eu digo desde já que nunca gostei de terapia de grupo, achando-a muito inadequada e até contrária às minhas crenças no sentido de falar e falar para desconhecidos. Mas eu fui, com minha mãe, e falei tudo o que devia, e talvez o que não devia, e a partir daí fui medicado e mais além, fui percebendo que meu caso tinha um interesse para os outros. Ocorre que não tive, de ninguém, muitas recomendações nem conselhos. Eu simplesmente falei, minha mãe se sentiu muito melhor, fui medicado e passei a ver naquilo, naquelas rodas, uma utilidade até para pessoas que - eu passei a considerar - precisavam mais de uma dose ou um pouco de bebida para, sozinhas, descobrirem uma pequena solução para seus "males" - que eu não considerei como tal, mas que ELAS CONSIDERAVAM.

Acontece que essas pessoas - que, repito, na minha opinião, poderiam conseguir algo só com uma dose - foram em sua maioria a esse encontro tentando ver se a psicologia ou a psiquiatria poderiam lhes receitar algo de que poderiam usufruir e se sentirem melhor. Havia de tudo ali, é claro, e longe de mim querer com poucos encontros achar uma regra geral para a psicologia como um todo.

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Havia desde rapaz que queria trocar o medicamento, que fazia com que ele não visse as cores das roupas a ponto de o afetarem, um cara que buscava controlar a libido, outra menina cujo problema era estar envelhecendo e com dificuldade para encontrar parceiro, uma senhora de bastante idade e caráter forte que se sentia deixada para trás pelas próprias filhas, uma moça realmente deprimida, sem apoio familiar e com problemas de emprego, um senhor pai de duas filhas com problemas de emprego e inadequação de remédio psicotrópico, até eu, um esquizofrênico que precisa de terapia de grupo constante. Nesses casos, todos buscavam encaminhamento. Mas vários realmente não precisariam de terapia, no sentido de psicoterapia. Mas, penso eu, talvez nem precisassem de remédios.

Daí que penso: qual o sentido da terapia para gente como eu, que precisa de acompanhamento, ou para pessoas que podem claro ser medicadas mas que só solucionarão seus problemas enfrentando-os? Nesses casos, parece-me claro que a psicoterapia virou quase uma espécie de solução milagrosa para todos os problemas, para quem não tem com quem conversar ou para quem tem dificuldade em controlar as emoções. A pessoa parece buscar o remédio para se controlar; mas, de resto, a terapia parece quase uma forma de a pessoa se reencontrar, conversando com outros (grupo) ou não; em suma, uma espécie de religare, uma espécie de religião.

É curioso que eu mesmo chegue a essa conclusão, inadaptável que me encontro com as religiões em geral, cujo modus operandi e cujas lições parecem pouco me acrescentar. Pois vejo em todas as religiões púlpitos de poder, dificilmente um lugar de compartilhamento de problemas, dificilmente um lugar em que as pessoas possam se encontrar. Muito ao contrário, como sou profissional da atuação percebo claramente como tudo aquilo parece falso, como todos os testemunhos parecem apenas da boca para fora, como todos aqueles encontros são apenas compartilhamento de lugares de poder entre as pessoas, que não são, salvo exceções raríssimas, de meios econômicos diversos, ou profissões realmente esclarecidas nem nada. São lugares em que as pessoas aparecem umas para as outras, em que as pessoas se aparecem e demonstram seu poder e seu saber, mas raramente lugares em que as pessoas realmente se encontram. Pois em religiões tradicionais parece que o encontro se deu e se dá em outro lugar. E ao frequentar os grupos de terapia percebo o quanto há de verdadeiro naquilo, até mesmo naqueles casos ou com aquelas pessoas que a gente sente que exageram, que não sabem lidar consigo mesmas de forma geral, e que portanto não têm problema psicológico algum.

O lugar em que vou, claro, tem suas regras. Falar de si; não interromper; não dar conselho; não julgar; comemorar alguma conquista, qualquer que seja. Em suma, tem regras de convívio e formas de evitar o excesso de parte a parte. Mas, mais que isso, mesmo nas situações mais desconfortáveis (quando sentimos que a pessoa mente, ou que exagera, ou que simplesmente precisa ter coragem), sentimos que estamos com essa pessoa por meros instantes e que isso nos religa a nós mesmos, a Deus quem sabe, mas também a essa pessoa. É interessante ver como pessoas que não parecem conseguir ficar de pé em si mesmas, em seus egos, ou em suas histórias, após a sessão, que é uma conversa, elas se prontificam a tentar ajudar o outro, ou se abraçam, ou mesmo encaram a outra pessoa com orgulho dela ou de si mesmas, e não assumem o mesmo lugar que antes assumiam, ensimesmadas, e meio que perdidas em si mesmas. Não vi até agora nenhuma dessas pessoas da terapia que tenha saído pior do que entrou, e mesmo assim nem sempre considero que tenham se curado ou se safado de algo pior; simplesmente vivem, como eu imagino que tenham sido as igrejas primitivas e como sejam as igrejas que fazem valer o seu nome, mas sem cagação de regra, sem intromissão indevida, e sempre com acompanhamento (noto que duas profissionais são necessárias, não considerando possível que tudo se dê realmente bem com apenas uma delas).

Claro que não quero dar uma de irresponsável. A psicologia como religare vem simplesmente do fato de que os casos clássicos de Freud, Jung e muitos outros se tornaram alguns dentre muitos outros que, devidamente estudados e catalogados, deram origem a toda essa ampla série de transtornos que alguns dizem inventados para enriquecer a indústria farmacêutica - e acredito que em parte seja isso mesmo -, mas dos quais outros realmente sofrem e se sentem melhor tomando seus remédios autoinfligidos. Ocorre que, pela própria limitação da ciência, sem força de vontade não dá, e seria então para isso que serviriam as conversas com os terapeutas ou as reuniões em grupo - para que a pessoa que sofre do mal possa, do seu jeito, com seus critérios e seus recursos, aproximar-se dela mesma, não necessariamente - é claro - apelando a critérios já mais do que ultrapassados (como introversão e extroversão, por exemplo), mas ao contato prima facie com seus colegas sofredores ou com seu terapeuta - isto, para quem pode pagar, é claro. Não consigo considerar viável alguém conseguir tudo com o remédio - nem acho isso meramente possível. Porém, ir ouvir calendas gregas nos púlpitos das igrejas também não dá. Igreja, assim, seria claramente ir a consultas individuais ou coletivas para ao menos reconhecer-se como tal, até para que a família não tenha tanto com que se preocupar.

Psicologia hoje é quase conversa em família. E quer família mais próxima do que a nossa e do que aquela que nos aproxima de nós, por intermédio de algo mais que desconhecemos?

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