o olhar amor na arte após o fim da arte e da filosofia

Veja ao seu redor - a saída existe e está em tudo e em todos nós

Contreraman

Antes:
E as coisas que continuam já se foram. E as que se foram continuam para nunca terminarem. Até um fim que nunca vem.

Depois:
Vale o que tem amor.

Olavo de Carvalho e Isaiah Berlin: um paralelo

Antes de mais nada, um esclarecimento. Não sou fã declarado do Olavo, que é ora odiado pela esquerda ora idolatrado pela direita. Fiquei sabendo de seus escritos relativamente tarde, até porque fui formado pela FFLCH-USP, e ele é sabidamente contra a orientação dessa faculdade/universidade.


histoire_canne_XX_siecle_2.jpgSó muito recentemente, fiquei a par de seu foco de pesquisa, que é sabidamente muito ambicioso, e não posso deixar de me surpreender com sua erudição e acerto em muitas críticas à esquerda, a Obama e em seus comentários políticos.

Por outro lado, sou um antigo fã do russo de origem judaica Isaiah Berlin, do qual devo ter todos ou quase todos seus artigos e livros, em várias línguas. Minha admiração a ele vem desde a Filosofia, que cursei, assim como da Ciência Política, muito embora meus colegas à época não o valorizassem tanto quanto eu, e muitos até tirarem sarro de sua forma de entender o mundo. Berlin foi o derivativo que eu pude encontrar de minhas leituras sobre política na época do Jornalismo, nos anos 80, quando devorava Edmund Wilson, H. L. Mencken e diversos outros, até brasileiros (como o Castelinho, tão vilipendiado pela geração posterior).

Não quero aqui elencar os pontos que Olavo destaca em suas reflexões políticas, comportamentais ou religiosas. Eles estão bem expressos neste link da Wikipedia, que mostra também seu currículo e algumas de suas conquistas e desavenças. Não pretendo também aqui criticar nenhum ponto de vista que ele porventura tenha, muito menos elogiar pontos controversos de sua obra, ou seus comentários sobre pessoas públicas que eu chego a quase desprezar, como o deputado Bolsonaro e Marco Feliciano. Não estou aqui para esse tipo de serviço, até porque existe gente muito bem paga que faz tudo isso.

Olavo olavo-blog.jpg

Este pequeno artigo servirá, em minha opinião, para realçar alguns pontos em comum entre o trabalho de comentador de Olavo e o de Berlin, em termos de seus olhares críticos sobre a história das ideias, a política real e conduzida por movimentos de massa, e um certo olhar plácido e meio desencantado sobre o futuro da humanidade. Berlin, filho de judeus russos, voltou à Rússia para tirar a prova de questões que o aporrinhavam, assim como eu, que voltei ao Chile, onde nasci, e disso, além de terem surgido livros sem conta sobre seu relacionamento com poetas de lá, surge também um certo desencanto sobre a política real.

Berlin tentou também, ao seu modo, interferir no esclarecimento das massas, e embora eu não faça bem isso Olavo pretende fazê-lo. Daí ser um pouco complicado simplesmente rotulá-lo de direita extremada - o que ele é; Olavo é mais um ultraconservador insatisfeito com o país onde estudou; Berlin, um expatriado acomodado na universidade tentando entender os excessos de um século que percorreu como visitante quase todo; eu, um imigrante que se naturalizou e que, não sabe bem por que, ainda acredita parcialmente no esclarecimento de uma sociedade (a brasileira) rainha da acomodação (para o Olavo).

Para quem conhece o Olavo apenas de seu livro O Imbecil Coletivo, em suas várias edições, apresento um sujeito que dedicou sua vida a estudar a religião da qual é fã fervoroso (o cristianismo), a estudar a existência ou não de fundamentos, por parte dos estudiosos e da indústria cultural, a essa religião, a estudar também a formação do Estado moderno, sob o aspecto histórico e das ideias, e mais ainda, a criticar, por dentro, a política e o jornalismo feitos em seu país, de forma ácida e contundente, sem poupar aqueles que ele considera pouco rigorosos ou mal intencionados. Num país de enganadores, essas tarefas, a que ele se dedicou com afinco bastante incomum (dentre várias outras), não é pouco, venhamos e convenhamos.

Claro que os detratores citam-no como se ele fosse simplesmente um pensador carola que odeia o PT e qualquer esquerda, e que não se cansa de falar mal de todos quem sabe por alguma benesse futura. Mas quem o ouve, e percebe o poder de sua verve e confere algo (apenas algo) de sua bibliografia, não pode, em sã consciência, achar que ele é apenas isso, um carola de direita. Pois o que se percebe no Olavo é que, por detrás de suas convicções e de seu saber, existe uma vontade férrea de descobrir a verdade, e que, depois de descoberta, ele se sente meio que no dever de dizê-la a todos. Nesse sentido, ele é quase um iluminista desses que ele tanto maltrata, porque, no frigir dos ovos, ele parece acreditar realmente na salvação que é saber a verdade.

Berlin isaiah-berlin.jpg

Já do Berlin, embora eu tenha falado um pouco, não consigo realmente fazê-lo com sofreguidão sem falar de seu ímpeto incontrolável em tentar entender por que o século XX foi como foi. Pois, embora ele tenha estado na Rússia antes da Segunda Guerra, conseguiu se intrometer no meio acadêmico inglês, e lá estando começou sua carreira com um ensaio sobre esse que, de outro século, atrapalhou tanto o nosso: Marx. Mas, embora tenha conseguido conhecer muitos dos luminares que iriam fazer do século um apanágio dos analíticos (Filosofia analítica), não ficou nisso. Foi-se imiscuir na tradição dos russos que deram nos outros, nos alemães que deram neles, e assim sendo tentou entender a razão até dos que pareciam e se autoproclamavam irracionais (os irracionalistas). Pois foi neles que Berlin identificou os pais dos ditadores posteriores, dos que, não mais acreditando na razão, levaram-na ao seu paroxismo, usando a indústria para matar milhões.

Pois aqui é curioso como Olavo e Berlin descombinam. Este, por tentar entender; o outro por, entendendo, não mais acreditando naquilo que via. Pois, se o mundo contemporâneo é o berço do totalitarismo travestido de democracia, então Olavo quer dele distância, e sabendo que o mundo não dá marcha a ré pelo menos quer que a sociedade tome controle do que é seu - e que teria sido deturpado pelo Estado laico, apanágio que parecia ser indestrutível, ao menos entre a classe pensante. Não podendo Calvino fazer do mundo um mundo de santos, então que ao menos a religião esteja a salvo do Estado. Esse seu apanágio (palavra três vezes usada bem de propósito).

Já está mais do que na hora então de a classe pensante brasileira - bastante pequena, aliás - abandonar os engulhos e os chavões e começar a tentar esboçar, por conta própria, uma saída aos dilemas levantados por Olavo e Berlin. Porque a sociedade, até prova em contrário, ainda é nossa. A não ser que o Leviatã a surgir seja realmente um dia impossível de controlar.


Contreraman

Antes: E as coisas que continuam já se foram. E as que se foram continuam para nunca terminarem. Até um fim que nunca vem. Depois: Vale o que tem amor..
Saiba como escrever na obvious.
version 2/s/literatura// @obvious, @obvioushp //Contreraman
Site Meter