o olhar amor na arte após o fim da arte e da filosofia

Veja ao seu redor - a saída existe e está em tudo e em todos nós

Contreraman

Antes:
E as coisas que continuam já se foram. E as que se foram continuam para nunca terminarem. Até um fim que nunca vem.

Depois:
Vale o que tem amor.

Richard Wagner, o bruxo que deveu até à eternidade

Não sei onde li que Wagner, el muy amigo de Nietzsche, morreu devendo horrores, e precisando fugir de cidade em cidade por causa disso. Ora, e a quem isso agora importa?


KEY-ART.jpgMinha relação com a obra do bruxo não é muito extensa nem profunda. Mas tem a ver com momentos-chave de minha vida, vividos com pessoas que tanto contribuíram para que eu, pensando, também duvidasse, e com outras que, já falecidas, deram origem a muitos de meus dilemas - ou os formataram de melhor forma, o que me ajuda bastante.

Eu havia ouvido Wagner lá nos idos dos 80, quando me deixava embalar pelos clássicos da música erudita. Mas ele, embora me surpreendesse, ficava algo a dever a meu intuito por beleza a outros pós-românticos e mesmo mais tradicionais - esses que os guitarristas neoclássicos não se cansam de emular. Eu não tinha sequer um LP dele, e isso me era importante naquela época (o aparelho em que eu podia ouvi-lo era dos meus pais, senão teria que apelar a fitas K-7).

Mas foi só ao participar como ouvinte (na verdade, quase como móvel) dos ensaios de quatro peças do Gerald Thomas, na metade da primeira década dos anos 2000, que eu percebi, sem querer, a dramaticidade da obra do alemão, numa peça em que a então esposa do Gerald brilhava como deusa e em que eu o via, nas coxias, dominando seu jeito de atriz no palco, em tempo real (uma oportunidade inestimável e inesquecível). Pois foi então que percebi o quanto o drama humano poderia se alçar no mundo, e alcançar esferas aparentemente extraterrestres. Foi algo soberbo, que não me cansei de ver - e pelo qual talvez em parte tenha perdido meu casamento.

Hoje pouco importa. Às voltas com os eruditos novamente, e com meus reais gostos estéticos, que ficam no figurativo (por enquanto, sobre um dos quais escrevo um livro) e que avançam nos neoclássicos na medida em que recuperam a seriedade e absurdo do trajeto humano, reparo como esse alemão endividado me toma pelas mãos o tempo todo e me faz encarar o alto e o baixo, quase ao mesmo tempo, subjugando minha tentação pela mediocridade que aparentemente nos domina, neste milênio de novos gostos, novas gerações e novos mundos (inclusive pela técnica). Pois eu, que sempre admirei quase apenas os clássicos, fui por demais perturbado pelos atuais, e pela aparente lavagem cerebral que cometem nos incautos. Sabem, essa geração pós-moderna, esses instrumentistas que mostram saber mexer os dedos - mas não tanto a cabeça -, esses malucos que dizem dizer com olhares de sofreguidão ou de lamento que não enganam qualquer um que conheça apenas algo de palco...

Pois todo aquele que gosta - e sempre gostou - de estudar sabe que antes de nós muitos de grande talento admiraram a muitos outros, e muitos outros tentaram entendê-los, e praticamente enlouqueceram de assombro, e sofreguidão em alcançar aquelas belezas. E todos esses que sabem o quanto já se foi - mas de alguma forma ainda perdura - sabem também que para podermos sequer falar a respeito de alguma coisa temos, em muitos casos, que nos debruçar diante de escavações, histórias, páginas corroídas pelas traças, assim como diante de gravações mal guardadas ou revistas puídas, repletas de mofo. Pois quem estuda um pouco começa também aos poucos a se assombrar, e a notar o quanto precisa primeiro ver, primeiro escutar, primeiro refletir - antes de usar a boca - ou a pena (falar de pena hoje é quase absurdo, claro). É então que, meio sem querer, ficamos aos poucos conservadores, talvez até chatos, mas também mais ponderados, mais estudados e mais interessantes (quase sempre).

Pois eu, por temperamento, sempre fui um respeitador do que veio antes, do que subiu mais, do que teve mais força, do passado de quem também sofreu mais. E talvez por isso (também) eu tanto me deixava levar pelos clássicos de outrora (e também de muito outrora). Ocorre que, dentre todos esses clássicos, há os que vão para cá e para lá, os que remetem a nossos sentimentos mais tradicionalmente aceitos (e alguns destes são muito bobos), outros que remetem a coisas piegas demais para serem levadas a sério (mas muitas vezes as levamos), outros que remetem a grupos ou religiões que não mereceriam talvez serem levados/as tão a sério (e isso tambem acontece, por vezes por distração), e outros a civilizações que talvez tenham nos dado mais vontade de subjugação do que realmente de libertação interna e externa (e disso precisamos muitas vezes ficar alerta), e portanto precisamos um dia nós mesmos talvez, quiçá, distinguir uma coisa da outra - até porque eles, esses clássicos, o fizeram, e o fizeram ao ponto de terem de escolher suas vias, seus caminhos, suas vidas.

Nesse afã de distinguir coisas umas das outras, eu sempre me ative mais àqueles que apostavam na sensibilidade de crianças ou de tempos idos em nossas vidas que remetiam àqueles momentos que, quanto mais envelhecemos, mais nos captam aquilo que parece realmente ser da maior importância. Por isso, quem sabe, eu me atinha tanto a Schumann, ou a outras obras mais fugazes (de Chopin, por exemplo, ou mesmo de Mozart), que me ligavam àquilo que já havia ido, a meninas que eu queria ter conhecido mais (e não pude, ou elas não quiseram), ou a momentos de minha infância que tanto me deixaram paisagens ou impressões de beleza que não sumiram, por mais que o tempo passasse e outras pessoas me abordassem.

Acontece que eu vinha de uma ditadura (a chilena), havia visto um golpe de Estado, tinha muitas pretensões de poder conhecer algo de história, e essa ênfase no pequeno não me pegava, realmente. Por outro lado, algumas de minhas fixações estavam na astronomia, naquilo que era realmente grandioso, os planetas, o Sistema Solar (a existência em si ainda não era meu tema), e eu precisava de algo que me ligasse a esse tipo de experiência. A música orquestral temática, do tipo Holst, com seus Os Planetas, e algo da experiência dos pós-românticos, que viajavam ao ver exposições de quadros, como Mussorgski, seu Quadros de uma Exposição, com seu jeito visual de enxergar as notas, conseguiam àquela época, confesso, me animar bastante. Pois embora eu não tivesse muitos materiais a mais contra os quais comparar as peças musicais, eu conseguia viajar na imensidão da existência para além de mim com eles. Ao menos naquela época, claro. Muitos outros também deixaram impressão em mim, que cavouco aos poucos no Youtube recuperando a sensação, mas de chofre digo que o principal era isso mesmo.

Ocorre que meu pai sofria com uma doença incurável, que eu precisava me esgoelar nas sensações de sofrimento que pareciam destruir meu ego e tudo o que restava de autoestima, e foi assim que me aproximei de românticos e pós-românticos dedicados a ir para além do amor, para além da estima, para além do sofrimento, para além da dor. Foi assim que eu desembarquei em Chausson, com seu Poema, que transparecia para mim a dor de algo impossível de ultrapassar - no caso, os males de meu pai - e ao qual eu poderia, quem sabe, com ele me irmanar. Foi assim, quem sabe, que eu percebi o quanto a música poderia realmente me salvar, e assim eu ia, tentando levar os problemas, com minhas fitinhas, que ainda possuo. Mas o grandioso ainda me esperava.

Eu fiz Filosofia, como já disse. E lá estando, entendi ou soube (coisas diferentes) a respeito da fixação que Nietzsche teve por Wagner em priscas eras, e como ele o elevou a níveis até então quase incontestes de superioridade na música por acreditar que Wagner expressava o que ele, Nietzsche, queria esposar e defender. Ocorre que Nietzsche e Wagner foram, de forma poderosa e quase inconteste, assemelhados ao regime nazista (hoje sabemos que isso foi indevido, mas é preciso pensar a respeito), e isso me afastou um pouco (confesso) de meu gosto pelo alemão (refiro-me ao músico). Ocorre que (eu soube depois) Wagner não bebia nem queria beber das fontes do seu amigo admirador, muito ao contrário, e que queria retratar em suas músicas dramas maiores, antigos, antiquíssimos do povo de que fazia parte, povo que havia sido invadido por influências incontáveis por séculos e que delas queria se libertar (hoje sabemos o quanto o protestantismo e a filosofia acabaram redundando na energia do nazismo, e isso não é de se negar nem a que se deve dar pouca atenção, até porque temos frutos patentes disso atualmente). Nesse sentido, era preciso distinguir uma coisa da outra, algo que pude fazer de alguma forma e que agora me pega de chofre, estando eu em busca de referências potências no que há de mais clássico para conduzir os anos que me restam em estudo e curtição estética.

Antes de mais nada, é preciso contextualizar. Praticamente toda a filosofia alemã, que é por muitos considerada insuperável, surgiu em parte por uma vontade férrea de se afastar da filosofia importada de outros países, e mais ainda, de sua influência, numa Europa de Estados-Nação que, em começo ou na metade de sua própria formação, lutavam arduamente por recursos e por se imporem uns aos outros, após Roma tê-los deixado convivendo uns com os outros, cada um com sua língua, cada um com sua tradição, a Igreja ter se partido ao meio com os protestantes (que criaram a ideia do Estado laico), e um império (o Francês) ter deixado para trás sua grande influência em todos, por meio da cultura e da Revolução Francesa, com o Iluminismo e diversos frutos que deixou também para o resto do mundo. A Alemanha, nesse sentido, buscava a si mesma, e o que fez Wagner nesse afã (como Villa-Lobos no Brasil, e muitos outros, cada um em seu rincão)? Procurou suas próprias fontes de riqueza cultural, os dramas presentes na mitologia de origem diversa (o Fausto é em parte alemão e inglês, dada a influência entre ambas as línguas) e traduziu sua ambição em obras que queria universal (Deutschland über alles, a Alemanha acima de tudo), o que poderia ter redundado em uma grande nação, é certo (e redundou), mas que também, numa mente doentia (a de Hitler), redundou numa tirania que dizimou grande parte de um povo e que queria muito mais do que isso.

Claro que não é preciso saber disso para gostar de Wagner. E o que ele me passa é, em parte, grandemente isso. Uma vontade de mostrar e convencer a respeito de uma ideia (da grandeza da história, da trajetória dos seres humanos, de certos personagens ou mesmo da nação alemã) sem que seja necessário entender a história sendo narrada ou compreender, em toda a profundidade necessária, o drama exposto em sua mais profunda medula. Pois não é que reparei nisso pegando uma obra que ele não fez originariamente para uma grande obra orquestral, mas inspirado pelo nascimento do seu filho, Siegfried Wagner (do qual existem muitas fotos na web)? Pois foi aí que eu reparei como seu talento (de Wagner) transpareceu a tal ponto em sua emoção (claro que contida) que depois veio se transformar no personagem da ópera, que esta, sim, parece avançar para além da eternidade. É impossível deixar de se comover com a emoção ali narrada, emoção de algo que supera aparentemente o que dá para narrar com palavras, e que vai para além do humano, alcançando o espírito que enlevava até ela, a eternidade. E foi assim que ontem eu reparei em sua grandeza, que não considero insuperável por minha cada vez maior ignorância, neste mundo em que tudo se expande como o Big Bang.

Termino este artigo dizendo: sim, Wagner deveu até à eternidade (credores, família, amigos). Mas, venhamos e convenhamos, isso agora importa? A quem importa? A mim, pouco importa. Importa mais que a eternidade parece agora dever mais a ele do que toda a eternidade de pessoas, indivíduos, grupos e mesmo nações.


Contreraman

Antes: E as coisas que continuam já se foram. E as que se foram continuam para nunca terminarem. Até um fim que nunca vem. Depois: Vale o que tem amor..
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