o olhar amor na arte após o fim da arte e da filosofia

Veja ao seu redor - a saída existe e está em tudo e em todos nós

Contreraman

Antes:
E as coisas que continuam já se foram. E as que se foram continuam para nunca terminarem. Até um fim que nunca vem.

Depois:
Vale o que tem amor.

Você também já foi assim...

Vc, que já está com alguma idade, alguma digo, mais de 40, e tem tendência a meter o pau ou classificar ou mesmo julgar jovens que, pelos seus critérios, têm gostos musicais, de comportamento ou mesmo ídolos que você considera inadequados, não te peço que reconsidere. Apenas olhe melhor. Enxergue. La esta voce.


caco.jpgQuando fiz faculdade, o rock já estava em sua 3a ou 4a geração. Muitos historiadores começam com um Eddie Cochran, passam por Elvis, depois descambam no rock da geração 68, ao passo que outros consideram que tudo começou apenas com Bob Dylan. A mim, confesso, pouco interessa.

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Minhas principais referências de juventude passavam pelas leituras de faculdade, os filmes que assistia, no cinema primeiro (o vídeo veio depois, sim, o VÍDEO veio depois), as músicas que eu começava a ouvir por minha própria inspiração (podem chamar de mau gosto que isso também pouco me interessa), assim como - é claro - as inspirações de puberdade e mesmo infância, que iam até o Chile, passavam pela Motown do final da década de 70 e começo dos 80, os Bee Gees e a geração disco, e tudo o mais.

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Hoje, nos meus 50, eu estou aos poucos capturando os detalhes de todas aquelas influências, reparando naquilo que realmente ficou, se era de bom ou mau gosto, e até vendendo - aos poucos - minhas poucas raridades daquela época (mais relacionadas ao mundo do heavy metal instrumental).

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De lá para cá, muito mudou no meu gosto, assim como voltei incontáveis vezes no panorama musical histórico para atingir o jazz dos anos 20, a música erudita mais tradicional possível, a música folclórica de lugares como a Romênia e o leste europeu em geral, e mesmo a França dos anos 90 vendida nos metrôs de Paris.

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Heifetz/ Chausson MI0003277823.jpg

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Musica da Mafia be4220e9675c49a19e0da3d4f0867c55.jpg

Passei por muita coisa e afinei o meu gosto. Mas ainda considero que ninguém tem nada a ver com a qualidade ou mesmo o pedigree de qualquer parte de meu gosto musical - até do pior possível. Aprendi isso vivendo, claro, mas também compreendendo que os gostos são inamovíveis e intransferíveis, e que eles, em si mesmo, têm um valor maior até que o do próprio saber acadêmico.

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Pois os gregos deixaram, por exemplo, suas obras, mas viviam os seus sons, seus ritmos, suas cores e seus gostos. E as pessoas no fundo não querem deixar obras; querem viver. Se consideram que as suas vidas são as suas obras, isso é derivativo.

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Pois, assim como, quando eu gostava de músicas, bandas e influências diversas, apareciam pessoas que gostavam das mesmas coisas, e alimentavam essas paixões, e com elas eu curtia os momentos que me cabia curtir - sob condições as mais variadas -, havia também aquelas pessoas que torciam os narizes, diziam que isso não era tudo aquilo, que se afastavam e que, ora me deixavam imerso em minhas paixões, ora trabalhavam contra, torciam contra, e até me diziam que não valia a pena.

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Pois bem. O tempo vai e vem, e esquecemos todas essas pessoas, desde aquelas que torcem a favor quanto aquelas que torcem contra. Nem lembramos mais.

Mas sabemos que aquelas pessoas que torciam contra diziam uma espécie de "não" com suas atitudes a nós mesmos, meio que nos reprovavam em nosso ímpeto de sermos como fomos, de curtirmos o que nos apetecia, de pirarmos com coisas que em geral não valem mesmo a pena.

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E com isso essas pessoas nos negavam, e nos escondiam, e nos afastavam de outras pessoas. Em suma, por julgarem nossos gostos POR FORA teimavam em dizer que nós, de alguma forma, não prestávamos.

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Sim, é bem isso. Não à toa as pessoas que fazem isso são mais velhas, estão mais fechadas ao mundo e à novidade, assim como a novos valores e novos saberes.

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Ocorre que a gente envelhece, com o tempo também envelhecem nossos gostos, surgem novas "galeras", os jovens passam a se comportar de forma que no começo apenas estranhamos e depois meio que ignoramos

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- sabendo, contudo, que vivemos no mesmo mundo que eles e que eles podem querer saber nosso saber e nossa opinião sobre as coisas, e então, meio que de repente, nos vemos (vestimos) na camisa daqueles que dizem "não" a algum gosto, a alguma moda (sempre passageira),

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a alguma gíria (que como todos sabem passa ou fica, a depender de sua força), a alguma influência estranha que tal juventude possa receber e com ela se deixar levar. É quando viramos "tios", "tiozinhos", "tiozões" e percebemos que nossa época já se foi.

O que seria do rei se ele nao tivesse persistido? roberto26.JPG

Eu nunca achei nada do Restart, por que odiar? img270245_restart.jpg

Putz, criminalidade? CineComTop5 copy.jpg

Mr Catra, blagh? mr-catra-funk.jpg

Porém, é bem nesse momento que nós, por motivos variados, podemos nos deixar levar, quem sabe por uma leva de liberdade tardia, por nossas antigas paixões - aquelas, justamente aquelas que os tiozinhos da época, ou os tiozões daquele tempo, diziam não valer nada, não valer a pena, que não tinham valor.

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Pois é então que percebemos que aquelas pessoas que diziam aquilo, que se comportavam de forma a cortar o nosso barato, a nos deixar constrangidos com reprimendas idiotas, não é que não gostavam do que a gente não gostava, eles simplesmente não gostavam mesmo da gente, e não queriam dizer isso.

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E é então quando a gente, vestindo ou não a camisa de tiozinhos ou tiozões, com grana ou sem, com moral ou sem, mas com nossa história de vida, percebe que a gente não deve fazer aquilo - tirar o barato da garotada.

Agora, voltemos ao assunto em si. Rock.

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Eu peguei o rock quando o AC/DC, o Scorpions, o Uriah Heep, o Jethro Tull e o Iron Maiden ou começavam ou realmente começavam a deslanchar. Meus gostos iam mais na direção de um Iron e um Scorpions, mas não deixava de curtir o AC/DC, sem entender como eles eram chamados de geniais pelo meu maior amigo da época, o Carioca, e o que queria dizer aquele experimentalismo do Tull (que tentei ver num show lá na Barra Funda, mas eu ainda era pequeno demais para superar em altura qualquer tipo de galera). Mas via programas de tv, e neles começavam a surgir as MTVs da vida, que depois nem acompanhei com muita atenção.

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Queen? (1981), ouvi num radinho de pilha, transmitido ao vivo, a Bohemian (e o radio nem era meu) Queen Bonus 1416525250.jpg

Som Pop? Yes 550d80f634a140f4b9e378c74e2b9499umtylm.jpg

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All night... (eu nem sabia o que era isso) Kiss

Ocorre que, enquanto fazia faculdade, eu me embrenhava na música erudita, e que ao mesmo tempo eu sentia uma pegada erudita em algum rock que surgia na época, aquele dos guitarristas virtuosos como o Yngwie Malmsteen.

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E foi aí que eu criei a minha identificação com o gênero como um todo, curtindo em LPs que nem existiam por aqui o virtuosismo que me aproximava dos meus reais valores, que eram e sempre foram clássicos. Nessa época eu começava a me interessar pela Filosofia, que depois cursei na USP em longos anos e pela política, que cursei em pós-graduação.

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Acontece que eu nunca fora apresentado ao rock da primeira geração, e eu só viria a sê-lo por intermédio de uma outra influência marcante, o Motörhead. Foi com ele, com o Lemmy, que eu percebi a conexão entre as coisas.

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Mas eu nunca deixei de curtir o som feio do Cacophony, nem me arrependi de ir aos shows de lançamento de LPs de alguns dos maiores guitarristas da época, brasileiros, e de comprar LPs que hoje valem uma barbaridade.

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Meus pais nunca se intrometeram em meus gostos, para o bem ou para o mal, e a eles agradeço profundamente.

Ocorre que existem luminares daquela geração que dizem que queriam ter ensinado aos metaleiros de segunda geração como eu o que era realmente o rock. Ou seja, eles pareciam querer se entronizar como detentores de saberes que eu não tinha, na ocasião, e para isso deveriam querer me ensinar costumes.

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Não, caras pálidas, vocês não tinham nada a me ensinar. E simplesmente porque eu não tinha nada a aprender. Eu peguei o rock como eu quis, vi o que eu quis, e fiz conexões que eu quis, e que não é porque você parecia mais bem sucedido do que eu que poderia se meter a me ensinar educação moral e cívica ou todo o contrário, antieducação moral e cívica.

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Pois acontece que naquela época minha real influência era o jornalismo, que eu soube - ou não - transformar em algo de algum peso no mercado ou nos lugares em que atuei - e atuei com extrema paixão - e que a Filosofia que eu aprendi - porque aprendi para valer - aprendi muito melhor do que aquela mesma geração que queria me ensinar alguma coisa.

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E, o que importa aqui, é que foi esse meu aprendizado que fez a minha história, e que ninguém poderia ter se metido a torcer o nariz ou mesmo me dizer que havia coisas de melhor gosto que eu deveria ter conhecido. Gosto é gosto, como o próprio Kant insiste. E ele inaugurou a Filosofia moderna.

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Pois bem, foi por intermédio daquele rock de que eu gostava e das influências literárias que eu desenvolvi - e que envolvem alguns dos maiores escritores judeus da história, relatos de Holocausto, os russos da primeiríssima geração e tudo mais -, sozinho, porque ninguém ditava por onde eu iria caminhar ou me dirigir, é que eu entendi em que medida eu tinha também tanto em comum com gente como Bukowski, como Guinsberg e mesmo com outros nacionais como Piva, ao mesmo tempo em que eu não tinha nada a ver com eles porque eu bebera de budistas na origem, da religião no talo, e de dilemas existenciais que não deixavam nada a dever aos deles.

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Tudo isso para lhes dizer que naveguei do meu jeito e me conduzi ao meu universo independente do que qualquer um pudesse ter dito e feito. Daí a inexpressividade de qualquer opinião de gente mais experiente - ou aparentemente.

Ocorre que hoje sou um tiozinho, com 48 anos. E que rememoro minhas influências. E que, do meu jeito, mequetrefe ou não, desenvolvo minha obra, finalmente, livre de influências funestas, mas, ainda mais importante, sou defrontado com garotos e garotas para os quais sou quase um tiozão, e sou bastante afastado de seus universos, e pareço não me interessar por nada a que eles dizem respeito. Ocorre que isso é mentira.

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Soube eu avançar na vida de tal forma a ver justamente nessa garotada aquela faísca (homenagem ao guitarrista Faíska) de paixão que eu justamente tinha quando era como eles, e a reconhecer que não posso, nem nunca irei poder, tentar fechar-lhes caminhos - mas ao contrário, tenho eu de revelar-lhes alguns, se é que posso, e que isso é quase um dever meu, kantiano como sempre fui e continuarei sendo. Agora, uns agradecimentos - e olha que estou pela metade.

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Quem me revelou a música erudita foi um sujeito muito chato - para todos que o conheceram e que conviveram com ele: o Cacalo, irmão do Juca Kfouri, que não queria perder uma discussão por nada, mas que por outro lado sentia que havia em mim alguém que queria conhecer alguma coisa. O Cacalo fez, por exemplo, algo que eu nunca vi mais ninguém fazer por alguém: ele me DEU LPs de música erudita...

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e justamente os maiores que eu nunca consegui sequer imaginar passíveis de serem ultrapassados - enquanto obra conceitual e tudo o mais. Schumann, com suas Cenas Infantis, e mais ainda Holst, com seus Planetas. Ou vocês acham que vem de onde minha fixação pelo conceitual? Do Tull? Do Yes? Do Iron? Nada, vem daqui.

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Assim como vem de Mussorgski, e de tudo o mais que não sei mais onde enfiei (os LPs) (o russo, eu ouvia em fitas K-7 que engolia na musicoteca da ECA)...

O Cacalo, eu conheci e bastante bem (viajei com ele a serviço) quando eu era repórter no Guia Rural, e ele compaginava a fotografia dessa que foi uma ótima revista da Abril de outrora com outra grande influência em minha vida, o enorme fotógrafo Luigi Mamprin.

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Mamprin, como era chamado, havia coberto a Segunda Grande Guerra, lá na Itália, para a Abril, e se por um lado me deu um escolacho tremendo depois que eu pirei num aeroporto daqui destas bandas (estava enfrentando horrores familiares), por outro me revelou essa que é uma das maiores viradas epistemológicas em meu universo, a trilha de Santa Maria de Iquique.

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Note-se, meu pai havia nascido em Iquique, mas eu nunca soubera que o Chile que eu tanto idolatrava havia dizimado uma penca de mineiros no começo do século que lutavam por melhores salários, juntando-os todos na escola desse nome. Isso abriu uma senda de desconfiança em minha vida que depois eu lutei muito para engrandecer e para tornar essa senda que é minha raiva inconstante contra qualquer injustiça, real ou virtual.

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Claro que essa senda não foi apenas ideológica: nela existe uma música, uma trilha, e a trilha de um continente que me havia sido escondido, como fruto da elite chilena.

Dedico este artigo também ao Gau Effe, recente colega taboenense, que arduamente luta por um lugar melhor para os quadrinhos entre nós.

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Ocorre que não é isto, este reconhecimento aos que foram e aos que somos, e aos que vêm, que muitas vezes noto entre meus colegas de jornada com idade similar à minha. Noto, ao contrário, um grande menosprezo por frutos tardios de cultura ou de cultura rasteira entre os jovens; noto recriminação prévia a comportamentos que nada têm de errado, necessariamente; noto o apego a valores que, se a gente for notar bem, descansar sorrateiros nas trajetórias de filhos e netos nossos ou alheios, mas que eles não sabem identificar devidamente. Ou seja, noto muito preconceito e apego àquilo que só afasta mais do que busca aproximar.

Eu preferia a Rock Brigade... brigade.jpg

... embora fosse ao Aeroanta ver o que EU apreciava... Logo Aeroanta.jpg

...nao gostava do Premeditando o Breque (achava, como ainda acho, pretensioso)... preme.jpg

...embora fosse apreciar (posteriormente) a obra (tardia) de um Arrigo... luar_cancoes_de_arrigo.jpg

...porque eu sempre gostei e ainda gosto do que simplesmente gosto (embora tenha estudado na ECA, como grande parte da galera do Preme).

Pois, de que me adianta saber, na hora errada, que o Lou Reed fez isto ou aquilo, ou que o David Bowie também fez algo correspondente, se a pessoa que vê a minha paixão ali, suspensa, buscando uma conexão que me possa levar além, não identifica claramente essa minha necessidade e me cobra um gosto que eu não tenho, ou posturas com as quais não me identifico, ou qualquer outra coisa que me leve para baixo?

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Não adianta para nada, não é mesmo? Pois então. Mas não é que não me canso de ver isso em colegas, amigos, amigas e gente que eu imaginava olhando para a frente, acreditando em ideais maiores ou mesmo em ideais que a gente possa efetivamente colocar em prática? Não vejo isso.

Não quero com isto passar a impressão de que eu gosto de tudo, ou de que consigo ver mérito em tudo o que se me aparece. Não é verdade.

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Vez ou outra, me meto a classificar como merda trabalhos de guitarristas da minha época diante de amigos que curtem o que curto. Mas por que isso? Porque simplesmente concordar com gostos é algo que só agrupa o que é similar e mais, não promove uma singela ou benfazeja discussão, ao contrário. Puxa os puxa-sacos, atrai os que só concordam e não motiva uma busca por algo mais. De onde retiro esse meu ideal? Da Filosofia, claro.

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Da filosofia socrática, que sempre revela mais do que parece revelar - a maieutica que, se repetida com rigor em todo lugar, mudaria o mundo. Ninguém tem nada com isso, claro. Mas se eu sou fiel ao meu ideal, tenho que fazer o que se deve.

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Ocorre, por sua vez, que meus maiores ídolos sempre fizeram isso. Nunca fecharam portas. Abriram. Nunca julgaram. Viram links. Nunca encerraram discussões. Jogaram bolas para cima esperando que alguém mais jovem cortasse seus argumentos.

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Alguém pesquise, por exemplo, toda a obra e todos os dizeres, mesmo em vídeo, do Lemmy, e mesmo em sua autobiografia, que não encontrará uma só vez a ideia de que o ideal do outro ou o gosto do outro é necessariamente menor por algum motivo qualquer. Claro, o Lemmy sempre disse o que achava, e quando achava que algo era uma merda, ele mesmo dizia (ficou célebre o momento, no documentário mais conhecido ele, em que ele desanca um cara falando que o rock dele era uma merda, e mostra como o sujeito era um cuzão, ao falar mal do Lemmy e mesmo assim ficar do lado dele numa foto), mas ele nunca elencava razões para isso, meio que medindo o pau com o sujeito de opinião diferente. O Lemmy dizia o que dizia porque simplesmente achava isso, e não argumentava. Nem sei se era porque não tinha paciência, ou mesmo competência, ou se era complacente. Ele simplesmente se afirmava, não abafava o outro. Sua presença e suas opiniões eram o que ele dizia, pura e simplesmente.

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Nem venham me citar algum escrito do Cioran maduro - não falo daquele jovem, que publicava nos jornais em Sibiu ou Bucareste - em que ele desanca alguém, jogando-o para baixo. Ele nunca fez isso, quando começou a escrever o Cioran em que ele se tornou.

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Cioran também, assim como o Lemmy, afirmava, antes de jogar para baixo, e não dizia algo simplesmente como forma de amarfanhar a lógica do outro: ele dizia como provocação, para ver em que o diálogo poderia dar, ou o que ele poderia render. Cioran sempre foi um dialogante sem interlocutor, essa é que é a verdade, pois ele, claramente, queria poder dialogar nada menos do que com Deus. Só e simplesmente isso.

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A verdade é que basta trocar uma breve ideia com qualquer um que percebo se a pessoa, quando criadora (ou não), é do tipo funesto de jogar jovens para baixo ou de simplesmente lhe jogar coisas para que ela suba, para que ela progrida ou alcance novos patamares. Eu, de minha parte, sou sempre de caso pensado desse jeito quando encontro gente de minha idade ou próxima que tem essa mania de fechar as discussões em frases de efeito ou aparentemente inexpugnáveis.

Porque todo cara que fez um pouco de filosofia sabe que não existem frases fechadas, e que a melhor forma de provar o seu caráter ridículo é afirmar algo tão ou mais ridículo ou que se apoie especificamente em nossa opinião idiossincrática, que em geral nada claro tem a ver. Eu faço sempre isso de caso pensado, e quando colegas ou amigos falam mal de mim pelas costas é porque simplesmente não entendem minha retórica, que no fundo só prova o quanto eles já foram idiotas, ou mequetrefes, ou arrogantes na minha presença. Não poupo ninguém, é bom que todo mundo saiba bem disso (embora claro eu nunca faça questão de ter a opinião geral ou mais ampla sobre qualquer coisa).

Mas com jovens, não. Com jovens, como vários amigos meus fazem comigo (porque sou um espírito jovem, até espiritualmente, isso já foi provado), a gente só joga pequenas frases que fazem o cara pensar (ou não). Quando o adulto argumenta, em geral ele quer amassar, aplastar, como se diz em espanhol, o garoto. E acho isso de uma covardia ímpar, a não ser que o garoto dê mostras de que quer ouvir mais, de que quer saber, de que quer algo que ele mesmo não pode oferecer para poder ir além. Claro que isso é quase dar aula, mas se o clima não for esse, pode ser para o jovem algo inesquecível - como vários que eu conheço dizem e expressam de algo que eu mesmo fiz.

Por isso, vc, que já está com alguma idade, alguma digo, mais de 40, e tem tendência a meter o pau ou classificar ou mesmo julgar jovens que, pelos seus critérios, têm gostos musicais, de comportamento ou mesmo ídolos que você considera inadequados, não te peço que reconsidere. Simplesmente pense que você mesmo já foi assim, e que é nesse momento em que você vê a paixão que você pode estar perdendo a chance de melhor reencontrar você mesmo. NUM outro.

Este post foi um convite aa liberdade e uma viagem em imagens.


Contreraman

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