o olhar amor na arte após o fim da arte e da filosofia

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Contreraman

Antes:
E as coisas que continuam já se foram. E as que se foram continuam para nunca terminarem. Até um fim que nunca vem.

Depois:
Vale o que tem amor.

Beckett ou uma fixação em desaparecimento

Como tenho 48 anos, posso ver algumas coisas em perspectiva (ou numa perspectiva algo mais distante que outros), e gostaria de abordar o fenômeno Beckett no Brasil sob esse prisma.


lit_beckett-portrait-2.jpegPorque houve uma época em que muito poucos o conheciam, ao escritor e dramaturgo (embora também cineasta ou roteirista), em que bastava citá-lo para causar impressão em certas rodas, em que dizer que a gente o conheceu era algo similar a ser ungido com alguma água batismal.

Samuel Beckett, o escritor, tornou-se mais conhecido no Brasil na última década, eu diria que apenas nos últimos dois ou três anos. Isso é normal, pois ele constava em traduções relativamente raras, e nunca se sabia se cabia em ficção ou em teatro, nas prateleiras das livrarias. Desde a década de 90, porém, dado o esforço de alguns professores e estetas, Beckett saiu do limbo do quase anonimato em que se encontrava para ocupar lugar em rodas mais alentadas. Claro que os aficcionados de sempre já estavam bem acostumados com ele. Claro que os entendidos em língua inglesa e francesa até o citavam, aqui e acolá. Mas Beckett caiu mesmo na língua portuguesa, com quase toda sua obra trarduzida, só muito recentemente.

Sempre que isso acontece - um autor cair nas graças da multidão -, surgem imitadores, gente que diz conhecê-lo melhor do que ele próprio, outros que parecem querer ser beckettianos antes de mais nada, e tudo o mais. Isso é típico de sociedades ignorantes ou dominadas por mentalidades rasteiras, e não há nada o que fazer a respeito. Simplesmente isso acontece, e ponto. Mas para mim, que vim saber dele com bastante atraso, que sinto ele ter-me mostrado realidades que a mim escapavam, que conheci bastante bem um dos encenadores que melhor o conhece (Gerald Thomas), que li bastante coisa dele e sobre ele, mas sem querer bancar o maioral a respeito, essa fogueira de vaidades me irrita sobremaneira. Até porque as biografias mostram: o sujeito era calmo, não gostava de muito frufru, apreciava uma boa bebida (e se embebedava), gostava de andar sozinho e prezava certos costumes que para alguns parecem a morte: falar a verdade, por exemplo. Beckett era um cara tranquilo, que tinha como base uma sólida cultura à qual ele deu muita importância, que dominava as línguas em que se metia mas que não saía por aí fazendo acrobacias com elas, e mais, era um sujeito ágil, com físico robusto, que sua magreza traía inspirando uma certa fragilidade.

Beckett, o escritor, em si, é encarado por alguns como o último dos modernos. Outros consideram-no o representante per se do teatro do absurdo (sem muitas vezes saberem como essa denominação começou, nem se ela realmente se sustenta). Outros o vêem, de forma mais romântica, como um sujeito sensível que soube fazer com que a literatura se salvasse depois de uma guerra que quase acabou com tudo (a Segunda Guerra Mundial). Outros preferem vê-lo como um sujeito impoluto, que cedeu o dinheiro do seu Nobel sei lá para quem, que tinha uma noção muito peculiar do que era a humanidade e do que podia ser um relacionamento (ele confessou nunca ter amado sua esposa, que descansa com ele em Montparnasse), que tinha finesse acima de tudo. Cada um, diante de um sujeito que arrebentou com os limites da literatura, encara Beckett do seu jeito particular, ressaltando aquelas características que o agrada ou que acha mais importantes. Ocorre aquilo que Cioran fala com a celebridade: o sujeito não mais pertence realmente a si; meio que faz uma aparição momentânea diante daquilo que os outros dizem dele (isto não é Cioran, é o que eu digo).

O escritor e o dramaturgo Beckett rompeu diversas barreiras, é certo. Acabou com a ideia de que no teatro, ou seja, no palco, algo tivesse realmente que acontecer. Trouxe o nada à abstração da existência humana; criou ambientes inexistentes; extrapolou a tal ponto a ideia ou a concepção de personagem que muitas vezes, com ele, nos vemos diante de coisas que mal parecem dividir o mesmo mundo que nós, mas que, apesar disso, nos dizem tanta coisa! Pois Beckett rompeu de uma miríade de maneiras com a realidade, pura e simples; e nos deixou diante de quê, de uma desconsolada imagem de um ser que parece não estar aí, ou que quando está, não sabe por quê, nem para quê, nem até que ponto. Foi como se ele não tivesse sentimentos; como se nos postasse um espelho, e tirando uma camada após a outra, nos mostrasse o quão pouco havia ali, e nos deixasse desesperaçados, sem esperança mesmo. Por isso, parece não ter deixado nada para nós. E por isso, quem sabe, parece que não temos mais nada a dizer - e o repetimos, repetimos, repetimos, achando que sabemos o que falamos. Pois é.

Um excurso pessoal é que conheci o sujeito não por via da leitura. Eu fui assistir uma peça - Esperando Beckett, do Gerald - em que nem ele era o maior destaque (mas quem fazia o protagonista, a Marília Gabriela), e que vi bem de longe, quase desaparecendo nas fileiras do Sesc Consolação. Pois foi vendo essa peça que eu entendi que o que eu pensava não era loucura, em suma, que eu não estava ficando louco. Mas não parti direto para seus livros, não; levei vários anos até assistir peças dele, encenadas de forma que eu não consegui entender; e depois, vários meses até, em ensaios de amigos, apenas começar a desfrutar de sua lucidez. Claro que já li bastante dele, hoje. Mas me incomoda esse jeito endeusado como o colocam, nas prateleiras, nos debates, nas conversas de bar; porque sei, ao lê-lo, que ele não tinha nada disso; como o Cioran, amigo dele, também não tinha, e aqui fazem o mesmo com o coitado; como os grandes amigos dele também não tinham, e aqui, nós, sul-americanos bem rastaquera, somente nós os endeusamos. É muito chato. Como é chato ver pessoas fazendo isso com amigos já mais ou menos famosos, ou deturpando o que dizem, ou dizendo o que bem entendem tentando colocar-lhes coisas em suas bocas. É triste.

É a fama, dizem.

Aos poucos, porém, sinto que isso vai sendo deixado para trás. Que as pessoas - e eu - conseguimos olhar para além da névoa.

Que conseguimos enxergar o homem.


Contreraman

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