o olhar amor na arte após o fim da arte e da filosofia

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Contreraman

Antes:
E as coisas que continuam já se foram. E as que se foram continuam para nunca terminarem. Até um fim que nunca vem.

Depois:
Vale o que tem amor.

Iron Maiden, de "Somewhere in Time" até hoje: reminiscências que causam delírio

Minha paixão pelo Iron Maiden trava-se em duas fases: até Somewhere in Time e depois desse disco, que tanto revelou de algo que já era meu - mas que veio se tornar ainda mais. Já comentei aqui como se deu minha paixão até esse momento, que considero um divisor de águas na história do IM. Agora, em parte a pedidos, narro o resto de minha história com a banda.


paschendale war iron maiden.jpgEm Somewhere in Time, até minha planta sabe que o IM se dispôs a experimentar pela primeira vez com sintetizadores. Isso não afetou, na hora, a relação que eu tinha com aquele som de guitarras estranhas e estridentes. Mas a temática afetou alguma coisa minha relação com aquilo que eu ouvia. Por diversas razões, a maior parte delas biográfica.

Somewhere havia sido lançado em 1986, eu estava na faculdade há dois anos, e enfrentava os problemas típicos de calouro que não era bem aceito pela turma. Eu sempre fui agitado, mas na USP tornei-me ainda mais, e a tal ponto que virei antipático e desrespeitoso com meus colegas e professores. Eu estava com o ego inflado, e a universidade era a forma pela qual eu dizia a mim mesmo que eu valia algo, afinal, que a vida estava no papo. Quem dera fosse.

Para passar na USP, num dos cursos mais concorridos, eu havia feito um ano de cursinho. Mas, antes, eu havia feito apenas escola estadual. Não à toa eu estava orgulhoso. Ocorre que meus colegas não, eles eram de classe social mais alta, haviam feito escolas particulares, e muito poucos haviam passado por meio de cursinho (só um próximo amigo meu, que morava bem longe, e que hoje mora ainda mais longe, havia passado pelo mesmo perrengue que eu). Isso significava que minha educação estava longe de ter sido adequada, e que em termos de história - uma matéria que muito me interessava - eu tinha pouca formação e muito poucos dados.

Somewhere, já no começo do lado B (era LP, e este lado era o meu preferido), vinha com uma pegada cuja história eu não soube direito identificar (mas depois eu consegui). The Loneliness of the Long Distance Runner era inspirada numa história de um rapaz (jovem) que, podendo solucionar sua vida (e aparentemente sua autoestima) vencendo uma corrida de escola, decide no último momento parar, como que sustentando que ele corria pela liberdade que isso permitia, e não para ganhar ou vencer os outros. O romance, muito conhecido no Reino Unido, terra da Donzela, eu acabei comprando várias vezes em inglês. Mas meu inglês era bastante ruim à época, então eu fiquei com a impressão de tudo. O jeito marchante (em alta velocidade) da faixa, claro, me conquistou de cara. Mas, mais ainda, o canto do Bruce, cantando a liberdade.

Mas, se formos ser mais tradicionais, já no começo do outro lado, o A, o disco me estranhava ainda mais. Claro, a faixa-título referia-se a um mundo futuro, e as ilustrações da capa do LP remetiam a um já certo legado da banda para o mundo, com mútuas reminiscências. Mas a faixa, repleta de sintetizadores, meio que me afastava desse universo, e eu não conseguia fazer o link com Blade Runner ou outros filmes e séries de ficção que passavam naquela década. Além do que o jeito marchante desta faixa não me conquistava muito, talvez porque as guitarras não combinassem muito bem com esses novos recursos. Eu não sei. Sei apenas que a banda, naquele trecho, não me conquistava de todo. Como também não me conquistava em faixas que não eram de autoria do baixista Steve Harris, e que portanto não tinham sua pegada, como Wasted Years e Sea of Madness, e, no outro lado, Stranger in a Strange Land. Eram baladas que não confirmavam a pegada pesada que a banda sempre teve, e que portanto faziam com que eu me perdesse e fosse direto para outras músicas.

Heaven Can Wait, por exemplo. Inspirada num filme que tem o Warren Beatty como protagonista, esta música me fazia delirar com os sintetizadores, pois nela eles faziam o efeito de maior amplitude de registro da faixa, e conseguiam me conduzir ao clima do filme. Eu, que já começava a imaginar roteiros, tinha até todo um roteiro pronto (em minha mente) para ela, e que se passava em parte na avenida Dr. Arnaldo, em São Paulo, onde morávamos, e isso também acontecia com outras faixas (do outro lado). Ocorre que a ideia da morte mal tramada, de morrer antes da hora, era algo que já me abordava, e meu pai já começava a mostrar sinais da loucura que iria fazer com que infelizmente se perdesse na vida - e a família quase em conjunto com ele (eu mesmo só me recupero disso recentemente). Alexander the Great também me levava muito longe, pois com ela imaginava a travessia dos meus pais, cruzando o continente com a família (dado que por causa do desemprego tivemos que trocar o Chile pelo Brasil), e com isso arriscando muita coisa - até a própria sanidade (pois só sabe as dores de uma imigração quem a viveu).

Claro que havia outro grande motivo para eu gostar desta última faixa (há também Déjà Vu): o fato de eu entender história como algo relativo especialmente a conquista, e portanto entender que Alexandre fazia algo de super meritório em quase conquistar toda a Ásia (algo que, a história mostra, ninguém conseguiu). Muito posteriormente eu iria ser defrontado com a noção de Alexandre ter tido aulas com Aristóteles (eu iria fazer Filosofia em seguida), e com isso com ter levado parte do helenismo a outras regiões (o que acredito, tenha sido bastante razoável de fazer). Pois naquele trecho da faixa em que parecem ocorrer lutas eu não as via, eu não via lutas, mas via a ida de todo o exército a regiões longínquas, a conquista, mas não necessariamente a guerra. É interessante notar isso agora. E isso se dava porque, nesses meus vídeos internos, eu via meu pai carregando a trupe (nós) por entre o continente (embora o visse também saindo do Nordeste rumo ao Sudeste, e até hoje não sei por quê). Já Déjà Vu, que foi feita pelo Steve com o Dave Murray, tem outra pegada, bastante mais centrada na guitarra, e a faixa é ainda hoje uma de minhas preferidas de toda a história do IM.

Mas antes de passar ao Seventh, é preciso entender em que medida o Somewhere foi uma estranheza para mim. Pois, para fazer vestibular, eu tive que deixar de ir ao Rock in Rio! Ocorre que as provas para um dos vestibulares que fiz (foram dois, e passei em ambos) calhou de ser no mesmo dia do Rock in Rio. E olhem que quase perdi a prova, por ficar dormindo até tarde (saí com uma banana na barriga, apenas, mas isso não me atrapalhou). Ou seja, o show do IM no Rock In Rio era da turnê World Slavery Tour, e eu nem pude (na época) vê-lo na tv direito, inclusive. Eu havia desistido do IM por causa de um vestibular (num curso que não cursei, porque passando na USP preferi esse outro curso), e ficado com o sabor amargo da decisão na boca (até hoje não sei se fiz o que deveria). Seja como for, Somewhere veio logo em seguida, e com essas novidades que contei - e algumas das quais não consegui digerir direito, inclusive.

Foram longos três anos até chegarmos ao Seventh Son of a Seventh Son. Longos anos em que eu me dedicava à faculdade, sempre metido em estudos sem conta, mas também em trabalhos, pois eu sempre senti que para aprender, ao menos naquele ramo (Jornalismo), era preciso antes de mais nada trabalhar. Nessa época, eu vi muitos filmes, tantos quanto pude, e me meti em diversas matérias para o jornal da faculdade, e tentei estudar. Mas, estudar mesmo, pouco, dada a fraqueza da faculdade, e a inconsistência (que eu deveria ter percebido) das bibliografias fornecidas (mesmo na pós-graduação, que cursei em seguida). Meus gostos iriam, nessa época, cair no blues, em parte, e por outro lado iria conhecer a música erudita, que passou a alimentar minhas referências acima de quaisquer outras (eu ouvia fitas K-7 na fonoteca da faculdade, e copiava algumas, quando podia). O Iron iria ficar na saudade, nesses três anos, até a porrada que foi o Seventh, em que havia também o uso de sintetizadores (menos), mas havia a questão ainda mais primordial do tema - das faixas unidas por um tema em comum, qual seja, o livro de um autor de ficção científica. Não era a questão do tema, no caso, o que mais me pegava, mas o fato de tudo estar, ao mesmo tempo que separado em faixas, milimetricamente costurado no LP, que aparentava uma coesão inédita até então. Isso, claro, iria fazer com que eu me desacostumasse da ideia de faixas isoladas, e talvez fazer com que as produções posteriores do IM não me animassem tanto. Fui mal-acostumado pela altíssima qualidade do Seventh Son, em suma.

Em Seventh, eu via tudo o que queria. Desde uma pauleira sem fim, como em Moonchild, passando por uma balada que a complementava (Infinite Dreams), mas que terminava numa pegada marchante rápida que me conquista até hoje, uma outra que dizia algo sobre outros mundos ou outras visões de nossos mundos (Can I Play with Madness), e - ainda nesse mesmo lado - uma outra marcha rápida em que eu podia ambientar o mal que fazia aos outros (e que permanecia) (em The Evil that Men Do). Ou seja, tudo coeso, tudo perfeito, tudo como eu poderia querer. E no outro lado? O mesmo, diferente e igual. Uma longa faixa que terminava em solos que variavam de guitarra, e que parecia levar a mundos infindos e desconhecidos (Seventh Son), uma balada que remetia a profecias (outro tema sempre muito caro a todos os de minha geração) (em The Prophecy), uma balada rápida, meio marchante, que remetia aos vetores das profecias (The Clairvoyant), aquele que vê claramente, e terminando com uma pegada rápida e inteiramente desencanada quanto ao futuro de alguém que se sente condenado à perdição (Only the Good Die Young). O que mais eu poderia querer? Nada, não é mesmo? Pois então. Talvez tenha sido justamente esse o motivo para não gostar tanto do que veio (que só comprei em K-7, por questão de dinheiro, parece), e por me afastar aos poucos do universo da banda. Mas, mesmo? Não, não mesmo. Eu iria voltar várias vezes, em vários momentos de minha vida e carreira, e saber destrinchar, disso que me era então oferecido, o que eu mais poderia querer: a integridade do IM de sempre.

Quando comprei No Prayer for the Dying, minhas influências eram numerosas. Desde o cinema, passando pela tv, ocupando o rádio e os jornais, até músicas de outros gêneros, como o jazz e a clássica (erudita). E eu, que sempre fui um cabeção, um cdf mesmo, daqueles que disputava pela melhor nota até o fim, não podia simplesmente acreditar que o IM tivesse regredido para melodias aparentemente tão fáceis de prever, para influências já dadas (a guerra, em Tailgunner), ou para um certo romantismo na forma de ver o mundo quando ouvi a péssima Mother Russia. Não que a fita K-7 tivesse sido assim tão ruim. Não era isso. Era que era muito menos em relação àquilo que já havia sido oferecido, e muito menos inclusive no fato de que grande parte das faixas não era do Steve mais, e portanto eram mais lentas, menos agressivas, menos IM. Ao menos foi isso que eu percebi, notando também que a ausência de um assunto único deixava bastante a dever, pois nessa época eu queria mesmo mais era aprender mais. E as referências do IM já não bastavam para mim. Claro, eu não tinha a internet nem tinha tanto tempo para me dedicar a gostar da banda - estava começando a trabalhar, e a enfrentar perrengues sem fim nos lugares que me aceitavam -, mas com o tempo fui então deixando de considerar o IM como o centro de minhas referências de vida.

Vejo hoje as faixas da fita e realmente noto o que fez com que eu aos poucos me afastasse - mas não de todo. Notava eu, também, que a banda fazia pesquisas para entender o seu público, e que por causa disso meio que apostava num outro tipo de consumidor, que não era bem eu mesmo. Claro, foi opção da banda fazer isso, não há nada de ruim em qualquer tipo de escolha. Ela dá em ganhos e perdas, simples. Mas o apelo a chamar a filha (Bring your Daughter), ou a melodias que deixavam a dever em relação a uma pegada mais onírica, mais metafísica, mais histórica, mais avançada, não me agradou, também. Mas sei que várias daquelas faixas são hits da banda até hoje. Por isso, não posso dizer que eles tenham necessariamente errado. Optaram, apenas isso.

Fear of the Dark apenas corroborou o que eu sentia. E, com hits conseguindo novos públicos, fui percebendo claramente que eu não era mais tão bem-vindo assim. Houve exceções, é claro, como Be Quick or Be Dead, que tinha uma pegada pesada e que dizia respeito a mundos que eu vivia (o dos executivos era um deles), mas de forma geral eu percebia que os fãs também não tinham muito a ver comigo. Eram fãs mais jovens, de alguma forma mais experimentados em certos tipos de vida (como a amorosa, embora eu estivesse bastante ativo sexualmente), e - confesso - o Janick não me convencia o suficiente para virar fã dele. Em suma, o IM parecia em crise, e eu com ele. Mas que crise, vocês dirão. Em plena era grunge ele lotava estádios, vinha ao Brasil, fazia e acontecia. Seja como for.

Influenciado por gêneros diversos, eu também não me deixava levar pela leva de heavy daqueles anos. Havia aqueles barra-pesada, outros que apostavam em linguagens e mensagems mais fortes, mais urbanas, mais suburbanas. Mas eles não me pareciam legais. O som valvulado dos 70s já havia ido embora (e eu ouvira IM pela primeira vez em sons assim), a distorção não como mensagem mas como impostação tornava-se regra; já as baladas do rock comercial podiam até me fazer assobiar aqui e acolá, mas não me faziam curtir o rock como antes, e eu ainda não passara pela iniciação do rock clássico e do rock efetivo dos anos 70, aquele rock mais tosco, menos heavy, para poder contextualizar as contribuições de uns e de outros. O IM reinava impávido no meu reinado de heavy metal, sendo aqui e acolá ameaçado por alguma banda da época, mas realmente em muito pouco. Porque o IM trazia assuntos e preocupações que, se bem não eram as daquelas bandas frescas dos 70, que viraram cult, também não eram tão chinfrins como as das bandas que pareciam não gostar de história (o Bruce é formado em história), que não pareciam curtir os seriados ou filmes da tv (como o Steve tanto transparecia), que não pareciam se ocupar de outras civilizações, nem que seja de forma alegórica, e que não transpareciam gostar realmente de literatura, a ponto de darem real atenção às suas letras, ao potencial de educação que poderiam proporcionar, e proporcionavam, sabedores muito bem disso.

Houve um momento em que o grunge bateu em mim. Mas não enquanto mensagem, embora eu tenha lido a biografia do Crosso do Kurt, mas enquanto postura molambenta, descuidada, e descompromissada em relação aos assuntos mais corriqueiros, assim como extremamente atenta à questão do preconceito e por aí vai. Ocorre que teve um evento relacionado ao IM a esse respeito que me bateu. Eu soube, por uma ex-colega de colegial, que o Bruce havia dito, num show, que o Brazil não era país que prestasse e coisa que o valha. Fiquei chateado e pude conferir em um show, em que ele realmente se meteu a fazer esse tipo de comentário. Outra coisa, contrária, porém, foi que, quando a IM ainda não era a potência que é, o Bruce se meteu a ir à 25 de março, nas galerias do rock, e, tratado como Deus, pareceu voltar atrás em sua arrogância, e voltou mesmo. Tanto que falou superbem do local, e ficou com uma impressão tão boa do país que mudou a cabeça. Conto isso porque esses dois episódios afetaram um pouco a imagem que eu tinha da banda, que era uma imagem impoluta, maioral mesmo. Pois bem.

Hoje a época Blaze Bayley não é, por muitos, nem pelo verbete da wikipedia, considerado com muitos bons tons por todos. Ocorre que, quando Bruce saiu e entrou Blaze, eu notei em The Factor X, que os temas iriam, ao menos por um instante, se tornar mais sombrios, mais relevantes, mais fortes. Hoje sabemos que o Steve tava passando por poucas e boas, mas acontece que eu também. Eu estava sombrio. Meu pai ainda não havia falecido, em circunstâncias atrozes, eu passava o tempo todo tentando sobreviver fazendo aquilo de que não gostava - traduções de livros de gente que eu não prezava -, o mercado de jornalismo estava essa merda que sempre ficou na década de 90, então eu não tinha muito boa energia para coisas boas. E o CD (agora CD) caiu bem. E caiu bem também por abordar uma questão - a religião, em The Sign of the Cross - que passava a se tornar importante para mim. Eu notava que algo ou alguém no IM estava se convertendo ou passando por provações, e os cantos gregorianos do começo da faixa me animavam em termos de inspiração. Era algo que lembrava O Nome da Rosa, o romance do pedófilo Umberto Eco, e algo também que me remetia às minhas aulas de filosofia medieval, com professores da USP (eu estava sofrendo com a Filosofia uspiana, como ainda sofro, até certo ponto). Pois essa pegada mais séria, mais soturna, com o tom de voz mais grave do Blaze, chegou até a me cativar, se querem saber. Isso sem contar The Man on the Edge, uma porrada louca que parecia o IM de priscas eras, e outras faixas que eu não aprendi a degustar tão bem assim. Eu começava a me envolver com minha futura ex-esposa, e isso iria me levar a outro tipo de vida, do qual eu iria ser forçado a desistir uns 13 anos depois. Enquanto isso, a vida andava e eu me tornava repórter de rua, para minha total satisfação - e quase entrada num clima de pura loucura (não é fácil, acreditem).

Virtual XI passou em branco, eu nem ouvi, tão atarefado que estava, e confuso com tantas influências e mudanças que me abordavam. E me lembro de ter ouvido Breve New World numa livraria, para ver se comprava. Mas não me animei. Por quê? Creio que porque meus panoramas haviam se descortinado demais, eu havia ouvido muita coisa, além de rock, para ficar apenas nele, eu havia me acostumado a identificar certas melodias facilmente e a me entediar também facilmente. Em suma, eu havia escapado do rock, e do heavy metal havia desembarcado, para falar a verdade. Praticamente nada do que rolou naquela época me afetou. Até Dance of Death, que ouvi, já casado, com muita alegria e satisfação. Não era mais o IM de sempre, mas era alguém que eu apreciava, realmente, com assuntos que me pegavam, e com abordagens que realmente me conquistavam. Claro que minha esposa odiava, mas fazer o quê. Eu sugiro não casar com quem não goste de IM (se você realmente gostar).

Lembro-me de quando comprei Dance of Death. O visual, com aquelas figuras retiradas de teatro, ao menos aparentemente, me mostrava que havia um cuidado maior com a mensagem (se é que havia) do CD como um todo. A pegada da primeira faixa, Wildest Dreams, se apostava no IM de sempre, por um lado, por outro não apostava numa obviedade rasteira. Havia um ar de novos ares, em suma, como se eu pudesse acreditar nisso que havia ouvido e comprado. E realmente, era o que acontecia. Por outro lado, os motivos ligados a guerras eram bastante fortes, ligados a batalhas anteriores à Idade Média e também à Primeira Guerra Mundial. A questão das guerras era importante para mim por muitos motivos, além do fato de ter visto (pessoalmente) um golpe de Estado, em 1973, no Chile. Meu pai era um cara muito ensimesmado (eu achava que era fechado, mas hoje sei que ele era mais bem tímido) cujo orgulho ligava-se às suas origens escocesas (ele tinha sobrenome Campbell) e ao papel da Inglaterra durante a II Guerra Mundial. Eu me lembro que ele lia, embora não sem parar, as memórias de Churchill, e costumava citá-lo como exemplo de homem de Estado (e eu concordo com ele). Vocês devem se lembrar que Aces High tratava da primeira batalha inteiramente aérea da história, ocorrida entre os alemães e os ingleses pela defesa/conquista do Reino Unido. Pois bem, isso eu sentia que de alguma forma me aproximava dele, do meu pai, pensando em retrospecto. E agora, as tramas ligadas à Primeira Guerra Mundial? Elas me aproximam do destino de todo aquele que entra numa guerra de desgaste, que foi aquilo em que ela consistiu. O túmulo. O esquecimento. A dor. O grito. Tudo aquilo que está em 1916, o clássico do Lemmy, do Motörhead, mas que, enquanto batalha, está em Paschendale. Pois então. Isso me tirava do sério, e ainda me tira. Eu - tenho que confessar - nunca consigo deixar de chorar quando ouço essas faixas, ou faixas similares, pois elas me aproximam do ser humano, e da dor dele, sabendo que guerras são, no fundo, muitas vezes inevitáveis. Batalhas, então, são carnificinas com data certa para começarem e sem data para acabarem (conosco ou sem a gente).

Note-se que eu havia feito um curso bastante interessante sobre estratégia, na USP, no antigo NAIPPE, do Braz Araújo (in memoriam), e que eu estava e ainda estou familiarizado com muito do que diz respeito a guerras, batalhas, Segunda Guerra, Primeira Guerra, e outras, assim como golpes de Estado. Isso só faz crescer em mim o foco nesse tipo de tema, e na forma, íntegra e integral, com que o IM aborda esses assuntos, embora meio de longe, como historiadores civis, mas também como admiradores do assunto. Montsegur, claro, eu conhecia menos, mas mais importante, o IM me motiva a conhecer. Como me motivou a conhecer história, a procurar livros, a consumi-los, e a tê-los (minha biblioteca é bastante volumosa). Claro que não apenas livros desse tipo. Mas livros e mais livros tentando entender. E sei que tem muita coisa que eles comentam que eu ainda não entendo, naquele CD, em outros, e em outros que ainda virão (mesmo que eles não façam mais tours ao redor do mundo no Boeing 747 que o Bruce pilota).

Não à toa que também consumi como um alucionado o chamado Amolad (A Matter of Life and Death), de 2006. A guerra era novamente a capa, e novamente houve todo um cuidado em não repisar no óbvio, apostando em diversos temas, mas sempre costurando-os com cuidado. O que me capturou em especial nesse CD foram duas faixas, aquela relativa ao dia-D (The Longest Day) e a The Reincarnation of Benjamin Breeg. A primeira, por motivos óbvios, mas que chegaram até mim hoje com uma emoção quase incontrolável ao ver um vídeo no youtube com trechos de um filme e a faixa de fundo. Pois Hollywood dialoga conosco, caramba; e o dia-D, embora não tenha tido a importância que Stalingrado para a Segunda Guerra, expressa a dor que é chegar num lugar para virar carne fresca. É fantástico o feeling do pessoal do IM ao capturarem o drama do assunto, que me tira do sério tão logo penso nele. É assim e foi assim que o IM não morreu e não morre na minha vida (agora ouço o The Book of Souls, sabendo que irei recair de novo nessa paixão). Já o caso do Benjamin tem outro motivo, e outra pegada. Eu comecei lendo praticamente pelas mãos do Edgar Allan Poe, com sua pegada soturna e mórbida que ainda hoje não esqueço. Pois bem, o caso de Breeg vai nessa pegada, e mais, leva-nos a pensar no destino solitário de cada um de nós, especialmente se em casos difíceis, de pessoas que não encontram lugar, que até mesmo quando morrem não se sentem em lugar algum. É isso o que a faixa me dá, e me faz refletir, e pensar, e curtir, sem parar.

Hoje sou um cara de 48 anos, pessoal. Separado, vivendo sozinho, às voltas com minhas paixões, que envolvem mulheres também. Mas especialmente vivendo às voltas com aquilo que me motiva... viver e morrer.

Gostaria muito de ler histórias de vocês. Saibam que faço isto de caso pensado, tentando motivar, para no futuro, quem sabe, se Deus quiser - the sign of the cross -, publicar um livro conhecendo-os pessoalmente.

Up the Irons!


Contreraman

Antes: E as coisas que continuam já se foram. E as que se foram continuam para nunca terminarem. Até um fim que nunca vem. Depois: Vale o que tem amor..
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