o olhar amor na arte após o fim da arte e da filosofia

Veja ao seu redor - a saída existe e está em tudo e em todos nós

Contreraman

Antes:
E as coisas que continuam já se foram. E as que se foram continuam para nunca terminarem. Até um fim que nunca vem.

Depois:
Vale o que tem amor.

Rumo a uma pequena viagem intimista pelas telas de Lucian Freud

Vendo um pequeno trecho de filme no facebook, desse tipo de filme, digamos, construtivo, com mensagem, comecei a refletir sobre confiança e mudança. E dessas parcas reflexões surgiram outras sobre arte e pintura, mais especialmente as pinturas de Lucian Freud, sua vida e sua obra, e A vida e A obra.


6899331939_12a21c5fa5_b.jpgA vida

Lucian Freud, neto de Sigmund Freud, o eminente psicólogo, foi um dos maiores pintores figurativistas do século XX. Junto com Francis Bacon, o pintor, de quem era amigo, Freud reabilitou a pintura figurativa e até mesmo em grande parte a pintura com seus perfis de amigos e amigas, assim como conhecidos, que ele retratava crua e simplesmente, sem rodeios, como se estivesse fazendo uma fotografia do interior do retratado.

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Lucian, que até o final da vida, foi um self-mad man, assim como um sujeito agitado e violento, ousou até o final de sua vida nessa via de conhecimento e de vida, sem recuar diante de amantes, mulheres, filhos e amigos e amigas de toda ordem, transitando entre o submundo londrino e os lugares mais chiques daquelas paragens. Pois, muito embora tivesse amigos em altas esferas, não hesitava em pedir a ajuda de meliantes conhecidos para defender os próprios interesses perante gente que o ameaçasse.

A obra

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Embora não conheça profundamente a obra de Lucian, podemos resumi-la aos seus centenas de retratos e pinturas de corpo inteiro que encontramos, em exemplos, às centenas no Google. Não me lembro se Lucian tentou outras linguagens (e não tenho conhecimento, por meio de biografias, desse tipo de detalhe). Sei apenas que ele logo se "encontrou" nas pinturas de retratos e de corpos inteiros, e que nunca abandonou a figura (não há qualquer vestígio de abstração, nem a menor imaginada, nos livros que tenho sobre ele).

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Nas suas pinturas (retratos e corpos), as figuras são quase sempre pessoas bem conhecidas por ele. Ora amantes, amigas, amigos, esposas, ex-esposas, filhos, filhas, quase todas as pessoas retratadas são do círculo de Lucian, mantendo ou não contato frequente com ele. Ele só escolhia modelos assim (há exceções, como atores, mas sobre eles não posso falar). Nessas pinturas, as figuras costumam estar de frente, não fazem nada em especial, olham diretamente para o pintor ou descansam e olham para o vazio ou dormem, espalham-se nos sofás ou leitos em que descansam (quando descansam), nus, e aparentam, mesmo quando fortes e esbeltos, uma grande fragilidade, ora física, ora psicológica.

Vida

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Todos nós, quando caímos na real, nos damos conta de nossa fragilidade, ora física, ora psicológica. Ora louvamos deuses que não conhecemos ou que teimamos em desrespeitar, ora nos viramos na vida, mas sempre nos deparamos diante de uma fragilidade que se supõe crescente. Aos poucos, quando envelhecemos, nos tornamos mais cuidadosos, tanto no trato quanto ao lidar com a vida (em termos de finanças ou mesmo fisicamente), e percebemos como as coisas não duram, e como nós mesmos iremos durar pouco. E tememos, muitas vezes, a morte e a solidão.

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As pinturas de Lucian parecem estar o tempo todo defrontadas com essa ou essas verdades. Elas sempre nos parecem pegas um pouco de surpresa nessas convicções, que até um animal as têm, e sempre olhando meio que de lado, como que surpreendidas com sua insignificância diante dos olhos do pintor (e do espectador). Poucas são as que aparentam algo que perdure mais, algum valor para além delas mesmas, delas enquanto seres mortais e pequenos, alguma vontade subjacente que lhes faça valer algo no mundo para além de si mesmas. Elas em geral estão restritas a si, imersas em si, restritas a si.

Emoção

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Nós também percebemos com o tempo que, passam os dias e as noites, a gente ri menos, experimenta menos, arrisca menos, quer menos, deseja menos. Somos corpos, nós sabemos, e como corpos estamos restritos a leis de corpos que nos abrangem e que, cedo ou tarde, irão nos abarcar e nos dominar. Percebemos a ausência de energia nas pessoas mais velhas, invejamos o excesso dela em corpos mais jovens, lamentamos que nossas carnes se tornem com o tempo mais flácidas, invejamos aquelas pessoas massudas, com carnes duras e rijas, e imaginamos como elas fazem sexo, de forma bem mais agitada do que nós.

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Nas pinturas de Lucian, por mais fortes e potentes que as figuras retratadas sejam ou pareçam ser, elas aparentam fragilidade, degenerescência, incompletude. É como se nas pinturas a gente não se deixasse mais afetar por seus físicos atraentes e as víssemos, em descanso, como corpos estéreis, que nada podem fazer diante de suas próprias imagens e destinos, restritos a um futuro que irá lhes mostrar o que eles já parecem entrever: o vazio, a desesperança, a tristeza, a ausência de emoção, rumo a uma quietude que, nas pinturas, eles já expressam e parecem limitá-los ao silêncio.

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Poucas das figuras retratadas por Lucian sequer esboçam sorrisos, e muitas parecem querer ficar assim pelo resto de suas vidas.

Crenças

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Com o passar do tempo, e nosso esclarecimento, nós geralmente temos duas opções: ou nos tornamos incrédulos, não acreditando mais em saídas, em experimentos, em experiências e mesmo em mudanças, ou nos tornamos crédulos, abraçando uma crença qualquer, uma religião ou práticas que nos conduzem a tipos de pensamento, e com isso relutamos em acreditar na degenerescência e no final da vida, na morte, no final da Terra, da civilização, ou do Universo. Normalmente não nos restam muitas saídas. Ora não acreditamos, e ficamos presos aos instantes, que se mostram a cada dia mais vagos, ou acreditamos, ou tendemos a acreditar, e nos tornamos fiéis ou místicos.

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As pessoas retratadas por Lucian em suas pinturas não parecem acreditar em nada, em geral. Elas aparecem, nas pinturas, meio que abandonadas a si mesmas, e nessas posturas parecem exalar desânimo e descrença. É como se elas nos aparecessem mais como corpos do que como pessoas, indivíduos, com vontades, alegrias, tristezas, histórias de superação, e tudo o mais. É como se nas pinturas Lucian quisesse retratá-las sob um viés de resignação bastante crua e chã, bastante singular e desprezível, bastante irrisória. Como se ele quisesse fazer com que elas exalassem o que ele mesmo parece ver na vida: sua insuficiência, sua degenerescência, a ausência de sentido, a incapacidade de crer, de acreditar, de se fiar no outro, no mundo ou na vida.

Geografia

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Lucian Freud era neto de um alemão e foi-se abrigar na Inglaterra para passar a vida e os dias. Lucian frequentou muitas festas na juventude, e nessas festas pôde conferir a ausência de rumo que muitos de seus companheiros e companheiras nutriam pela vida. Eles, quase todos eles e elas, eram fruto de uma civilização (a europeia) que quase se autodestruiu por delírios de grandeza e esforços de autosuficiência. Os europeus levaram quase 500 anos para descobrirem que precisariam conviver uns com os outros, mas ainda hoje (escrevo no final de junho de 2016) nutrem problemas nesse sentido.

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Mas Lucian quis tornar sua obra, suas pinturas, universal. E ele, de alguma forma, até conseguiu seu intento. Conseguiu, com Bacon, reabilitar o figurativismo. Conseguiu sucesso e altos valores para suas pinturas no mercado mundial. Conseguiu reconhecimento e uma certa paz, ao se tornar um pintor reconhecido e uma personalidade de peso no ambiente artístico. Mas Lucian também não conseguiu seu intento. Isso porque, ao retratar o ser humano em essas facetas determinadas, ele não o retrata em sua integridade (falo enquanto ser integral, não enquanto valor moral de integridade). Porque Lucian, ao ser fruto do seu lugar e do seu tempo, só pegou uma faceta do ser humano.

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Outra é aquela que deve nascer agora mesmo, mesmo num ambiente de guerra. Um ser que visa viver tudo de novo. E sofrer também. Mas, acima de tudo, viver. Porque viver é também sofrer. Mas viver não é apenas sofrer, ou nada ser.

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