o olhar amor na arte após o fim da arte e da filosofia

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E as coisas que continuam já se foram. E as que se foram continuam para nunca terminarem. Até um fim que nunca vem.

Depois:
Vale o que tem amor.

A Descida da Cruz (1435), por Rogier van der Weyden: um brilho que não se apaga

A tela está no Museo do Prado, após ter sido desenvolvida - e entregue - para um local nos Países Baixos. Imagino como deve ser absurdo vê-la em "carne e osso". Se só com admirá-la, assim, por trás de um micro, é comovente, imaginemos pessoalmente.


1280px-Weyden_Deposition.jpgQuando começamos a nos fixar em telas que representam episódios da via crúcis (e após a mesma), nossa sensibilidade passa a ficar mais aguçada e ao mesmo tempo mais diligente em procurar obras que aparentemente fogem dos temas que mais nos tocam. É o que acontece com "A Descida da Cruz", de van der Weyden, painel que representa a tarefa de retirada do corpo de Cristo recém-falecido da Cruz. É uma tela que não combina muito com tudo o que tenho visto até agora, e comentado aqui, e que diz respeito mais ao sofrimento de Cristo enquanto homem crucificado ou à sua demonstração, perante os fiéis, causando medo ou até mesmo estupor com realismo à la Masaccio (conforme o artigo que publiquei há alguns dias).

Neste caso, a encomenda fazia com que a cena da deposição do corpo de Cristo após a crucificação ficasse restrita a uma espécie de retáculo sob forma de cruz quase integral e invertida, em que o realismo da cena não deveria corresponder àquilo que de mais atraente a obra deveria oferecer. Pelo menos não um realismo acachapante, que nos fizesse horrorizar com um corpo absurdamente maltratado pela tortura e massacrado pelas condições de sua morte. Não, aqui a intenção é bem outra. Há comoção, sim, há um certo estupor com a beleza da obra, também, mas o realismo que aqui é obedecido é de outra monta, de outra ordem, não pior nem melhor. Mas diferente.

Restrinjo-me aqui a comentar a recepção possível à obra comentada, ao invés de entrar em méritos de ordem artística, sobre os quais não tenho, ao menos ainda, uma menor competência. Pois, ao me restringir à recepção, eu tento entrar no mérito daquilo a que a obra correspondeu na sua época para os fiéis e no seu efeito, que perdura até hoje, no sentido de divulgar o credo e parte da história dele.

O que vemos

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Vemos aqui um corpo, não em escala de 1:1, lânguido de um homem jovem, cuja pele parece-nos macia e bem cuidada e cujos ferimentos parecem, de forma alguma, escapar daquilo que seja próprio à visão de qualquer pessoa mais delicada. Vemos seu movimento lânguido ser carregado, mas sem muita impressão de peso, por personagens incrivelmente bem vestidos, em trajes de altissimo nível, mesmo quando trajes humildes, em que as próprias pregas parecem se destacar da obra e nos causar um efeito físico determinante. Pois aqui a reprodução daquilo que idealmente seria um corpo morto, desfalecido, carregado por figuras com caráter específico, parece escapar até mesmo do melhor que o real poderia ocupar em nossas mentes. Pois é como se víssemos a idealidade de um real, ao invés de o real por si só. Nosso olhar fica absorto nos detalhes em todos os termos da cena. Mas algo nos diz que isso foi feito para que o víssemos, não para que nos identificássemos com as figuras. Pois olhamos de longe, pretendendo observar a paisagem, a obra em si, mas algo nos impele a olhar de perto, mas agora o detalhe, aquilo que pode fazer com que nos maravilhemos com o que vemos. Mas ocorrem outras impressões.

O sentimento e a distância

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O corpo, lânguido do jeito que se apresenta, impele-nos também a sentirmos compaixão dele. Pois ele nos parece tão sensível, tão suave, tão frágil, que não conseguimos deixar de nos maravilhar com o sentimento de compaixão que nos traz. Porém, vemos que ele parece meio que pairar por cima da tela, e que a reação das pessoas presentes parece posada para representar isso que aparece: ora uma incapacidade de prestar ajuda, ora a compreensão pela dor da pessoa alheia, ora o choro incontido de alguém que percebe o drama que se desenrola, ora o lamento suave de quem participa enquanto personalidade, enquanto homem de fé, e o lamento simples de uma pessoa comum, que entende o drama que se passa. Tudo isso é muito bem declamado, em tinta, como se fosse mesmo uma espécie de discurso, embora algo nos faça sentir um pouco mal - que é o tom, quase tão empostado quanto imaterial. Os lamentos - tirando os da freira que chora - parecem muito comedidos. Algo parece que falta. Que é a própria dor. Pois aqui não é a dor que vemos, mas sua representação. Não conseguimos chorar com essas dores. Conseguimos comover-nos com a cena, isto sim.

Cristo

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Concentremo-nos nos personagens. O Jesus aqui apresentado é esguio, com a barba não feita, mas limpo, imaculadamente limpo, com praticamente todo o corpo à mostra e em que podemos divisar sua pele e seus mamilos em toda sua perfeição. É um corpo que aparenta santidade, e que está com os olhos fechados e uma expressão de sofrimento enlutado, como se tivesse sido morto indevidamente. Vemos, em suas mãos e em seus pés, alguns ferimentos, mas bastante limpos, como se tivessem sido limpos, ou como se fossem para estar limpos, também imaculados. Porque seus machucados são também idealizados, mostrados em sua integridade enquanto ideais. Também a coroa de espinhos que lhe cabe está perfeitamente desenhada, e os traços de sangue são pontuais, nada que nos impeça de ver claramente o seu rosto angelical.

Maria

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Mas Maria, logo abaixo, mantém uma postura similar à de Cristo, voltada para o mesmo lado, e também com os olhos fechados. Ela permanece quase deitada, em seu esforço para suportar a dor de ter visto seu filho, homem, morto, e Jesus Cristo, morto, na Cruz, e numa posição de quase cair ao chão em seu sofrimento. Notamos como seu rosto expressa um enlutamento elegante, em que o sofrimento é interno, e sua dor também restrita a uma subjetividade à qual não temos acesso. É como se o seu sofrimento fosse tamanho, e sua dimensão, enquanto figura mitológica também tamanho, que soubéssemos jamais podermos ter acesso a ele. Sua roupa está imaculada num azul brilhante, e ela jaz, sendo segura por uma outra figura menor, mas não sentimos direito o peso do seu corpo. Pois sentimos a cena como algo mais representada do que real, sendo que São João também tenta segurá-la, mas não a alcança, mantendo uma expressão de enlutamento e dor contidas.

Outros personagens em cena

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Claro que a cena tem que assumir certa verossimilhança. E ela é expressa na escada, que um rapaz teria usado para descer o corpo de Jesus. Essa escada é colocada atrás do corpo, atrás da cruz, com o pequeno rapaz (uma das nove figuras da cena inteira) descendo dela. Claro, não concebemos como, num espaço tão exíguo, o corpo tenha sido realmente trasladado pela cena, mas imaginamos a descida, e o título da tela é então justificado.

Outros personagens que ladeiam o corpo são citados em artigos na web, mas, sem conhecer as suas histórias e sem entrar em detalhes que não me cabem, noto porém alguns aspectos específicos que aparecem em suas figuras. Num primeiro relance, notamos como a cena parece luxuosa, com roupas luxuosas ou colocadas de forma a aparentarem uma limpeza e uma clareza absurdas. As pregas da roupa do homem que coloca as mãos nas pernas de Jesus é ricamente trabalhada, por exemplo, assim como a roupa do religioso que segura o corpo do Cristo por trás, assim como os detalhes da roupa da cortesão que, aos pés do Cristo, lamenta, com as mãos crispadas de desespero, a morte e descida do corpo da Cruz. Todos são detalhes, porém, que não nos afasta da pintura como se ela não dissesse respeito a nós, e tivesse mais a ver com pessoas de classes sociais mais altas. Não, a gente se motiva a olhar tudo mais de perto, a ver como a cena é de bom gosto, e a notarmos que esse espetáculo nos convida a, com isso, com esse bom gosto, apreciarmos ainda mais nossos sentimentos pela cena.

Detalhes de expressão

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Seria quase impossível esgotar todo o repertório de emoções desencontradas que a emoção que vemos na tela de van der Weyden suscita em nós. Poderíamos nos restringir ao caráter angelical do Cristo, ou ao solene sofrimento de Maria, ou à tentativa desencontrada de acolhê-la por parte de São João. Todas essas expressões, por serem muito realistas, mas, mais que isso, por representarem um realismo que se supõe ser muito complexo e profundo, parecem exigir cada vez mais de nós, se quisermos entendê-las ou se quisermos conviver com elas em nós. Gostaria apenas, encerrando este artigo, me concentrar na expressão de sofrimento da freira, que está postada atrás de São João, chorando.

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A gente consegue ver no choro dessa freira, que contém as lágrimas com um lenço, embora as lágrimas caiam pelo lado de seu olho, uma expressão de detimento e de contenção. Por algum motivo, que não cabe aqui supor, ela sente que não pode chorar desbragadamente, que deve conter o choro, mas não consegue. Ela esconde o rosto com o lenço, e tenta, sem sucesso, estancar as lágrimas. Está atrás de São João, por isso nem mesmo consegue ver claramente a Jesus. Mas ela chora, e não consegue conter as lágrimas. Poderia estar gritando de pavor ou de lamento, mas não está. Está contida, com a boca fechada, embora crispada, tentando fazer algo que não consegue. Ela meio que nos dá uma consolação, a nós, que não conseguimos chorar. Ela chora por nós, e expressa uma sensação incontida nessa imagem que parece nos convidar a nos contermos. Ela parece chorar por nós. Comovente.

Final

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A tela está no Museo do Prado, após ter sido desenvolvida - e entregue - para um local nos Países Baixos. Imagino como deve ser absurdo vê-la em "carne e osso". Se só com admirá-la, assim, por trás de um micro, é comovente, imaginemos pessoalmente.

Espero que tenham apreciado.


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