o olhar amor na arte após o fim da arte e da filosofia

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E as coisas que continuam já se foram. E as que se foram continuam para nunca terminarem. Até um fim que nunca vem.

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Vale o que tem amor.

Em defesa de "A Paixão de Cristo", de Mel Gibson (2004)

O filme "A Paixão de Cristo", de Mel Gibson (2004), despertou, quando de sua estreia, diversas polêmicas, assim como apoios e censuras. Falou-se muito que ele era exagerado demais, em sua visão do martírio de Jesus Cristo, que ele falava mal demais dos judeus, que ele não era correto historicamente falando, e muito mais. Como toda série de polêmicas, contudo, essa também esmoreceu, e hoje ele pode ser visto, em versão dublada, no YouTube, na íntegra, mas não parece muito acessado.


Paixão de Cristo.jpgÉ como se o fruto do ator hollywoodiano tivesse se tornado quase um fruto mal-concebido por uma mente aficcionada a excessos, em sua leitura da via crúcis. Mas em minhas andanças de reconvertido, e tendo passado por outros eventos do tipo anteriormente, assisti o filme na íntegra e considero que as críticas parecem exageradas - na verdade, parecem incompreensões daquilo que o filme realmente é: um convite à conversão. Como o eram as pinturas, outrora, ou o são os diversos esforços da Igreja e dos fiéis nesse sentido. Tentarei mostrar por que essas leituras críticas exageradas parecem mal-colocadas.

"Pois a linguagem da cruz é loucura para aqueles que se perdem" (Coríntios, 1, 18)

Não irei fazer aqui uma defesa cinematográfica do filme, que em linhas gerais é bem feito. Interessa-me abordar algumas críticas, que correram à época, e entender em que medida o filme seria uma impropriedade, tendo em vista sua abordagem de um fato histórico-religioso, a crucificação de Jesus. Farei alguns excursos de ordem pessoal e também comentarei, em breves termos, em que medida o filme é importante para mim, em meu processo, e pode ser importante para outras pessoas em crise religiosa - ou que estejam querendo entrar no processo de conversão.

Em linhas gerais, o filme expressa a história da vai crúcis a partir do momento em que, nos jardins de Getsêmani, Jesus Cristo é traído por Judas e passa a ser torturado, "julgado" e crucificado pela população (ou por parte dela). O filme faz uso frequente de flashbacks e de personagens não-históricas (diria que oníricas ou retiradas de pesadelos) para realizar o contraponto a momentos-chave da trama. Praticamente todas as cenas em flashback retomam aspectos-chave do cristianismo, assim como o relacionamento de Jesus, enquanto homem, com outras figuras-chave da religião, como Maria, Pedro e muitos outros.

"'Esse homem acolhe pecadores, e come com eles!'" (Lucas, 15, 2)

Eu disse que iria fazer uso de excurso pessoal. Pois bem, creio que o primeiro filme em cinema que eu assisti dizia respeito à Crucificação e a Jesus Cristo: "Jesus Cristo Superstar". Foi no Chile, onde vivíamos, mas precisamos sair antes porque eu estava tendo uma crise de asma. O filme, sobejamente conhecido, faz uso de uma imagem bastante simpática e pouco cruenta do personagem principal, guiado, em seu caminho, por atores-cantores que traduziam em linguagem da época aquilo que fazia parte do cânone cristão.

Neste "A Paixão", Cristo é pintado de forma bastante crua, com personagens rústicos e até mesmo cruéis em sua rusticidade, em situações simples ou até mesmo simplórias, em que as atitudes também não dão muita margem a nuances de suavidade. Os personagens gritam, sofrem, se desesperam, lembram, e agem em função do que passam. Não há muito tempo nem espaço para recriminações, para lamentos sofridos ou bem rememorados, nem nada disso. Os flashbacks vão direto aos momentos que ligam sinais visuais a momentos da história dos personagens, e terminam rapidamente, sem muita margem a leituras mais compassivas. Tudo é mostrado clara e duramente, e praticamente todas as emoções que vemos na tela são extremas, sem dar muita margem a releituras. É como se víssemos a história de pessoas que passam por provações, embora praticamente todos os momentos do filme remetam a trechos explícitos da Bíblia.

Jesus é pintado o tempo todo como homem que sofre, que decide seguir o seu rumo, que pede a Deus por mais força, que de vez em quando quase fraqueja, mas que em seu afã vence. As lembranças que ele tem são de sua passagem enquanto Salvador e enquanto filho de Maria e homem. Mas os momentos em que nos comovemos são - no meu caso - explicitamente quando notamos como é incompreendido, traído, vilipendiado, e como nós nos espelhamos nessa relação com ele.

"Já não vos chamo servos, porque o servo não sabe o que faz seu senhor. Mas chamei-vos amigos, pois vos dei a conhecer tudo quanto ouvi de meu Pai" (João, 15, 15).

Voltando ao meu excurso pessoal, no final da década de 90 eu fui testado por um culto evangélico para ver se tinha condições para entrar na igreja deles. Foi-me passado na época um filme, na casa de um dos fiéis, e como eu não me emocionei não fui aceito. Pois eu não via o que muitos frutos de arte, em pintura, escultura, filmes (como esse) e outros queriam do fiel ou candidato a fiel: que ele se colocasse no lugar. Que entendesse o lugar de Cristo em seu sofrimento, e por que este sofrimento tinha tanto a ver conosco.

Em toda a civilização ocidental, são incontáveis as pinturas e outras obras de arte que retratam a via crúcis, outros momentos do culto cristão, e a crucificação em particular. Em outro post, eu falei algo sobre pinturas que tratam da crucificação, tentando, cada uma do seu jeito, comover aqueles que as viam. Nesse esforço, diversos pintores fizeram uso de estratagemas visuais de diversos tipos, e o exagero não foi um dos menos usados. Mostrar Jesus Cristo putrefato, praticamente destruído pela crucificação, foi um recurso usado por muitos, tais como Lucas Cranach, o Velho, e Mathias Grünewald, que teve seu altar de Isenheim redescoberto, enquanto crítica de arte, por Huysmans.

Grünewald

Mathis_Gothart_Grünewald_019.jpg

Pois nos aparentes exageros que comete eu seu filme, Mel Gibson vai na mesma trilha deles. Vemos um exagero patente na forma como Jesus é cruelmente tratado; não parecemos ver saída no sofrimento a que ele é sujeito; as carnes são em carne viva; os instrumentos cortantes parecem realmente destruir o corpo de Cristo bem na nossa frente; o recurso ao slow motion dá também maior dramaticidade a momentos-chave da trama. Tudo parece ter sido feito para nos chocar. Mas nada que contradiga aquilo que, pela tradição das artes plásticas, muitos tenham feito antes. E confesso: além de fazer sentido, causa um efeito atroz e consegue nos comover. Eu mesmo me comovi diversas vezes ao ver a Paixão, e não sei se por causa do meu trajeto atual, ou se por causa de algo relativo à causa mesmo. Sei apenas que fiquei extremamente comovido.

"Examine a si mesmo antes do julgamento, e, no momento da sentença, você encontrará perdão" (Eclesiástico, 18, 20)

A comoção sempre foi uma arma potente da religião para conseguir novos adeptos e fiéis. Nas pinturas de Grünewald, por exemplo, ela faz com que a gente tenda a se aproximar do que vemos, a vermos com mais detalhe, a sentirmos empatia pela figura retratada, a termos curiosidade quanto aos motivos que fizeram ela chegar até aquela situação, e a nos condoermos com tudo isso. Eu confesso que quando meu professor de Estética e História da Arte me mostrou, em um livro, uma tela com detalhes do altar de Isenheim, eu realmente me senti apavorado mas ao mesmo tempo imensamente atraído por aquilo que eu via - e pela sensação que eu experimentava. Pois, ao sabermos mais do assunto, e ao sentirmos meio que na pele a dor da figura retratada, a gente parece também se identificar com seu destino (o da figura), e a nos sentirmos envolvidos por ele. Huysmans, por exemplo, no texto que citarei ao final deste texto, e que retiro de fonte que eu identifico, além de reforçar a sua crença, também soube ressaltar aos seus leitores o âmago da dor da figura retratada e com isso reforçou a fé no cristianismo (além de ter revelado a pintura, praticamente esquecida, aos amantes de história da arte).

"- Quem pode subir à montanha do Senhor? Quem pode estar no seu lugar santo?" (Salmos, 24, 3)

Volto a um excurso pessoal. Pois lembro-me bem de que, naquela tentativa por parte dos crentes em me testarem, e testarem minha fé, eu realmente não me deixei levar pela emoção ao ver aquele filme que me mostraram, e com isso, que eu fechei e endureci (ao menos um pouco) meu coração. Claro que nessas tentativas pode haver algo de manipulatório nesses esforços por parte dos religiosos. Mas hoje também noto que há algo de realmente verdadeiro e condoído nesse intuito. Porque, após alguns eventos bastante pessoais de minha parte - que aqui não vêm ao caso -, noto também que ao abrir o coração a gente se abre realmente à fé. E que, assim como as pinturas vão nesse esforço, os filmes também servem para esse fim. E noto como A Paixão é sincera nesse esforço, e como combina com esforços que identifico em painéis, pinturas, músicas, rezas e mesmo na própria Bíblia, que também - de outra forma - comove tão ou mais - assim como em painéis em Igrejas, em santuários, e assim por diante.

"- Aquele que tem mãos inocentes e coração puro, que não confia nos ídolos, nem faz juramento para enganar" (Salmos, 24, 4)

Focando o filme em si, nota-se como o diretor Mel Gibson faz uso de um registro humano para Jesus e centrado no ser humano comum, e na sua vivência, para os diversos personagens, alguns anônimos e outros não, que acompanham a via crúcis de Jesus. Num primeiro momento, por exemplo, atrai a atenção o soldado romano que perde a orelha nas altercações com os discípulos de Jesus, no jardim de Getsêmani, mas que tem seu órgão restituído por Jesus quando ninguém vê. Assim como chama também a atenção o caso do soldado romano que vê Maria clamando por seu filho, e que pára absorto e comovido com a cena. Outro caso interessante é o sujeito que, no caminho da via crúcis, é forçado a carregar a cruz com Jesus, pois este não consegue mais aguentar o esforço. Em todos esses casos, os homens focados são comuns, e respondem, nem tão de bom agrado, às solicitações do momento, e comovem-se com isso que vêem acontecendo ao seu redor, agindo em função disso.

Por outro lado, os momentos em que Maria parece que adivinha onde está Jesus, preso e agrilhoado, após ser torturado, e outro em que uma moça próxima ao local da via crúcis parece adivinhar a dor de Jesus, em seu martírio, promovem um outro tipo de identificação, quase telepática, com o sofredor, e que nos mostra como (para quem já passou por isso) as dores de nossos entes queridos são sentidas por nós, mesmo à distância, e como nós nos deixamos levar por elas, em nossa vida. Por outro lado, a própria ideia de a dor de Jesus não ser apenas dele mostra como, na nossa vida, temos em comum com as cruzes que os outros carregam, e para as quais nós, se formos cristãos, ou humanos, o que dá na mesma, podemos ajudar - e muito, e até mais do que imaginamos. Pois a mensagem da via crúcis passa para nós também por meio desses exemplos, que estão espalhados em todo o filme, no transcorrer do sofrimento do Cristo.

"Jogue seu pão sobre a água, porque dias depois você o encontrará. Reparta com sete e até mesmo com oito, pois você não sabe que desgraças lhes poderão acontecer na terra" (Eclesiastes, 11, 1)

É também por meio do filme e do perfil de pessoas comuns, envolvidas na via crúcis, que nós, espectadores, somos envolvidos em paixões comuns - como a da humilhação - que cercam todo o trajeto de Jesus enquanto homem, sendo martirizado, e que estão presentes na cena em que uma moça se aproxima dele, caído, e tenta lhe dar um gole de água - sem sucesso, sendo escorraçada na base da ameaça -, e na cena em que o rapaz que carrega a cruz de Jesus se zanga num momento de profundo desespero e evita que os guardas continuem com sua pendenga de humilhação, de zombaria, de ataques e de achaques a Jesus, que com isso se vê impedido de andar e de continuar sua via. Pois sentimos na pele a humilhação que o homem comum sente ao carregar sua cruz e ao se ver, em meio ao desespero, obrigado a continuar com esse martírio - e mais, a participar dele. Pois a filmagem e a escolha dessas cenas é primorosa, e sentimos ainda muito mais o drama da situação e da religião, enquanto credo, vendo nosso Salvador nessa situação. Como o são, por exemplo, os instantes em que Jesus e o homem que carregou a cruz com e para ele se olharam, e verificaram a clemência de um com o outro, assim como o instante em que o homem é escorraçado pelos guardas romanos, e em que vemos ele indo embora, chorando, sabendo, nós, que ele estava convertido - algo que ele não imaginava estar ao começo do seu também grande esforço. Todas essas cenas foram primorosamente escolhidas, e são catequéticas, visam convencer, visam comover, e fazer o espectador sair de sua zona de conforto e finalmente entender o que a Bíblia diz ou o que realmente aconteceu.

"Eu sou o caminho, a verdade e a vida; ninguém vem ao Pai, senão por mim" (João, 14, 6)

A via crúcis então acontece, e vemos Jesus sendo alquebrado pelos guardas, crucificado e morto em frente a Maria, João e Maria Madalena. Tudo num contexto de horror difícil de descrever e de suportar. Mas vemos tudo acontecendo como no script, de forma compassada e quase espartana, sem maiores detalhes, exceto os que fazem parte da história - com, em especial, o caso do posterior são Longino, o soldado que se certifica com a lança da morte de Jesus e que é curado e tornado posteriormente santo. Um filme realmente respeitoso, que foi criticado por exagerar uma crucificação - como se fosse possível exagerá-la, como se fosse possível exagerar um martírio que foi assim mesmo. Diante do espetáculo respeitoso de uma história eterna, cumpre aceitar, se comover ou fechar o coração. Não considero que haja qualquer motivo para questionar, hoje, o evento de Mel Gibson, dado que pode ser incluído na tradição das obras de arte feitas para comover em prol de uma crença. A minha restou só confirmada com o filme e minha reflexão a respeito dos pontos diversos elencados neste texto.

Curioso - mas sintomático - notar como o vídeo é pouco acessado no YouTube. Mas não faz mal. O filme ficou. Realmente fica.

Espero que tenham apreciado.

* * *

O texto de Huysmans é o seguinte. Ele foi retirado da tese "J.-K. HUYSMANS: TRADUÇÃO COMENTADA DE ESCRITOS SOBRE ARTE (1867-1905)", de ADRIANO LACERDA DE SOUZA ROLIM, que qualquer pessoa pode conseguir na Biblioteca da Unicamp, mas que disponho aqui, para mostrar ainda maiores "viagens", feitas outrora pelos que nos antecederam.

A Crucifixão de Grünewald, de J.-K. Huysmans, tradução de Adriano Lacerda de Souza Rolim

Com uma extraordinária lucidez, ele revia aquele quadro, ali, diante de si, agora que o evocava e, aquele grito de admiração que havia soltado ao entrar na pequena sala do museu de Cassel, ele o berrava mentalmente ainda, enquanto, em seu quarto, o Cristo se erguia, formidável, sobre a cruz, cujo tronco era atravessado, à guisa de braços, por um galho de árvore mal cortado, curvado tal que um arco, com o peso do corpo. Tal galho parecia pronto a endireitar-se e lançar, por piedade, longe daquele terreno de ultrajes e de crimes, a pobre carne mantida presa ao solo pelos enormes cravos que furavam os pés. Deslocados, quase arrancados dos ombros, os braços do Cristo pareciam atados em toda sua extensão pelas fibras enroladas dos músculos. A axila fraturada estalava; as mãos grandes abertas brandiam dedos cadavéricos que, mesmo assim, abençoavam, num gesto confuso de preces e reprimendas; os peitorais estremeciam oleosos pelo suor; o torso estava riscado de aduelas em círculos por conta da proeminente caixa torácica; as carnes inchavam, salitradas e azuladas, salpicadas de mordidas de pulgas, manchadas como por golpes de agulhas pelas pontas das lanças que, despedaçadas sob a pele, dardejavam-na ainda de lascas aqui e ali. Era chegada a hora das secreções: a chaga fluvial do flanco escorria mais espessa, inundava o quadril de um sangue similar ao suco escuro das amoras; serosidades róseas, soros lácteos, líquidos semelhantes ao vinho cinza de Moselle, ressumavam do peito, encharcavam o púbis abaixo do qual ondulava uma faixa de pano bufante; depois, nos joelhos aproximados à força, chocavam-se as rótulas, e as pernas tortas evadiam-se até os pés que, dispostos um sobre o outro, esticavam-se, pressionavam-se em plena putrefação, esverdeavam-se em jorros de sangue. Tais pés esponjosos e coagulados eram horríveis; a carne rebentava, escalava rumo à cabeça do prego e seus dedos crispados contradiziam o gesto implorante das mãos, amaldiçoavam, quase arranhavam com a ponta azul de suas unhas, o ocre do chão, carregado de ferro, similar às terras purpuradas da Turíngia Sobre esse cadáver em erupção, a cabeça aparecia, tumultuosa e enorme; circulada por uma coroa desordenada de espinhos, ela pendia extenuada, mal entreabrindo um olho macilento no qual tremulava ainda um olhar de dor e de pânico; o rosto era irregular, a testa desmantelada, as bochechas secas; todos os traços perturbados choravam, ao passo que a boca, desselada, ria com seu maxilar contraído por conta dos abalos tetânicos, atrozes. O suplício fora horrendo, a agonia havia aterrorizado o júbilo dos algozes em fuga. Agora, nesse céu de um azul noturno, a cruz parecia vergar-se, muito baixa, quase ao rés do chão, velada por duas figuras que se mantinham uma de cada lado do Cristo: uma, a Virgem, coberta por um capuz de um rosa como de sangue seroso, caindo em ondas comprimidas sobre um vestido de azul lasso com longas dobras, a Virgem rígida e pálida que, inchada pelo choro, os olhos fixos, soluça, cravando as unhas nos dedos das mãos; – a outra figura, são João, espécie de vagabundo rústico e bronzeado de Souabe, de alta estatura, barba encaracolada em pequenas mechas, vestido em tecidos com largas abas, como talhados em casca de árvore, uma túnica escarlate, um manto amarelo camurça cujo forro, arregaçado perto das mangas, volvia àquele verde febril dos limões ainda não maduros. Esgotado pelo pranto, mas mais resistente que Maria, dilacerada e rejeitada embora em pé, ele junta suas mãos num ímpeto, se eleva em direção ao cadáver que contempla com seus olhos vermelhos e esfumaçados, e sufoca, e grita em silêncio no tumulto de sua garganta surda. Ah! Diante desse Calvário borrado de sangue e turvado de lágrimas, estava-se longe dos Gólgotas bonachões que, desde a Renascença, a Igreja adota! Esse Cristo tetânico não era o Cristo dos Ricos, o Adônis da Galileia, o janota de bom porte, o belo rapaz de mechas rubras, barba dividida, traços robustos e insossos, que há quatrocentos anos os fiéis adoram. Este era o Cristo de São Justino, de São Basílio, de São Cirilo, dos Tertuliano, o Cristo dos primeiros séculos da Igreja, o Cristo vulgar, feio, uma vez que assumiu toda a soma dos pecados e que se revestiu, por humildade, das formas as mais abjetas. Era o Cristo dos Pobres, aquele que se havia igualado aos mais miseráveis dentre os que viera redimir, aos desfavorecidos e aos mendicantes, a todos aqueles em cuja fealdade ou indigência se agarra a covardia do homem; e era também o mais humano dos Cristos, um Cristo com a carne triste e fraca, abandonado pelo Pai, que interviera somente quando nenhuma nova dor seria mais possível, o Cristo amparado somente por sua Mãe, à qual, assim como todos a quem se tortura, deve ter apelado em gritos filiais, sua então impotente e inútil Mãe. Por certo num último gesto de humildade, ele havia suportado que a Paixão não ultrapassasse o limite permitido aos sentidos; e, obedecendo a incompreensíveis ordens, aceitara que sua Divindade fosse como interrompida desde as bofetadas e os golpes de vara, os insultos e cusparadas, de todas essas pilhagens do sofrimento, até as horrendas dores de uma agonia sem fim. Pudera assim melhor sofrer, estertorar, deixar-se abater, feito um bandido, feito um cão, sordidamente, baixamente, indo até o ápice de tal degeneração, até a ignomínia da putrefação, até o derradeiro ultraje do pus! Certamente, jamais o naturalismo havia então visitado temas semelhantes; jamais pintor algum havia de tal modo fermentado o cadáver divino e tão brutalmente encharcado seu pincel nas placas dos humores e nos godês sanguinolentos das feridas. Era excessivo e era terrível. Grünewald era o mais obcecado dos realistas; mas ao observar esse Redentor em trapos, esse Deus de necrotério, isto mudava. Daquela cabeça exulcerada gotejavam lampejos; uma expressão sobre-humana iluminava a efervescência das carnes, a eclampsia dos traços. Aquela carniça escancarada era a de um Deus, e, sem auréola, sem halo, no simples trajo daquela coroa desgrenhada, semeada de grãos vermelhos por gotas de sangue, Jesus aparecia, em sua celeste Superessência, entre a Virgem, estarrecida, ébria de prantos, e o São João cujos olhos calcinados já não mais tinham lágrimas a oferecer. Tais rostos a princípio tão comuns, resplandeciam, transfigurados por excessos de almas excepcionais. Não havia mais algoz, nem pobreza, nem lança, mas sim seres supraterrenos próximos a um Deus. Grünewald era o mais obcecado dos idealistas.


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