o olhar amor na arte após o fim da arte e da filosofia

Veja ao seu redor - a saída existe e está em tudo e em todos nós

Contreraman

Antes:
E as coisas que continuam já se foram. E as que se foram continuam para nunca terminarem. Até um fim que nunca vem.

Depois:
Vale o que tem amor.

Libertar-se ao crer e ao não crer: a escolha é de cada um

Fato é que, para aquele que não acredita, ou que parece se sentir submetido a provações que o fazem duvidar daquilo que lhe mostra o caminho, o mundo se torna, por momentos, ou horas, algo indevassável, sem solução, sem caminhos à vista, e povoado de forças que o dominam e o estraçalham por dentro, como pesadelos, imagens de perdição e de maldade.


cruz de cristo.jpgAs aflições atingem e envolvem o insensato quando se afasta das palavras que podem levantá-lo, se a elas se entregar com sabedoria. Pois basta o insensato descansar para as situações aparentemente insuperáveis controlarem seu sono, dominarem sua razão, destruírem sua calma em meio a pensamentos desconexos e que parecem escapar de sua correta avaliação. Mas basta o insensato acordar e cair na realidade quanto à sua situação específica, tendo como base as palavras do Senhor, para a calma atingi-lo e aos poucos dominar seu intelecto e suas emoções. É nesse momento que a situação aparentemente insuperável se torna mais um ramo da vida em seu caminho. É quando ele percebe o quanto o mundo parece lutar com ele contra as adversidades, e o quanto os que o acompanham parecem nutri-lo cada vez mais de forças, que ele sequer consegue, porém, ainda identificar.

Fato é que, para aquele que não acredita, ou que parece se sentir submetido a provações que o fazem duvidar daquilo que lhe mostra o caminho, o mundo se torna, por momentos, ou horas, algo indevassável, sem solução, sem caminhos à vista, e povoado de forças que o dominam e o estraçalham por dentro, como pesadelos, imagens de perdição e de maldade. Nesses momentos, é como se o descrente estivesse sendo devassado em todos os rincões de sua alma, e como se ele se sentisse sem qualquer refúgio possível, e como se todos seus esforços para sair da perdição fossem verdadeiramente vãos, e como se todo seu passado fosse um engano, seu presente fosse inútil e seu futuro impossível de prever e de agradar, em qualquer dimensão. Por seus próprios esforços, esse ser parece impossibilitado de resistir ao mundo, e nada do que faça ou mesmo do que pense parece lhe fazer algum sentido ou lhe promover algum tipo, mesmo que ínfimo, de solução. Nesse sentido, toda sua emoção se torna descontrolada, e passível de ser considerada propriamente loucura, dado que ele não tem em que se sustentar, e dado que tudo parece dominá-lo, como se advisse de fora, e não fosse uma sensação própria, uma emoção descontrolada, um arrazoamento meramente particular. Pois é como se todos seus sentidos e pensamentos, mais profundos ou mais singelos, estivessem sob um domínio completo de algo sumamente externo e fora de qualquer tipo de controle, como se dominado por males que não pudesse acessar, muito menos entender.

Uma pessoa nessas condições parece ficar nesses momentos de dúvida ou de descrença dominada por dores excruciantes, que ela sente se originarem de seus pensamentos, mas que assumem um caráter sobremaneira físico, doloroso, acabrunhante e que domina seu corpo, seus membros e sua condição como um todo. Pois sua descrença abala seu corpo, e ele parece suplantar qualquer iniciativa que ela possa porventura imaginar ter para superar sua situação. Nesse sentido, é como se seu destino estivesse selado, tanto a partir de sua mente como de seu corpo, e como se não houvesse espaço algum, em sua realidade corpórea e mental, para alguma saída, por menor que ela possa ser imaginada ou vislumbrada. Suas sensações vão, portanto, de forma direta rumo a uma espécie muito profunda e incontrolável de desespero, que tende a piorar com o tempo, sempre que ela se mete a refletir ou mesmo a sentir, com o corpo ou com a mente. Os pensamentos, para essa pessoa, vagueiam num passado que a acabrunha, num presente que a impossibilita de decidir e num futuro que a impede de acreditar, seja lá no que for. Não importa em que essa pessoa pense, os domínios ao seu redor a impedem de avançar, e mesmo de pensar em avançar, apenas. É como se seu destino estivesse selado para trás, naquilo que ela atualmente é e para a frente. Não há escapatória, e tudo parece para ela uma espécie de enigma que não tem saída, uma espécie de labirinto sem escapatória e até mesmo sem caminho, em direção a fim algum. É como se a pessoa se sentisse total e absolutamente presa à sua condição de ser sem passado, presente e futuro. É um desespero absoluto, esse em que a pessoa parece se encontrar quando não acredita naquilo que o mundo se lhe apresenta, mas, mais ainda, quando não acredita numa direção e mesmo num conteúdo para sua vida como um todo, tendo em vista seu passado, seu presente e seu futuro. É como se, fora de qualquer provável escatologia, o ser humano ficasse subsumido numa espécie de labirinto que não consegue lhe atribuir significado a nada do que pensa, sente ou faz.

A passagem de um estado de descrença a outro de crença será abordada num outro texto, que diz respeito a questões de ordem humana específicas e a questões de ordem transcendental que parecem estar preconcebidas em situações já bastante explicadas em vidas de pessoas recém-convertidas ou que passaram pelo processo durante anos. Agora irei abordar como se sente a pessoa que acredita, mesmo que subsumida em situações idênticas à pessoa abordada em sensação de não-crença.

Uma pessoa envolvida em situações muito prementes mas que acredita, digamos religiosamente, em uma saída para sua situação - sendo que essa crença muitas vezes está pré-determinada e pré-concebida em modelos mentais relativos a religião, a destino e mesmo a uma certa escatologia da qual essa pessoa sente que faz parte -, sente que, por mais graves que sejam suas situações, mesmo no presente, submetida a sensações ou dimensões de sofrimento bastante excruciantes, ou submetida a pensamentos prementes sobre o passado ou cobranças quanto ao seu futuro, imediato ou não, ela possui, sim, saída, mas, mais que isso, que tudo aquilo por que passa assume um sentido, algo que lhe diz o motivo por que tudo aquilo acontece, sentindo também que esse motivo lhe diz respeito, em última instância, mas também e principalmente que não lhe é motivo de vergonha ou de culpa, necessariamente, por sentir também que está em processo de cura e de salvação, e que esse processo tem um caminho e um sentido para além do próprio processo, porque sente que, seguindo esse processo todo, ela já está em processo salvacionista, e que mantendo a força e a crença ela terá sucesso em seus esforços, mesmo que à primeira vista os processos por que passa não lhe dêem motivo para acreditar.

Porque, em linhas gerais, é como se aquela pessoa que acreditasse, tendo como base uma sensação que lhe promove acreditar, sentisse que ao fim de tudo aquilo por que passa, mesmo que tudo trabalhe de forma contrária, houvesse uma luz, um sentido, e uma salvação que pode estar restrita numa razão que por enquanto inclusive lhe escapa, que não lhe consegue fazer sentido, e que pode lhe causar atroz sofrimento. Pois, naquela pessoa que crê, a razão por aquilo em que crê parece estar por fora de si mesma, como se fosse algo em direção à qual ela estivesse indo, e que estivesse descobrindo aos poucos, num processo que sabe ser árduo e doloroso, mas que sabe, por algum motivo interno, uma sensação mesmo, que será compensador, recompensador e finalista, dando-lhe uma saída para além de todos seus problemas e que abrangerá toda ou grande parte de sua existência. Mas essa crença, quero salientar, não é algo cego, que não tem nada em que se basear, em última instância, e que responde apenas por uma vontade de acreditar. Claro, por um lado, que toda crença é, em última instância, uma vontade, e se apoia nela. Mas a crença de um crente tem algo mais em que se basear do que apenas uma vontade aparentemente cega ou num voluntarismo que não teria muita razão de ser. Pois, por detrás da crença do crente, existe uma razão, algo eminentemente vivencial e racional que sustenta todo seu afã em algo mais, e algo racional no sentido de que recusa a descrença não com base numa mera vontade, mas em razões que sustentam essa vontade, e que parecem suplantar qualquer outro arrazoamento, seja de pessoas que crêem pouco, seja daquelas que não crêem, seja daquelas que colocam tudo em questão por não sentirem suficientemente base para acreditarem, e para suporem colocar suas vontades em prol desse afã.

Mas existem aspectos propriamente religiosos envolvidos na percepção positiva que o crente passa a ter de sua situação, seja em condições negativas, seja nos aspectos positivos que o envolvem. Aquele que por algum motivo íntimo acredita sente que seus passos passam a ser, de alguma forma, guiados, em seus pequenos ou grandes atos, por alguma espécie de providência, a qual, ele sabe, tem tudo a ver com sua vontade de progredir, mas que, de outra forma, tem a ver com um desígnio que ele considera de forma extremamente positiva. Pois aquele que acredita parece saber guiar-se num sentido, num rumo, sabendo que precisa adaptar-se a esse desígnio insondável, de forma humilde, para, se Deus quiser, encontrar uma saída para a situação em que se encontra. Um aspecto interessante é que aquele que crê parece VER em pequenos sinais motivos para acreditar, atos em que ele deve apostar ou não, opções fornecidas pela situação ou pelas pessoas que a envolvem, que lhe passam energia de alguma forma específica que lhe diz caminhos, algo que a pessoa que não crê só consegue atribuir a si mesmo, à sorte ou ao acaso, algo que não lhe condiz a se esforçar nessas direções. Pois aquele que acredita parece ou se convence a crer naquilo que vê, e sendo assim deposita, em virtude e em função da força de sua fé, sua esperança em coisas que lhe aparecem - que também aparecem, como é claro, à pessoa que não acredita.

Existe também um aspecto, aparentemente mais prosaico, mas efetivamente ligado ao convencimento de se ter um caminho, tanto por parte do crente quanto por parte do não-crente, que se aplica claramente e distingue a situação de ambas pessoas. O crente apoia-se numa verdade em que ele acredita para tocar sua vida. E sua crença parece embasar - e normalmente embasa - sua dedicação e seu esforço em tocar sua vida, mesmo nos momentos mais difíceis. Essa crença, ele alimenta de diversas formas, mas especialmente via sua intimidade, quando ele se questiona e conversa com Deus a respeito de diversas questões, sendo que por detrás desse questionamento está uma base segunda de crença e a convicção de que, por meio desse processo, algumas verdades serão reveladas à pessoa. O não-crente, como é óbvio, também se esforça e tem seus meios de se convencer das verdades que acaba descobrindo em sua trajetória. Mas esses meios e essas verdades parecem, para ele, depender apenas dele, e não parecem se fiar numa garantia íntima de que eles e elas podem de fato se efetivar, enquanto o crente, não, ele parece ter maior garantia disso, porque ele, até pela própria crença, demanda de si uma vida íntima ligada a textos que ele considera sagrados, perde tempo nisso, conversa com crentes amigos a respeito, e isso faz com ele, ao menos teoricamente, pareça ter maiores bases íntimas e dialogais consigo mesmo e com a tradição de que faz parte, o que lhe traz uma grande segurança, que, entendo dizer, torna-se bem maior do que a segurança de um não-crente. É como uma pessoa que sabe que tem uma guarida, e outra que sabe que sua guarida depende, no fundo, apenas e tão somente de seus esforços humanos. O homem que se considera com guarida reservada pelo destino parece conter maior segurança e com isso parecem assumir mais empenho e confiança em que seus desígnios lhe serão dados. É a diferença de alguém crente, com convicções inabaláveis, mesmo que cegas, e outro, mais atento ao ceticismo da vida, que na hora de se exigir pode se tornar mais preguiçoso com respeito a alguma cobranças. É uma diferença substancial que, noto eu, enquanto crente, parecem diferenciar claramente a situação de uma pessoa em problemas que acredita em algo e outra que não acredita tanto ou que tem dúvidas sobre coisas das quais a outra não duvida.

Quando a pessoa crê, praticamente nada do seu tempo é desperdiçado com alguma ação que não vá de forma direta àquilo que almeja, mesmo que fique durante um bom tempo rezando ou meditando, mesmo que ouça rezas no YouTube, e faça contrição ao ouvi-las, mesmo que saia e desça à rua e veja as árvores e o céu, ou que fique ouvindo um pouco de música. Porque a pessoa que crê e que reza dedica todo o seu tempo a se melhorar, a melhorar o seu entorno, suas influências, a vida dos que ama e dos que não vê há algumas semanas, e isso necessariamente repercute no cuidado que dedica às tarefas que logo irão lhe dar uma saída à sua aflição. Essa influência, da oração e da crença nos atos da pessoa não aparecem claramente à primeira vista. Pois são pequenos gestos que, quando em meio à atribulada vida de quem sofre, podem parecer pequenos demais para influenciarem a vida concreta. Mas, se formos pensar bem, num mundo competitivo como o nosso, esses pequenos gestos são claramente levados em conta pela providência na hora de a pessoa encontrar uma saída às suas atribulações. Como uma fala bem colocada; uma gravata bem disposta; uma mensagem bem escrita, com ponderações e colocações que podem mudar um destino. Esses pequenos gestos são causados, em grande parte, pelo maior cuidado que o crente tem consigo mesmo, e podem causar grande efeito em pessoas dispostas a ouvir ou ver ou ler algo que faça-lhe a diferença naquele momento específico de suas respectivas trajetórias. Como o maior cuidado que a pessoa que teme o Senhor tem consigo mesma; a maior humildade que experimenta, sempre que é submetida a provações que muitas vezes não esperava; o maior comedimento ao alcançar graças que tanto desejava; a maior mansidão ao experimentar felicidades que acabam lhe sendo dadas por algum motivo, terreno ou divino. Todos esses cuidados são promovidos, em sua grande parte, pelos livros do crente; já aquele que não crê como que se vê imerso em fontes demais de distração para conseguir, de alguma forma, em meio a suas atribulações, conseguir fortalecer suas características pessoais o suficiente de forma a isso causar alguma diferença. O crente perde algum tempo, sim, lendo e ouvindo sobre a sua crença, e nesse sentido pode até se atrasar em relação ao não crente que se dedica; mas, quando ouve, lê ou vê algo que lhe corrobora sua crença o crente se fortalece, sente se fortalecer, e vai com mais integridade rumo aos seus desafios, que, claro, lhe exigem muito estudo, muito trabalho, muita dedicação. Pois a crença como que fortalece o afã daquele que sofre em meio a tantas tarefas a que precisa se dedicar. A gente não considera que a mãe perde seu tempo quando reza, à noite, em meio a um lar frio e distante, pelo seu filho que passa por dificuldades, e ainda mais por aqueles irmãos que o ajudam e que lhe dão força íntima para superar seus problemas. Nem consideramos que a pessoa que sofre perde seu tempo quando pensa, ponderadamente, naqueles que lhe dão guarida, e dedica algo do seu tempo para pensar bem a respeito deles, porque eles, para ele, tanto o merecem. A gente pode considerar que o crente poderia aproveitar melhor o tempo fazendo algo de bom para outros; mas não se entende, comumente, que quando o crente que fraqueja reza em prol de si e dos outros ele melhora a si mesmo e, na hora certa, tem maior probabilidade de se dedicar com integridade a quem, numa outra hora, pode exigir sua ajuda, ou pode requerer um gesto correto em seu nome, ou em sua direção.

É díficil a gente se convencer disso, quando cremos que somente os aspectos externos, a dedicação a determinados fins, parecem levar alguém a conseguir alcançar de forma mais eficaz algum determinado objetivo. Pois cremos, de forma geral, que somente aquilo que efetivamente existe enquanto ato muda realidade. Ocorre que o crente sabe que, por detrás daquilo que vê, e daquilo que sente, existem coisas que ele não vê e que propriamente muitas vezes não sente que existem e que podem fazer sua realidade mudar completamente, sua percepção da realidade ser transformada, e sua apreensão do que é certo ou errado realmente revolucionada. Já aquele que não crê tende (digo tende) a se prender àquilo que vê, que consegue comprovar, ou que consegue de alguma forma experimentar, seja por meio de seus meios mais simples como mais profundos, e nesse sentido tende a esquecer que existem muitos recursos que lhe escapam, muitas realidades que não consegue captar, muitas sensações que estão presas ao espírito das pessoas com quem lida, e que não se expressam facilmente, às vezes inclusive passam batido para a pessoa de maior percepção entre nós. Pois são esses aspectos, o não saber, que passa batido àquele que não crê e que o crê muitas vezes sabe que está ali, esperando-o para que seja decifrado - e muitas vezes aquele que crê tem muito menos capacidade para perceber o imperceptível do que aquele que não crê, mas ele sabe que algo pode estar ali. Nesse sentido, o crente se precavê e evita julgar despropositadamente, evita esperar algo de coisas que parecem óbvias, se precavê e espera com mais humildade por tudo aquilo que acontece, e mesmo quando algo dá errado ele responde certo, sem se deixar afetar em demasia, sem se desesperar, sem perder a esperança. Porque aquele que crê parece ter uma esperança inesgotável em si, e parece esperar aquilo que pode não vir, mas que porque ele espera pode até vir a aparecer.

Existe uma lógica naquele que crê que, muito claramente, supera em muito a lógica possível daquele que não crê. Aquele que crê sabe que, fazendo tudo de acordo com o figurino que lhe é enviado de cima, ele conseguirá alguma coisa boa, seja lá o que acontecer. E que no final de tudo, na morte, haverá espaço para aquilo que ele buscava, uma felicidade maior, algo que suplante o sofrimento que experimenta. Nessa vontade, e nessa crença, aquele que crê apoia-se mais firmemente em sua vontade, que não é abalada por nada, e que nem pode ser, se o crente continuar em seu esforço, em sua vontade. Por outro lado, aquele que não crê assume em geral uma postura que não é de crença, mas de dúvida, e esta não lhe dá uma garantia íntima de que irá conseguir o que mais espera, até porque aquele que duvida meio que não espera, meio que se submete a uma situação incômoda de ter de suportar a vida como lhe acontece, e não busca mais nada nela, a não ser ela mesma. Claro que aquele que não crê pode obter muita coisa da vida, mas quando esta lhe oferece muita coisa, ele meio que recebe o que conseguiu alcançar não como algo divino, algo que tenha um valor maior, mas como algo restrito à própria vida, e mesmo quando agradece não agradece de pleno coração. Ao contrário daquele que crê, que parece estar o tempo todo sorridente com a vida que lhe cabe, com os frutos que lhe são dados, e até mesmo com as atribulações a que fica sujeito. Porque aquele que crê recebe a vida de braços inteiramente abertos, aconteça o que acontecer, enquanto aquele que não crê não consegue fazer isso, porque sabe - em sua convicção - que no final da trajetória, quanto mais sorte tiver, não sabe realmente o que irá acontecer - porque duvida, não sabe. Enquanto que aquele que crê crê saber naquilo que irá acontecer, e isso o torna mais feliz, o tempo todo. Claro que há momentos de descrença, em todos, naquele que crê e naquele que não crê, descrenças maiores ou menores, mas aquele que acredita está meio que anestesiado, pela sua crença, de lhe acontecer algo de tão ruim que ele não consiga realmente superar.

Pois para quem crê viver no mundo aparece, ao mesmo tempo, com maior gravidade e menor seriedade. Pois, sabendo (ou crendo que) sua existência é dada em função de algum ser maior, ou mesmo de um bem maior, o crente atribui aos seus atos maior importância e relevância, conduzindo-se com maior gravidade no mundo, aceitando as lições do sábios de seu livro santo, assentindo em admitir as próprias fraquezas, remoendo as falhas até acertar, para com isso sentir-se meritório do mundo que Deus lhe promete, para que ao final de toda sua jornada se sinta merecedor do sofrimento por que passou, dado o fim dado. Pois, para o crente, sua interposição no mundo é temporária, passageira e de alguma forma não tão relevante em relação a sua posição no mundo enquanto ser que merece uma eternidade, prometida pelo Deus em que acredita e à qual ele tentará até o fim fazer jus. Assim sendo, o crente o tempo todo tende a se dedicar mais, a se questionar mais, a consultar mais, e a duvidar da sensação de ele mesmo se sentir dono de alguma verdade - pois sente e sabe que essa verdade está alhures, seja naqueles conselheiros que a conhecem melhor, seja nos livros santos e sagrados, seja nos costumes dos que o acompanham e que o fazem refletir e duvidar de si mesmo em prol de um destino maior. Pois o crente está ao mesmo tempo nos seus atos graves, e ao mesmo tempo no descompromisso com aquilo que acontece, que para ele é passageiro como a própria vida, e que portanto não merece essa importância toda que o ignorante de sua fé lhe dá. Pois aquele que não crê é como se estivesse abandonado, por decisão toda própria, à própria sorte, e como se não tivesse em última instância a ninguém mais a quem apelar, em nome de algum livro que contenha verdades que aprecie, ou de alguma personalidade que admire. Aquele que não crê é como se estivesse sozinho/a, sem a quem recorrer, exceto à própria consciência, e não tivesse o que ler ou o que consultar para saber mais sobre simplesmente viver, em nome de valores, de crenças ou mesmo de objetivos, excetuando seres com ele, também não crentes, que percorrem a vida isentos de leituras às quais eles possam atribuir verdades superiores. Pois, embora o não crente esteja exposto no mundo a uma infinidade de outras leituras, literaturas e compêndios de sabedoria mundana, ele não tem como sustentáculo de seu comportamento livros ou sábios que possam ajudá-lo a afundar em sua consciência a tal ponto que ele consiga, com essas leituras e palestras, sentir suplantar os aspectos áridos e até mesmo felizes do mundo, em nome de algo maior cujo valor ele consiga ver no olhar dos seus companheiros de jornada.

Pois é como se o crente tivesse um olhar acima dele, que o resguardasse dos problemas do mundo, e que lhe garantisse uma companhia durante toda a jornada, mesmo árdua, pela qual ele deve passar até encontrar o seu fim, e como se o não-crente dispensasse essa companhia pela vontade de, ele próprio e mais ninguém, ser responsável pelos próprios atos, pelos próprios frutos que consegue, e pelos próprios males que pode vir a se causar, sem querer um conselheiro maior ao seu lado, nem regras apriorísticas que deva seguir, de forma a pagar o preço, sozinho, pela responsabilidade dos seus atos. Claro que, em última instância, essa companhia que o crente atrai para si é seu Deus, e claro que, de caso pensado, a ausência desse Deus é contrabalançada, pelo não crente, pela suposta e extrema autodeterminação de seu destino. Claro também que o crente parece sentir menos solidão por assumir seu afã, em companhia de amigos ou familiares, e que o não crente se sujeita, em nome de seu próprio afã, a se sentir um pouco mais só, ou totalmente só, em relação aos companheiros crentes, sentindo ser esse o preço de seu suposto maior esclarecimento, como ser que não eleva dogmas para acima de si mesmo, nem deuses para acima de sua razão. Mas, é preciso deixar bem claro, o crente não assume, no limite, sua opção em função de seus ganhos ou de seus benefícios, mas em virtude de sentir em si mesmo que precisa desse tipo de vertigem, enquanto a vertigem do não crente se localiza em outro lugar, e dela, em última instância, o não crente sabe não ter saída possível. Pois as vertigens de um e de outro são diferentes, em todo diferentes, e uma - a do crente - lhe dá uma insegurança extrema mas ao mesmo tempo uma final garantia, enquanto a do não crente lhe dá uma liberdade atroz mas garantia nenhuma.

Pois, para o crente, é como se o mundo assumisse um caráter de eternidade permanente, sendo essa eternidade - grave, mas ao mesmo tempo alegre - apenas uma parte do caminho pelo qual ele se sente chamado a passar para atingir uma alegria maior, enquanto, para o não crente, esse caminho se torna infinitamente menos aguerrido e mais curto, em nome de uma integridade à qual ele não quer atribuir nenhum nome. Claro, enfim, que entre crer e não crer é feita uma escolha, e um preço é, de alguma forma, pago. O crente cede de várias formas, e paga em gravidade e respeito um preço que ele curte em nome de autoridades que ele passa a colocar acima de si mesmo - seja sob a forma de livros, de pessoas, de instituições ou de um sentimento íntimo maior, que ele chama de Deus, que trata como Deus ou que ele acredita que seja Deus -, enquanto o não crente prefere assumir uma fragilidade que ele considera ser existencialmente inerente ao ser humano para assumir, em si, uma liberdade que, no limite, ele passa a considerar ilimitada, sem se subjugar a nenhuma autoridade abaixo da da própria razão e do próprio arbítrio. O crente, nesse processo, adquire uma segurança que, no limite, se mantém aferrada às próprias convicções, sustentadas e protegidas pela lei, e o não crente admite a insegurança de se sentir livre, ao deus dará, sem ninguém a obedecer, nem em última instância a si mesmo, na medida em que, se bem não fica sujeito a uma liberdade ilimitada de fruição, não se sujeita a ditames outros, que não os fornecidos pela razão, pela moral e pelas instituições que o cercam. O não crente torna-se um refém da própria liberdade, enquanto o crente se torna um homem liberto pelas próprias amarras que passa a assumir para si em nome de um sentimento que considera maior ou de um fim que considera eterno.

Quem desce aos jardins de sua alma e percebe a existência em grau maior percebe que submeter-se a um ditame que o liberta não é amarrar-se a preconceitos cuja origem possa ser questionada.

Eu creio.


Contreraman

Antes: E as coisas que continuam já se foram. E as que se foram continuam para nunca terminarem. Até um fim que nunca vem. Depois: Vale o que tem amor..
Saiba como escrever na obvious.
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