o olhar amor na arte após o fim da arte e da filosofia

Veja ao seu redor - a saída existe e está em tudo e em todos nós

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Antes:
E as coisas que continuam já se foram. E as que se foram continuam para nunca terminarem. Até um fim que nunca vem.

Depois:
Vale o que tem amor.

Masaccio (1401-28), uma aproximação à genialidade do Renascimento

Gombrich gasta quase uma página em apenas uma pintura de Masaccio, um afresco, em que vemos a utilização de perspectiva e de um realismo atroz, o "A Santíssima Trindade com a Virgem, S. João e doadores".


2012_10_08_13_43_040.jpgNos meus tateios em tentar entender, ao menos um pouco, de estética e história da arte, vim a me deparar, na A História da Arte, de Gombrich, com uma das telas mais conhecidas de Masaccio, artista italiano da época do Renascimento, que morreu com apenas 28 anos mas cuja iconografia já repercutia em mim sem eu saber. Gombrich gasta quase uma página em apenas uma pintura do sujeito, um afresco, em que vemos a utilização de perspectiva e de um realismo atroz, o "A Santíssima Trindade com a Virgem, S. João e doadores".

O tema religioso tem me atraído muito ultimamente. E confesso-lhes que as novidades da pintura em termos de uso de perspectiva ou do realismo das figuras não é o que me atrai mais. Mas, como o artista visava, até pelos desejos dos que encomendaram o trabalho, comover e aproximar ainda mais o tema e as figuras dos espectadores, eu resolvi fazer algumas linhas agora, tentando captar o real efeito que esse seu talento deveria ter causado nos transeuntes, que se viam às voltas com um Jesus quase em carne e osso, pendurado numa cruz com figuras de mito cristão, mas a poucos metros de cada um, e com pessoas vestidas em trajes normais, em escala normal, e parecendo estátuas, prontas a serem tocadas por qualquer um.

Hoje, basta consultarmos um Wikipédia para descobrirmos até mesmo detalhes dessa figura importante da arte renascentista e links com imagens de algumas de suas principais obras. Creio que existam também muitos livros que devam se prender especificamente a aspectos ligados a religião e a arte no que diz respeito às obras do artista. Mas, como não tenho dinheiro nem tempo para isso, e este é apenas um texto de divulgação, me prendo mais ao aspecto subjetivo de suposta receptividade da obra pelos contemporâneos a Masaccio, e também a uma diminuída subjetividade atual, que, sujeita às mais variáveis e violentas intervenções artísticas, pode ter deixado de experimentar variações mais sutis de sensibilidade ao se defrontar a obras como essa.

Santíssima Trindade

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O afresco da Santíssima Trindade está numa parede da Igreja Santa Maria Novella, tendo sido executada em 1427, um ano antes do precoce falecimento do artista. Ele apresenta um Cristo crucificado acima de um túmulo onde dá para entrever a ossada de um corpo não identificado. Ladeia a cena principal de Cristo tendo sua Cruz mantida em pé por uma figura sobre a qual tentarei falar algo a respeito um pórtico com colunas simples, sendo a cena acompanhada por duas figuras principais, mais próximas do Cristo, e duas outras figuras menores (estando todas quase inteiramente cobertas) abaixo das colunas e ladeando todo o pórtico. Sentimos haver toda uma impressão de profundidade ao vermos a tela, que avança para o fundo.

Otavio G. Bessa, em seu blog "História do Renascimento", afirma que os fiéis, ao verem a pintura, teriam ficado chocados, dizendo que "a ilusão de espaço que parecia real contrariava totalmente os hábitos visuais vigentes até então", parecendo que "o pintor tinha feito um buraco na parede que mostrava uma capela vizinha". Eu, de minha parte, gostaria de atentar mais à questão do choque que a pintura, feita desse jeito, pode ter causado no caráter religioso de quem assistia a cena. Pois considero que esse choque pode ter sido realmente solicitado por quem encomendou a pintura, e pode ter sido, de alguma forma, até agradecido por quem a via. Passarei então a discorrer a esse respeito.

A quem experimenta um choque de fé, com um aumento da crença, ou mesmo sua retomada, ou sua descoberta, a iconografia é realmente muito importante. Os livros, claro, servem como um grande apoio em quem se reaproxima religiosamente de algum credo apoiado nos livros. Mas a necessidade de imaginar, e de se defrontar com pinturas ou outras apresentações visuais que representem a imagem que o recém-crente passa a ter daquilo em que acredita, torna-se fundamental para corroborar sua crença. Nesse sentido, toda apresentação a que essa pessoa se torna sujeita assume uma importância fundamental no processo que experimenta, incomodando-a ou congratulando-a com sentimentos de ordem quase física, experimentada em sensações quase palpáveis.

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Diante desta imagem, assumida que coloque as figuras pintadas em dimensões reais, como pessoas reais, a gente se sente de alguma forma, já de chofre, massacrado por uma remissão específica: o cadáver carcomido ao pé da Cruz. Vemos uma verdade inelutável, que nosso corpo descansará após nossa morte como ossos, e que portanto nada do que fazemos, temos ou pensamos restará para que disso possamos fazer alguma coisa. É chocante, aliás, que a figura do cadáver, sepulto, ocupe um espaço tão grande no afresco como um todo, que representa uma imagem sagrada, e que de alguma forma sirva-nos como proteção diante do que veremos acima dela. Pois o que veremos é a representação, em escala real, de algo que domina nosso imaginário, e - mais que isso - vendo-nos acompanhados de figuras reais, que dialogam conosco e que nos mostram a força do credo, daquilo que aconteceu a Jesus, e mais ainda, a representação da Santíssima Trindade, uma realidade fundamental em todo o credo.

Realismo hiperreal

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Ocorre que, vista de forma tão realista, mas juntando figuras reais com figuras da mitologia cristã (só assim consigo conceber a figura de homem segurando a Cruz em que o Cristo está crucificado), ao nos aproximarmos da pintura, colocada numa parede, é como se estivéssemos nos aproximando de um sonho ou mesmo de um pesadelo, pela gravidade do que vemos, pela representação fiel do que sentimos, e pela identificação com as figuras retratadas. Pois para um crente que tem a imagem do Cristo em sua retina isso se torna quase a revivificação da cena em carne e osso, assim como o vislumbre do que seja a crucificação em situação realista, enquanto, para o crente renitente, ou para aquele que se sente ainda afastado de sua crença pelos seus atos errados ou por não participar tanto o quanto acredita, torna-se quase um pesadelo, algo que precisa carregar em si mesmo como Cruz, e que passa a encarar de forma muito dificultosa, como algo a que precisa fazer jus. O peso, para aquele que sente dever à sua crença, é de alguma forma formidável, e poderia levar a embates íntimos atrozes, tal qual o filme "A Paixão de Cristo", de Mel Gibson, pode ter levado a crentes atuais, em toda a crueza de sua representação do processo de via crúcis e da Crucificação.

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Note-se, em acréscimo, que a figura de Jesus parece, nesse contexto, deslocada da realidade que o rodeia, por meio de um ensombrecimento do fundo, e de uma posição sobremaneira estranha para a figura que sustenta sua cruz, meio que solta no espaço, como se não estivesse se apoiando em nada. Isso faz com que tenhamos uma impressão de sonho, sim, mas, mais que isso, como que sejamos invadidos por essa figura crucificada, que passa a ser mostrada a nós como uma espécie de troféu, ou como resultado de algo que nos diz imediatamente respeito. O efeito de demonstração fica ainda mais ressaltado pelo caráter eminentemente humano da figura de Jesus, que parece um homem como todos nós, sem que nele esteja sendo em nada exagerado qualquer aspecto, mas que é apresentado como símbolo de um homem que é dado de presente para nós. O homem em questão, no caso, Jesus, aparece com uma feição limpa, clara, com todos os apetrechos que o tornam alguém presente a nós, e com a presença de figuras mitológicas, como a pomba, que acima dele lhe proporciona uma luz. Vemos também que nessa figura humana existe uma auréola, que o denomina santificado, e que parece tão real quanto a própria figura, tendo um caráter quase metálico, absolutamente presente a nós. O efeito que uma figura humana desse tipo, com os músculos claramente delineados, mas nada exagerados, com a face tranquila, de alguém que parece ter morrido sabendo o que fazia, e com uma face similar à nossa, sobrevoando essa entrada de pórtico, acompanhado por figuras tão ou mais reais do que ele, deve ter sido formidável para qualquer pessoa, mas muito mais para aquele que esteja imerso na crença cristã e para aquele que padecesse de sofrimento a respeito. Chega a ser quase tão formidável o efeito quanto o de prédicas em que as palavras são tornadas carne, ou em meio a demonstrações de júbilo e de sofrimento por parte de crentes para os seus colegas em similares processos de conversão.

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Para dar impressão de profundidade, é claro que os estudos de perspectiva que Masaccio fazia foram fundamentais, assim como para atribuir um caráter realista às figuras os estudos sobre o ser humano tal qual ele realmente é devem ter sido providenciais. Mas ressalta, aqui, o fato de que isso não parece ter sido suficiente para causar o efeito que o afresco deve ter causado nos espectadores. Pois o caráter quase onírico da cena, meio que afastada de nós, ao mesmo tempo que próxima, em que parecemos adentrar num recinto que não conhecemos, e em que Jesus aparece pendurado numa cruz muito real, mas ao mesmo tempo afastado de nós, porque colocado muito acima do nível do chão e ainda por cima sustentado por uma figura quase fantasmagórica, parecem nos fazer entrar quase na nossa própria sensibilidade, na nossa própria psiquê, ao contemplar um espetáculo desse tipo. teria sido diferente, como é óbvio, se Jesus apenas estivesse ao rés do chão, como uma pessoa comum, pendurada numa cruz, sem algo a torná-la maior do que nós, e a torná-la, pelo seu próprio local, numa espécie de exemplo, de demonstração. Teria sido quase torná-la rebaixada em relação a nós, e não apresentá-la como é, uma figura de crença, alguém a ser tomado como exemplo, que nos redime de todos nossos pecados, pelo próprio gesto de morrer e ser crucificado por nós.

Por outro lado, vemos figuras ao seu lado, tanto logo abaixo dele, quanto mais distantes, meio que guardando o local, e figuras com detalhes absurdamente realistas, e poses quase contemplativas, como se estivessem aí cumprindo papéis e não se lamentando por aquilo que vêem. Mas todas praticamente cobertas, em trajes absolutamente formais, e completamente parlamentadas, como se estivessem numa cerimônia, repetindo, cumprindo papéis. Dessas figuras, duas são claras, sendo Maria e São João, enquanto as outras não têm nome, e são as doadoras do afresco, pessoas crentes, em pose como tal, que doaram seus recursos para que essa obra fosse apresentada ao público (e deve ter sido com grande pompa, porque não deve ter saído barata, em sua encomenda). Essas figuras, ao sopé da figura de Jesus, parecem querer nos convencer ainda mais do caráter educacional e religioso daquilo que aparece diante de nós, com Maria nos apontando Jesus morto, com aparência plácida, e São João tomando conta do que aparece. Nesse caso, somos defrontados com uma lição a ser aprendida e apreendida, algo que precisamos introjetar em nós para aprendermos o que significa, algo que está sendo apresentado diante de nós por uma Maria humana, que sobrepuja sua dor para nos mostrar a dor e o exemplo. Isso não é pouco, se formos entender o poder que a figura mariana tinha e ainda tem para todos os crentes, sabendo como ela era humana e sobrehumana, ao mesmo tempo, em sua entrega e sua dor. Por outro lado, vemos as figuras dos doadores em pose de submissão a tudo isso que é apresentado, aparentando completa adoração a tudo o que vêem e a tudo o que tornam real. Porque eles, ao pagarem pela obra, tornam real o sacrifício de diversas formas, inclusive por aparecerem todas as figuras absurdamente reais em sua concepção.

Termino observando que obras desse tipo parecem ter sido feitas, muito mais do que para serem contempladas, para serem vividas e vivenciadas em nosso íntimo, o que venho aprendendo a fazer cada vez mais com sua fruição.

Espero que tenham apreciado.

Outra de Masaccio

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