o olhar amor na arte após o fim da arte e da filosofia

Veja ao seu redor - a saída existe e está em tudo e em todos nós

Contreraman

Antes:
E as coisas que continuam já se foram. E as que se foram continuam para nunca terminarem. Até um fim que nunca vem.

Depois:
Vale o que tem amor.

Pequenas coisas

Hoje eu torço poder ir e encontrá-la. Sem que ela saiba que, nos últimos anos, esta é a primeira vez em que isso acontece.


denis-dailleux-mothers-and-sons-1.jpgAcabo de descer ao jardim dos prédios em que moro, e, no caminho, veio-me uma sensação gostosa de felicidade, mas pequena, muito pequena, porque irei encontrar minha mãe (e penso que talvez não dê certo, e me vem um lamento). Uma sensação que não sentia há muito, muito tempo, porque pelo jeito sentia que não podia, que não estava apto, a senti-la de novo.

Esse tempo que passou passou-se desde que saí da casa deles, dos meus pais, e fui morar com minha esposa (hoje estou separado). Não que eu tenha saído necessariamente brigado; eu saí na verdade desnorteado, achando que não poderia mais ser feliz. Foi errado sair assim para ir para a casa de outro alguém. Mas foi o que aconteceu.

Desta vez, não há nada de errado no relacionamento entre minha mãe e eu. Eu irei perto do apartamento dela para uma sessão de reencaminhamento psicológico de gente que eu nem conheço, porque é bom para eu ir, e também bom para eles. Pois, como tenho mais experiência (pouca), posso ajudá-los de alguma forma (isso acaba acontecendo). Depois da sessão, com pessoas que nunca mais eu verei (isso, normalmente), eu vou até apê de minha mãe, onde ela sempre me serve algo para comer e me dá algum alimento para me manter. Estou passando muitas dificuldades. Mais do que em toda minha vida.

Mas desta vez, pela primeira de muitos e muitos anos, veio-me uma sensação gostosa, a de que irei visitá-la, ver seu jeito de ser (não mais aguentar), conversar algo sobre como ando com meus problemas, e talvez perguntar algo a seu respeito (algo que quase nunca faço ou a que quase nunca me disponho). Porque me tornei uma pessoa amarga com o tempo, e isso me endureceu. Noto isso quando acordo. Sempre de mau humor ou com uma ideia pré-concebida sobre um dia que sequer começou.

Tenho me esforçado muito para viver, ultimamente. Mas a maior novidade é que, em meio a meus esforços, tenho lido muito a Bíblia, até comentado a respeito, e tenho ouvido alguns vídeos que antes eu achava piegas ou desnecessários. Como se eu soubesse de tudo, quando hoje eu sei que da missa não sei nem o começo. Nesses meus esforços cotidianos, tenho procurado serviço, encontrado poucas oportunidades, visto alguns vídeos educativos, mas sempre, sempre com a Bíblia ao meu lado. Ela me ajuda muito, sempre.

Ou quase sempre. Como se eu estivesse sempre querendo mais. Como se eu precisasse. Porque eu preciso.

Uma verdade que eu tenho percebido ultimamente é que os males que a vida nos causa em geral somos nós que causamos a nós mesmos. E causamos às vezes de propósito, às vezes inadvertidamente, mas sempre com conhecimento de causa. Pois causamos o mal a nós mesmos meio que torcendo para que lá no fundo nos recuperemos. Mas, por incrível que possa parecer isso, nós em geral culpamos a vida por esses exatos males, e não nos recuperamos também por isso mesmo. É como se nos prendêssemos em prisões das quais não queremos realmente escapar.

Mas quando a gente é cristão e lê a Bíblia, ou ao menos dá valor àquilo que lemos outrora nela e nos olhos dos outros, a gente parece parar e refletir melhor sobre o que fazemos. E é geralmente isso o que de mais valioso a Bíblia nos dá: um espelho. Vemo-nos naquilo que lemos e reparamos em detalhes em que antes, quando desprezávamos aquele tipo de lição, sequer prestávamos uma menor atenção. Falo em ser cristão, é claro, porque esse é meu processo atualmente; mas nem por isso me nego a acreditar que as outras pessoas, não cristãos, façam o mesmo; fazem. Mas o que quero dizer é que comigo, enquanto me sinto cristão, algo de novo acontece. A gente fica mais plácido, geralmente; mas a mudança maior não parece ser essa. É como se a gente se olhasse de fora. E percebesse o olhar que existe no livro que tomamos como sagrado.

Mas o que, creio, seja de mais importante em tudo o que acontece conosco em situações como esta é que, por meio de algo que antes não nos fazíamos refletir, a gente agora reflete. Mas não com a mente, necessariamente. Reflete com o coração. Sentimo-nos mais imbricados com o mundo, parece; os relacionamentos assumem novo olhar; os novos conhecidos a gente aborda de outra forma. Não nos tornamos tão aguerridos, agora; ou melhor, sabemos quando temos de sê-lo. Algo que antes não sabíamos.

Enquanto eu escrevo estas parcas linhas, minha mãe dorme. Amanhã uma amiga irá lhe ligar para ver se compensa mesmo eu ir até ela. Hoje eu torço poder ir e encontrá-la. Sem que ela saiba que, nos últimos anos, esta é a primeira vez em que isso acontece. Torço também pelas pessoas que irei encontrar. E torço também por mim, que me sentirei bem ao lado dela. Mas torço acima de tudo por Deus, que finalmente parece ter achado um interstício no meu coração e por meio do qual ele muda aos poucos toda minha vida.


Contreraman

Antes: E as coisas que continuam já se foram. E as que se foram continuam para nunca terminarem. Até um fim que nunca vem. Depois: Vale o que tem amor..
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