o olhar amor na arte após o fim da arte e da filosofia

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E as coisas que continuam já se foram. E as que se foram continuam para nunca terminarem. Até um fim que nunca vem.

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"A Expulsão de Adão e Eva do Paraíso", de Masaccio (1401-1428): Um primeiro olhar nu para a realidade

Ao pintar o evento da expulsão, portanto, Masaccio vai aos confins da mentalidade religiosa ocidental e mundial. Mas ele não mostra Adão e Eva juntos ou felizes, ou mesmo a serpente, que motivou Eva a convencer Adão a comer do fruto proibido. Ele mostra o momento exato em que Adão e Eva lamentam a expulsão. Ele mostra a dor.


Masaccio_-_The_Expulsion_from_the_Garden_of_Eden_(detail)_-_WGA14180.jpgCirculam na web imagens que mostram como ficou a tela "A Expulsão de Adão e Eva do Paraíso", de Masaccio, após a retirada de algumas "folhagens" pintadas em cima da tela para encobrir o sexo de Adão, na pintura. Realmente devia ser muito constrangedor ser tratado como idiota por gente tão pudica quanto burra.

Mas esse aspecto é o que menos atrai nessa pintura, presente logo à esquerda de um mural enorme existente na Capela Brancacci da igreja de Santa Maria del Carmine, em Florença. Na verdade, é até estranho ver essa imagem, do jeito como está, naquela composição. Pois parece não combinar. Parece ser um produto de um gênio que apenas procurava uma desculpa para chutar o pau da barraca - artisticamente falando, é claro.

Existem vídeos na internet com especialistas que mostram as conquistas que Masaccio trouxe à pintura em particular e à arte em geral com seu afresco. Esses vídeos concentram-se especialmente nos méritos técnicos dos traços, na escolha da forma como retratar o tema, e em vários outros aspectos artísticos. Mas eu gostaria de me concentrar em outros itens, tão ou mais relevantes.

Adão e Eva

Masaccio_expulsion-1427_crop.JPG

Podemos considerar o Gênesis como a principal narrativa ocidental sobre o começo do mundo. Lá está tudo, desde o universo até o ser humano e a separação entre o ser humano e quem o criou: Deus. A alegoria de Adão e Eva é então fundante em tudo o que diz respeito a cristianismo e a acreditar na Bíblia, o livro, como relato sagrado. Ao pintar o evento da expulsão, portanto, Masaccio vai aos confins da mentalidade religiosa ocidental e mundial. Mas ele não mostra Adão e Eva juntos ou felizes, ou mesmo a serpente, que motivou Eva a convencer Adão a comer do fruto proibido. Ele mostra o momento exato em que Adão e Eva lamentam a expulsão. Ele mostra a dor.

Masaccio._Head_of_Adam._Expulsion_from_the_Garden_of_Eden._Brancacci_Chapel.jpg

Note-se que, sob esse ponto de vista, o pintor poderia ter apresentado Deus expulsando Adão e Eva. Mas não. Ele mostra a expulsão sob o ponto de vista de quem é mandado embora do Paraíso. Ele mostra o sofrimento humano, propriamente humano, de alguém - os dois - que desistiram da felicidade do Éden para cair no mundo que nós conhecemos. Ele faz com que a pintura retrate a expulsão sob o ponto de vista de quem não tem razão, de quem foi punido, e mais, com toda a vergonha de sua nudez (que eles passaram a enxergar). Ou seja, Masaccio choca ao mostrá-los a ambos, nus, propositadamente, como que nos defrontando com o espetáculo da sua dupla nudez: física e emocional. Nesta pintura, Adão e Eva estão nus duplamente: em corpo e em alma. Nós vemos os primeiros seres humanos, de quem descendemos, abandonados a eles mesmos, nus, sem a proteção e a guarda divinas.

Mas vemos mais. Normalmente, pelo que sei, Adão é pintado com uma feição e compleição física robusta e apolínea. Como se fosse uma espécie de homem ideal. Mas aqui não. Aqui, Adão é apenas um pouco mais alto que Eva, e não é um homem propriamente bonito, é um homem comum, robusto, sim, mas sem nada que o destaque em relação à compleição ou às feições de um homem médio. Ao contrário, aqui, Adão aparece com seu rosto parcialmente tomado pela barba, e com um rosto relativamente marcado por feições rústicas, como se fosse um homem do povo. Claro, vemos seu tórax forte, mas nada muito mais forte que o tórax que um homem comum. Nem suas pernas se destacam em termos apolíneos, seja em formato ou em força. Não, aqui, Adão é um homem verdadeiramente comum, e do qual nós descendemos, segundo o dogma cristão.

Masaccio._Head_of_Eve._Expulsion_from_the_Garden_of_Eden._Brancacci_Chapel.jpg

Já Eva, por sua vez, não é nada bonita. Ela é ligeiramente menor que Adão, como de se esperar, mas, ao invés de ser uma matrona com corpanzil atraente, é uma mulher de quase meia idade, com formas ovais, braços longos e pouco peito. Mas, mais que isso, ela tem um rosto também muito comum, nada bonito, numa expressão de dor absurda, como se estivesse lamentando não por si mesma, necessariamente, mas por algo mais: por nós. Eles, em suma, saem do paraíso, são expulsos, apresentando em suas dores um destino maior que o deles mesmos. Tanto que Adão - como os comentadores do vídeo bem ressaltam - nem mostra realmente seu rosto, tão condoído está de seu erro, de seu destino (agora, destino). Vemos também um anjo expulsando-os do Éden, e uma sombra por detrás apenas de Adão, que passa toda a ideia de uma morte a segui-los (porque agora eles podem morrer).

Aproveito para notar um aspecto que me chamou a atenção recentemente. Adão deixou-se trair por Eva por gostar dela. Nesse sentido, é como se ele tivesse recusado os avisos de Deus em nome de uma espécie de atração, sedução ou mesmo amor. Ou seja, é como se o amor entre dois seres humanos, na medida em que tenha sido cotado acima do amor a Deus, tenha causado o mal. O primeiro mal no mundo. Mas é só uma digressão.

Pintura

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Na pintura, em si, o que mais me chama a atenção são as suas dimensões (muito alta, e bastante estreita), assim como a disposição das figuras, em movimento, e saindo de um local (que é mal apresentado), meio que criando uma ilusão de movimento num espaço bastante exíguo. É uma tela que, em si, me causa bastante estranheza, e que não faz com que eu me sinta muito bem ao vê-la. Parece estranha, quase deslocada, embora, como podemos ver no painel real, ela pareça combinar com o local e com as intenções dos painéis todos criados ao seu redor.

É muito comovedor ver como um artista genial como o jovem Masaccio interpretou uma cena clássica, bem melhor que qualquer filme a respeito.

Espero que tenham apreciado.

800px-Masaccio-TheExpulsionOfAdamAndEveFromEden-Restoration.jpg


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