o olhar amor na arte após o fim da arte e da filosofia

Veja ao seu redor - a saída existe e está em tudo e em todos nós

Contreraman

Antes:
E as coisas que continuam já se foram. E as que se foram continuam para nunca terminarem. Até um fim que nunca vem.

Depois:
Vale o que tem amor.

Amor a gente recebe amando

Porque o amor, pelo que venho notando, geralmente se impõe às coisas pequenas, aos maus humores, às incompreensões. Ele aparece aos poucos, sempre, e se apresenta, quando existe, de formas que a gente tem que aprender a identificar.


191054_5ofRksdH06oWSQNMYPmIdpnls.jpgSempre fui um sujeito com baixa auto-estima. Que não acreditava quando alguém gostava dele. Que desperdiçou chances por causa disso. Que ficou sozinho com o tempo, e que não conseguia chamar a atenção das meninas. Depois, me casei e perdi minha mulher por desatenção. Por não saber valorizá-la nem me valorizar. Passou-se um tempo e perdi outra mulher, por não saber conjugar sua atração em minha direção com meu desejo.

Ocorre que esse tempo todo - mais de 40 anos - eu nunca soube realmente o que era amor. Não irei entrar no porquê disso, só sei que isso é verdade. Isso é verdade porque, passados alguns meses, e me relacionando com outra pessoa, finalmente descobri o que o amor era - e é. Deixei de ter medo e passei a enxergar. Foi algo muito denso e forte - um processo pelo qual ainda passo, diuturnamente, e que envolve em grande medida saber o que é me amar e amar ao outro. Não estou com ela, agora, mas eu a amo e, embora não tenhamos nada fixo, nutro esperanças de que um dia dê certo. Mas não sofro.

É por causa dessa minha trajetória que eu estranho quando tentam identificar amor com sofrimento. Aqueles amores sofridos, de pessoas que não se deixam gostar, ou mesmo nossos, de pessoas que gostam de nós mas às quais relutamos em nos entregar. Claro que até que as coisas funcionem num casal, seja lá de que forma ele for, leva muitas vezes tempo, bastantes sapos engolidos, e por vezes discussões ou mesmo brigas. Claro que em termos de amor geralmente as coisas não acontecem com facilidade. Levam tempo e bastante suor - assim como lágrimas.

Mas uma coisa que aprendo, sempre mais, é que o amor, quando é verdadeiro, geralmente não combina muito bem com sofrimento. Noto, ao contrário, que quanto mais amamos a pessoa que queremos conosco, e mais sabemos lidar com ela, mais conseguimos mostrar nosso amor - e sermos correspondidos - sem que necessariamente tenhamos que sofrer ou arrancar os cabelos com as possíveis incompreensões de parte a parte. Porque o amor, pelo que venho notando, geralmente se impõe às coisas pequenas, aos maus humores, às incompreensões. Ele aparece aos poucos, sempre, e se apresenta, quando existe, de formas que a gente tem que aprender a identificar.

Mas eu não escrevo isso sem um pouco de dor. Porque lembro de minha esposa, de nossas tentativas, e reparo como eu estava fechado ao amor, naquela época, como eu a fazia sofrer à toa, sem perceber, e como sofria também com coisas menores, sem precisar. Ocorre que eu tinha um problema, que vim a identificar muito depois, e era esse problema que atrapalhava. O problema, noto hoje, em geral era meu, mas ela também tinha suas questões. Com o tempo, não soubemos lidar com ambas, as dela e as minha, e fomos nos afastando. Mas, quando ela tentava mais, eu realmente parecia não conseguir. Meu problema radicava em minha família, numa descrença anterior, numa dor que perduraria vários anos até depois de nossa separação.

Mas hoje, quando me reparo amando a garota com que me relaciono, não sofro. Tomo atitudes que lhe dizem respeito, ajudo-a na medida do possível, tento adivinhar seus problemas e soluções a eles, e a conheço assim cada dia mais. Ela aos poucos se deixa levar por meus agrados, agrados de amigo por enquanto, mas expressa bastante fortemente como confia e gosta de mim. Os sinais são de leve, e surgem quando eu menos espero. Surgem de forma inopinada, e mal consigo reagir quando aparecem. Mas surgem. Ela sabe que eu a amo. Isso tem que ficar claro, aqui, neste relato. Mas claro, vivemos num mundo de acontecimentos. Vai que surge mais alguém em minha vida. Ou na dela. Nunca sabemos o que vai acontecer a seguir.

Mas mesmo que eu a ame tanto, e realmente a amo, não sofro. Lido com ela como posso, e tento tocar a vida com a relação do jeito que vai. Não me apoquento com detalhes, e nem crio fixações em meu amor. Tenho refletido bastante a respeito dele, e noto que é realmente sincero. Mas que muda, cresce, se transmuta e se transforma em coisas que sempre me surpreendem. É um amor vivo, que não depende de uma visão dela que eu mantenho para mim, como propriedade. Não, ela é livre, é claro, e se nota meu amor talvez um dia chegue até mim. Posso perder a paciência até lá, e procurar (ou encontrar) outra pessoa, claro. Mas por enquanto espero. E curto a espera.

Meu pequeno aprendizado amoroso me mostra, assim, que amar não é deixar-se levar por ilusões. Não é também esperar até que nossa vida acabe. Não é suportar qualquer coisa. Não é fazer qualquer coisa. Não é se dispor a fazer algo que jamais alguém mais faria. Nem é se dispor a sofrer até o infinito. Não, amar é algo propositivo, a que nos dispomos, e em função do que desejamos viver. Por isso, quando amamos vivemos, e curtimos a vida que passamos nesse processo. Porque se por amor entendemos algo que nos faz sofrer para além de nós mesmos talvez alguma coisa esteja errada. Talvez a gente não se ame o suficiente sequer para merecer esse amor.

Quem sabe.


Contreraman

Antes: E as coisas que continuam já se foram. E as que se foram continuam para nunca terminarem. Até um fim que nunca vem. Depois: Vale o que tem amor..
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