o olhar amor na arte após o fim da arte e da filosofia

Veja ao seu redor - a saída existe e está em tudo e em todos nós

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Antes:
E as coisas que continuam já se foram. E as que se foram continuam para nunca terminarem. Até um fim que nunca vem.

Depois:
Vale o que tem amor.

Crucifixo de Padova, de Giotto de Bondone: Um sinal de grandeza e pequenez do Eterno

Vemos uma cruz nada simplória. Vemo-la dominando nossa visão, com um homem comparativamente pequeno, frágil, crucificado. Um homem com cor esmaecida, como se morto há algum tempo, num estado deplorável, mas ainda assim formoso.


Giotto._the-crucifix-_c.1317_Padua,_Museo_Civico-1.jpgÉ sobremaneira gentil apresentar a vocês mais uma obra-prima de Giotto de Bondone, esta também originada da Capela dos Scrovegni, ou Capela Arena, e hoje conservado do Museu dos Ermitões. Feita entre 1303-1305, esta cruz, ou este crucifixo, liberta em nós sensações diversas, que irei aqui apresentar. Mas é uma obra que, embora tenha algo a ver, não é das mais citadas pelos compêndios de arte, que preferem outras obras do mesmo artista com o mesmo tema.

A Cruz

Giotto-Crucifix-Padua.jpg

Vemos uma cruz nada simplória. Vemo-la dominando nossa visão, com um homem comparativamente pequeno, frágil, crucificado. Um homem com cor esmaecida, como se morto há algum tempo, num estado deplorável, mas ainda assim formoso. Vemos um símbolo de fraqueza e entrega numa cruz enorme, dourada, repleta de ornamentos e de símbolos. Vemos uma aparente contradição. Mas não há contradição alguma. Vemos a apologia da grandeza da Cruz por meio da entrega de um corpo, o daquele que nos salva.

Noto que, dos crucifixos que eu tenho em casa, aqueles que mostram o corpo de Jesus parecem inspirar-se neste, de Giotto. Pois parecem concatenar em si essa contradição aparente que nos enleva porque nos reflete a grandeza no pequeno, sem esconder a grandeza, e sem tornar o pequeno algo ignóbil. Vemos que a defesa e a apologia do que é grande aparece na própria contradição, com todos os seus signos, demandando a necessária pesquisa, pois tudo remete a algo que por um lado já aconteceu, mas que por outro se repete, e pela sua repetição nos atiça, nos chama a si.

A base da cruz mostra um crânio, que remete ao Gólgota, à caveira, sim, mas que nos lembra de onde viemos e para onde vamos: para o pó. Vemos o sangue escorrendo e de alguma forma nos transtornando, porque é pelo sangue que ele morreu, mas também é pelo sangue que ele nos recebe de volta. Tudo, claro, exigindo que sigamos os seus passos, enquanto mortais que se sabem ausentes de glória, repletos de falhas, e devendo, pelo perdão dos pecados, ser redimidos do que jamais deixarão de ser.

Vemos também que a cruz não parece apenas a cruz em que Cristo foi morto. Pois ela se expande, ocupa maiores espaços, serve quase de leito ao corpo dele. Pois vemos que por detrás dele a Cruz ocupa um espaço maior, parece um tapete, parece um descanso, como se fosse merecido. Mas é esse leito, esse descanso, que nos chama, e apela ao nosso coração. Pois vemos que por detrás desse leito tem uma mensagem, em nada restrita ao ato que perdura na ação da crucificação, mas para além dela, para aquilo que ele dizia, e que o condenou, pela nossa própria substância, à sua morte - que iria levar à sua ressurreição.

Vemos também que a cruz é luxuosa, repleta de detalhes dourados, meio que nos falando do seu próprio valor, algo que foi construído para além do seu exemplo, para nos convencer de que ele tinha botado a primeira pedra, e que essa instituição surgida da pedra é que o defende, e o mostra, e o demonstra, como nossa salvação. É um luxo que é criado ao seu redor, mas que reflete o luxo da mensagem, da imagem e do nosso destino.

Pois é como se com essa cruz gloriosa, dourada, que se contrapõe ao corpo quase nu e desvalido de Jesus, nos dissesse o que nos espera - se a seguirmos. Pois a cruz é como que uma promessa, algo a nos falar para além do seu exemplo, para nos prometer o Paraíso, que será reencontrá-lo, a ele, que se foi por nós.

Vemos também o sangue. Um sangue que assume uma cor contraposta ao corpo morto. Um sangue que parece vivo, e que parece pular em nossa direção. Um sangue que escorre, e que embora não manche em definitivo a cena nos mostra a vida por detrás do corpo morto. Vejo a ferida que o soldado romano fez no corpo de Jesus e quase vejo o sangue jorrando, e em nossa direção. Como que nos convidando a pegá-lo, a fazer usufruto, a tomá-lo para nós, como prova de sua presença viva - enquanto sangue - em nosso próprio sangue - ainda vivo. Noto que o sangue presente não é, assim, como o sangue em outras pinturas, ou mesmo esculturas, quase um sangue de prova do sacrifício. Aqui o sangue parece ter uma personalidade própria, a se mostrar presente em nós.

Note-se também que o halo que cobre a cabeça do Cristo não é um halo simples, como de santo, incorpóreo, mas é um halo luxuoso, que se impõe pela majestade, e que está na cabeça de um morto. É um halo imponente, de alguém que por ter se ido suplantou a todos nós e se tornou o Rei dos reis. Pois é um halo que não parece da mesma matéria que o halo de Maria ou de São João, postados, cada um, a um dos lados da cruz, próximos às mãos soltando sangue. Os halos de Maria e de João são diversos, comedidos, quase invisíveis, combinando com o dourado de toda a cruz. O halo de Jesus é um halo que quase responde pela estrutura da cruz, quase parece segurar a figura e dar razão à sua geometria não tão clara, não tão homogênea. É um halo que sustenta tudo, apesar de não consistir na cruz em si.

Nota-se também quase delicadeza em todo o tratamento dado ao cadáver desse que em três dias iria ressuscitar. Pois a cruz não é grosseira, não pensa em mostrar o sofrimento, que já se foi, nem pensa em mostrar o caráter rústico do que deve ter sido. A cruz, do jeito que está, é quase uma celebração, uma conquista por detrás do sacrifício desse que se foi - mas que iria voltar e que nos irá receber quando formos até ele. A cruz é sublime, mais que bela, e apesar de repleta de ornamentos, é uma cruz simples, de época, mas grandiosa. Não há nada nesta cruz que convide a pensamentos pequenos. É uma cruz para aquilo que nos é prometido, e que teremos quando nos formos com ele - se acreditarmos.

Toda essa cruz, finalmente, é uma lição. É um aprendizado pelo qual precisaremos passar se entendermos o que significa, e se nos dispusermos a ser diminuídos pelo seu peso, que por outro lado pretende nos elevar. Não é uma cruz humilde, é uma cruz professoral. Uma cruz que pretende nos ensinar, e nos garantir um futuro diante de nossa própria carne, sem qualquer futuro, diante de um ser em nós, pecador, que nos convida a errar o tempo todo. Mas, não sendo humilde, é uma cruz nossa, humana, que entendemos para nós como sendo aquilo que poderemos merecer se formos como ele foi: humilde, humano, grandioso, Deus.

Espero que tenham apreciado.

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