o olhar amor na arte após o fim da arte e da filosofia

Veja ao seu redor - a saída existe e está em tudo e em todos nós

Contreraman

Antes:
E as coisas que continuam já se foram. E as que se foram continuam para nunca terminarem. Até um fim que nunca vem.

Depois:
Vale o que tem amor.

Fé em Vícios e Virtudes, miniatura de Giotto de Bondone

Nesta "Fé", Gombrich se centra no fato de que esta figura parece uma estátua, mas não é. Que parece estar presente a nós, enquanto estátua, que podemos parecer tocá-la (o que não podemos).


3689124663_3bf0d508f6_b.jpgPor volta de 1305, o grande Giotto (também conhecido como de Bondone) terminou uma encomenda que Enrico Scrovegni lhe fez para que pintasse todo (ou quase todo) o credo cristão (ou católico). Os detalhes da encomenda podem ser capturados em qualquer pesquisa com Google e entrada na Wikipédia (a mais completa é a que está em inglês). Lá teremos uma sensação mais tridimensional da época, das pessoas que envolviam a encomenda, dos motivos para algumas menções em outras obras de arte (como a Divina Comédia, de Dante), e de obras que não irei comentar aqui. Aqui, pretendo apenas centrar-me na miniatura Fé, da série Vícios e Virtudes, que existe no local.

Gombrich, em sua A História da Arte, dedica uma página inteira a esta imagem. E mais algumas linhas a começar a falar de Giotto, e de suas descobertas (ou outro nome para isso) de representação de figuras humanas ou simbólicas. Nesta "Fé", Gombrich se centra no fato de que esta figura parece uma estátua, mas não é. Que parece estar presente a nós, enquanto estátua, que podemos parecer tocá-la (o que não podemos). Ou seja: se refere especificamente ao fato de a imagem parecer ser real, em corpo, e que essa ilusão de profundidade não teria sido feita (ou prenunciada antes) em mil anos. Não sei se ele está certo. E compreendo o capital de novidade que cerca essa figura. De fato, é radical a impressão que temos ao vê-la. A luz parece bater nela, parece que ela se aproxima a nós, seu vestido parece real, e sentimos que podemos tocar nele, mesmo feito em outro material, que não pano. Sentimos que o enquadramento recua, e que podemos colocar uma moeda nele. Tudo é infinitamente real à nossa presença. Mas não é.

Quero aqui, porém, me concentrar em outro aspecto derivado dessa pintura. Um aspecto mais humano, distanciado da prática do artista, e que diz respeito ao tema, e a como os recursos de pintura proporcionam uma afirmação ainda maior do que aparece e nos influenciam. Porque, no fundo, o que considero aqui é em que medida a pintura pode nos influenciar, e pode fazer com que o desejo de quem encomendou a peça seja satisfeito. Pois ele busca a comoção, de alguma forma; visa nos atrair, visa nos convencer, e o contrato de um artista do porte de Giotto não deveria ter sido em vão, nem envolver uma pequena quantia de recursos. Deve, à sua época, ter sido uma encomenda suntuosa, para nobres com real desejo de verem suas vontades atendidas, e olhe que aqui o encomendante tenta falar com Deus, com sua comunidade, com a arte e com a posteridade (ou seja: nós).

A Fé

Giotto_di_Bondone_-_No._44_The_Seven_Virtues_-_Faith_-_WGA09271.jpg

Pois, então, penso. O que surge em nossa mente quando é mencionada a fé? Claro, surgem imagens. A imagem de Cristo crucificado, de sua via crúcis, de filmes em que a via crúcis é reproduzida (em tentativas), ou a própria cruz, ou essas imagens que conseguimos facilmente captar no Google quando colocamos a palavra fé ou faith ou mesmo crença. Mas, quando olhamos para nós mesmos, encaramos a fé de que forma? Como ela se corporifica enquanto imagem, mas agora distanciada do credo cristão? Como ela aparece? Em que ela se baseia? Quais são os objetos em que ela se sustenta?

Nesta figura, Giotto nos apresenta a fé incorporada em uma mulher bonita, mas de traço bastante parecido ao de uma estátua, que carrega dois objetos nas mãos: uma cruz e um pergaminho (um texto). A "estátua", claro, aparece vestida. Sua vestimenta é uma longo vestido, que escorre pelo chão, e mais um véu que cobre as costas da imagem humana. Tem também uma espécie de cobertura em sua cabeça, que vem acompanhada por um véu que escorre pelas costas. É uma figura humana, sim, mas mais que tudo simbólica. É como simbolizasse uma deusa, ou uma figura de simbologia, que carrega objetos em mãos que, estes sim, resumem em que consiste seu título: Fé.

Nessas mãos, estão a cruz, claramente identificada, mas transformada numa espécie de bastão com uma cruz em cima, meio que indicando algo a ser tornado regra, e esse pergaminho. Não conseguindo ver o que está escrito no pergaminho (mas há algo escrito, e identificável na língua da época, que devia ser o latim), estimo que ele queira se referir ao saber. Ou seja, a fé estaria sendo condicionada a carregar a cruz, e a usá-la como condutora na vida, e ao saber, à sabedoria, contida nos Evangelhos.

Vida comum

Ocorre que na vida comum a gente também se pergunta sob que formas a fé pode se tornar algo concreto, em termos de imagem. E realmente quem tem fé carrega sua cruz, quem tem fé não desiste, e persiste, quem tem fé percebe que a lógica da salvação passa pelo sofrimento, e faz jus a ele, sentindo que precisa arcar com um preço para ela, e que maior preço que o da Cruz? Não existe maior. Mas, por outro lado, para poder carregar a própria cruz sabendo o que se faz é preciso da sabedoria de quem nos fornece o exemplo, e a saída.

E essa sabedoria está, sim, nos Evangelhos. Outros dirão que essa sabedoria está em outro local. Pode até ser que seja resumida, por outros, de forma mais acessível. Mas a sabedoria da fé cristã está nos Evangelhos, e em nenhum outro lugar. Sim, em nenhum outro lugar. Ocorre que, quando nos defrontamos com a personificação da fé na figura de uma espécie de matrona carregando a cruz e o saber, percebemos o quanto há de verdade nisso, e o quanto somos derivados da busca por meio disso. O quanto percebemos que, realmente, nossa fé se apoia em alguns pilares básicos, e que eles, sem o menor questionamento, descansam na Cruz e nos Evangelhos. É nessa posição que nós nos emocionamos, e vemos essa figura avançar para nós, como se estivesse realmente à nossa frente, enquanto estátua. E percebemos a gravidade da situação, assim como a seriedade da motivação para tudo. É fácil se emocionar. Pode parecer que não, para quem não acredita, mas basta perceber o quanto de verdade há nisso tudo que se percebe por que Giotto embarcou nessa de traduzir a imagem de forma tão realista diante de nós. Porque o motivo é importante. E único.

800px-CappelladegliScrovegni.jpg

No link em inglês da Wikipedia, existem outros links para outras figuras dessa série, assim como para as pinturas que povoam aquela capela, e que dariam para muitos textos mais, tentando entender de fato em que medida a tradução que Giotto fez para os temas nos abarcam e vão muito além de nós para alcançar a eternidade.

Inconstância

Giotto_di_Bondone_-_No._52_The_Seven_Vices_-_Inconstancy_-_WGA09279.jpg


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