o olhar amor na arte após o fim da arte e da filosofia

Veja ao seu redor - a saída existe e está em tudo e em todos nós

Contreraman

Antes:
E as coisas que continuam já se foram. E as que se foram continuam para nunca terminarem. Até um fim que nunca vem.

Depois:
Vale o que tem amor.

Montagner, ou o que é viver

Pois existem valores maiores. E existem situações em que sentimos que esses valores aparecem, e nos dizem o que fazer para além da possibilidade de decidirmos racionalmente a respeito.


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Domingos Montagner, o famoso ator da Globo e membro do La Minima que faleceu na última semana, morava perto da cidade em que moro. Diziam que ele era um sujeito simples, simpático, que gostava das pessoas e de tudo em sua vida. Deve ser verdade. Mas aqui, para além do necrológio que apareceu em toda a imprensa, eu gostaria de destacar alguns aspectos do que foi divulgado para que possamos pensar em nós mesmos.

No depoimento que deu à tv, Camila Pitanga diz que Domingos, enquanto estavam nadando (embora ele não soubesse nadar), a salvou. Ela diz, com todas as letras, que ele não a agarrou nem a pegou, que literalmente a salvou. Em seguida, ela teria nadado e se segurado nas rochas, enquanto ele foi capturado pela correnteza. Quando li, na matéria que saiu no domingo, sobre isso eu parei para refletir. Pode ser que ela esteja exagerando, claro. Mas o fato é que todos nós sabemos de situações em que as pessoas literalmente salvam as outras, e falecem no caminho. Pessoas que pulam na frente de ônibus, que seguram o outro no momento exato, e por aí vai.

É preciso muita grandeza de espírito para fazer algo desse tipo. Claro, em grande medida os reflexos fazem a sua parte, e muitas vezes ajudamos alguém porque os reflexos nos levam a isso. Mas no caso do ator da Globo a área era perigosa, e ele devia saber o que estava fazendo. Protegendo a Camila, sua amiga, a atriz, a mulher, de algo que parecia se avizinhar - e do que ele não iria conseguir escapar.

Pois, mais que grandeza de espírito, as pessoas que saem para salvar as outras, ou que fazem coisas pelas outras que não fariam consigo mesmas, ou que se sacrificam a ponto de afetarem a saúde ou outros aspectos da vida, precisam ter em si uma convicção ferrenha de que vale a pena. De que é a atitude certa a tomar - seja lá o que vier a acontecer.

Esse sentimento eu tento identificar nos primeiros cristãos, tentando atribuir o sentimento ou a ação a alguma moral maior do que nós mesmos, ou mesmo tento encontrar em alguma bondade inata das pessoas. Porque há situações em que sentimos realmente que a coisa pode dar muito errado. E que talvez seja o caso de você ou eu. Não você E eu. Mas um ou outro. Como escolher?

Pessoas bem resolvidas não devem ter problema em identificar a gravidade de certas situações e em encarar o que vier a acontecer de forma plácida, muito embora as situações em que estejam metidas possam ser trágicas. Porque todos nós sentimos que temos algo a fazer na vida, que precisamos de mais tempo para nossos sonhos. Mas poucos são os que podem se dar ao luxo de desistir de tudo por algo relativo a outra pessoa, a outra vida.

Acontece, porém, que existem valores maiores. Que existem situações em que sentimos que esses valores aparecem, e nos dizem o que fazer para além da possibilidade de decidirmos racionalmente a respeito. Que existem pessoas que nos dizem muito, e que sentimos que devemos proteger. E que devemos até mesmo nos sacrificar por elas. Porque, afinal, o que é sacrifício, a não ser isso mesmo, doar-se inteiramente por alguém, seja lá o que vier a acontecer? O sacrifício faz parte de nossa civilização, e nossos valores têm muito a ver com a ideia que o embasa.

Tendo a crer que o Domingos, que vi pessoalmente apenas duas vezes, apesar de eu também ser ator (desconhecido), deve ter pensado claramente que havia coisas a preservar, a proteger, e que ele saberia se conduzir naquele momento trágico. As águas porém o engolfaram e ele veio a se afogar. Mas, mesmo imaginando o último olhar dele, sentindo quanto ainda queria da vida, imagino que ele tenha sentido que sua vida valeu a pena. Poucos fazem o que ele fez. Poucos passam por isso e escapam. Resta-nos congratulá-lo como homem, profissional e ser humano.


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Antes: E as coisas que continuam já se foram. E as que se foram continuam para nunca terminarem. Até um fim que nunca vem. Depois: Vale o que tem amor..
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