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Antes:
E as coisas que continuam já se foram. E as que se foram continuam para nunca terminarem. Até um fim que nunca vem.

Depois:
Vale o que tem amor.

O Éden - de volta ao mito que constrói nossa ideia de vida: História, Mito, Crenças e Religião (1)


É como se nascêssemos sob a égide de uma história que não sabemos se é verdade. O Éden invade nossa mente desde que nós nascemos, se o for num lar cristão ou católico. E sendo uma figura extremamente poderosa para nos convencer do que somos, como que escapa de nosso controle e avaliação. Parecemos viver sob seu domínio, ameaçados de não poder voltar a ele.


metsa-eden.jpgAssim como fiz com a série de quatro artigos em que comento o começo do Gênesis, baseando-me em diversas Bíblias, algumas bastante bem documentadas, assim como em livros sobre mitos e histórias de religiões, comento agora outro aspecto basilar da crença cristã: o Jardim do Éden. Confesso que ainda vacilo um pouco quanto a se comento esse livro, tão importante para a história do Cristianismo. Mas me decidi por fazer mesmo isso, na medida em que existem tantas dificuldades com o tema, e tantos possíveis mal entendidos na compreensão do livro do Gênesis, especialmente nessa parte, bem no começo de 2, 5. Usarei também alguns trechos de "A Queda no Tempo", livro em que o filósofo e escritor romeno Emil Cioran discute Adão e seu destino. Deixo claro que sou cristão, que me reaproximo da religião há poucos meses, e que, apesar de conversar livremente sobre o assunto, considero-o extremamente sério, sendo pedra basilar num livro e numa religião que mudou minha vida. Mas não pretendo aqui ser chato nem insistente em minha crença. Pois é preciso ver o que lemos tal qual é, e não apenas como nos dizem.

Gênesis

Antes de mais nada, deixem-me recapitular o livro de Gênesis. Mircea Eliade e a tradição das Bíblias concordam com que o livro tem duas origens, expressas claramente no fato de que, até 2,5, o mito da criação do mundo é um, e que, a partir dali surge o mito sob outra roupagem, menos expressiva, mais pessimista, que é onde cabe o jardim do Éden. As tradições são de origem sacerdotal e javista, respectivamente, e dizem respeito aos momentos históricos e condições segundo as quais os livros foram feitos. No primeiro caso, o texto deve se originar do exílio na Babilônia (586-538 a.C.), enquanto no segundo o texto é da época do rei Salomão (séc X a.C.), ou seja, muito anterior. Note-se também que existem diversas discordâncias quanto às traduções, sendo que a Bíblia do hebraico, por exemplo, no mito inicial, da criação do mundo, menciona "céus", ao invés de "céu", isso sem contar diversos outros detalhes.

Éden

Ocorre que o Éden aparece na segunda parte, após 2,5, e sob um clima portanto mais pessimista, em que os locais estão definidos, e em que o homem é criado a partir do barro, e em que a água é considerada fonte e símbolo da vida. Nesse segundo relato, em 2,8, Deus plantou um jardim, num lugar chamado Éden, que fica no Oriente, e no qual ele colocou o homem, que acabou de criar em 2,7: "Deus Javé modelou o homem com a argila do solo, soprou-lhe nas narinas um sopro de vida, e o homem tornou-se um ser vivente". Ou, na Bíblia em hebraico: "E o senhor Deus formou o homem do pó da terra e soprou nas narinas dele o fôlego da vida; e o homem foi feito alma vivente". No caso do Éden: "E plantou o senhor Deus um jardin no Éden, da banda do Oriente, e Ele pôs ali o homem que tinha formado".

Neste momento, é bom entendermos o que é o mito, segundo Eliade, e por que ele assume suas características. Tudo o que irei citar está em Mito e Realidade, um livro facilmente achado na internet. Diz Eliade: "De modo geral pode-se dizer que o mito, tal como é vivido pelas sociedades arcaicas, 1) constitui a História dos atos dos Entes sobrenaturais; 2) que essa História é considerada absolutamente verdadeira (porque se refere a realidades) e sagrada (porque é a obra dos Entes sobrenaturais); que o mito se refere sempre a uma "criação", contando como algo veio à existência, ou como um padrão de comportamento, uma instituição, ou uma maneira de trabalhar foram estabelecidos; essa a razão pela qual os mitos constituem os paradigmas de todos os atos humanos significativos; 4) que, conhecendo o mito, conhece-se a "origem" das coisas, chegando-se, consequentemente, a dominá-las e manipulá-las à vontade; não se trata de um conhecimento "exterior", "abstrato", mas de um conhecimento que é "vivido" ritualmente, seja narrando cerimonialmente o mito, seja efetuando o ritual ao qual ele serve de justificação; 5) que de uma maneira ou de outra "vive-se" o mito, no sentido de que se é impregnado pelo poder sagrado e exaltante dos eventos rememorados ou reatualizados".

É bastante curioso ler o livro de Eliade. Mas não podemos deixar de entender que o jardim do Éden é um mito, com todas suas características inerentes, e que portanto ele não está na base de uma realidade concreta, verificada historicamente, mas que é um relato que faz parte de uma crença e que passa a justificar um comportamento que nós temos ou podemos ter em face à realidade.

Claro, não se pode negar que este trecho do Gênesis tem influência de outros credos e religiões, nem que muitos dos fatos concernentes ao relacionamento de Adão com Deus no Éden têm relação com outros relatos, advindos de outras fontes. Não se pode inclusive negar que o relato do Éden, no caso geográfico, tenha similitude com a região mesopotâmica, em que há um rio que se divide em quatro braços. Literalmente, da Bíblia Pastoral: "Um rio saía de Éden para regar o jardim, e de lá se dividia emquatro braços. O primeiro chama-se Fison; é aquele que rodeia toda a terra de Hévila, onde existe ouro; e o ouro dessa terra é puoro, e nela se encontram também o bdélio e a pedra de ônix. O segundo rio chama-se Geon: ele rodeia toda a terra de Cuch. O terceiro rio chama-se Tigre e corre pelo oriente da Assíria. O quarto rio é o Eufrates". Note-se como alguns dos acidentes geográficos realmente existem, e como tudo parece estar perfeitamente colocado, num interstício entre mito e realidade. Claro que isso confunde ainda mais o entendimento. Quantos exploradores não devem ter perdido a vida tentando achar o Éden!

Paraíso

A ideia de um paraíso na terra é, segundo Eliade, recorrente em lugares para além do Eufrates e do Mediterrâneo. Neste caso, assim como nos outros, o paraíso se encontra no centro do mundo, num lugar de onde brota um rio com quatro braços. Mas neste ponto é que as similitudes com a realidade assumem realmente um caráter mitológico. O fato de ali se elevarem a árvore da vida e a árvore do conhecimento do bem e do mal. Note-se que é em meio ao jardim que surgem essas duas grandes árvores. Conforme a Pastoral: "Javé Deus fez brotar do solo todasas espécies de árvores formosas de ver e boas de comer. Além disso, colocou a árvore da vida no meio do jardim, e também a árvore do conhecimento do bem e do mal". Em hebraico: "E o senhor Deus fez brotar da terra toda árvore agradável à vista e boa para se comer, e a árvore da vida no meio do jardim, e a árvore do conhecimento do bem e do mal". Note-se que aqui, se poderíamos ainda acreditar no valor histórico do relato, somos defrontados com algo que é até difícil de imaginar: uma árvore da vida e uma árvore do conhecimento do bem e do mal. Pois é claro que estamos no paraíso, e é claro que somente aqui podemos nos defrontar com uma história como essa. Eliade nota que "da proibição que Deus ordena a Adão depreende-se uma ideia desconhecida em outros ambientes: qual seja, o valor existencial do conhecimento". Mas vamos com calma, porque existem dúvidas aqui que precisamos aquilatar.

O que faz uma árvore da vida no centro de um jardim mitológico? Pois não sabemos o que fazer com ela. Não imaginamos que dela se deva comer (todas as outras árvores estão aí para isso), nem imaginamos que nela devêssemos interferir, muito menos tocar. Nota-se um caráter sagrado na existência dessa árvore. Nota-se que nela não podemos interferir, embora isso não nos seja dito. Nos é dito, ao contrário, isso da outra árvore, da árvore do conhecimento do bem e do mal. Ou seja, nos é dito que não devemos comer do fruto da árvore que nos permite conhecer algo moral, a distinção do bem e do mal. Imaginamos os problemas e questionamentos a que as pessoas, naquela época, deveriam se defrontar em questões morais desse tipo, sem existir um código de normas a seguir. Imaginamos que esse deveria ser um baita problema entre eles, e que poderiam imaginar uma solução mágica à resolução desse tipo de problema. Imaginamos até que tenham criado alguma ideia mágica para isso. Neste caso, a árvore daria esse fruto, mas dele não poderíamos tocar muito menos comer. Porque poderia nos causar a morte.

Bem e mal

Note-se então que estamos no âmbito do mito. Que, embora existam aspectos que nos aproximam de uma realidade concreta, a própria ideia de duas árvores (da vida e do conhecimento do bem e do mal) nos aproxima de um relato que tem mais caráter exemplar do que histórico. E que nos vemos diante de personagens que também têm um caráter mais didático que concreto. Pois é nesse contexto, de mito, que vemos o surgimento da humanidade, e que experimentamos a colocação, em história, do grande dilema a que o ser humano estará sempre sujeito. Neste mito, começa a colocação de que o homem é o próprio responsável por seu destino, ao desobedecer, ao não cumprir a ordem de quem o criou. O que de certa forma é estranho, porque o ser humano foi criado com raciocínio, e aparentemente com a capacidade para distinguir o bem do mal.

Mas transcrevamos agora a ordem que Deus deu a Adão. Pastoral: "Javé Deus tomou o homem e o colocou no jardim do Éden, para que o cultivasse e guardasse. Javé Deus ordenou ao homem: "Você pode comer de todas as árvoresdojardim. Masnão pode comer da árvore do conhecimento do bem e do mal, porque no dia em que dela comer, com certeza você morrerá". Hebraico: "E tomou o senhor Deus ao homem e o pôs no jardim do Éden para o lavrar e para o guardar. E ordenou o senhor Deus ao homem, dizendo: De toda árvore do jardim comerás livremente, mas da árvore do conhecimento do bem e do mal, dela não comerás; porque, no dia em que dela comeres, certamente morrerás".

Note-se aqui que Adão não é proibido sequer de comer da árvore da vida. Mas que ao ser colocado no jardim é como se ele fosse colocado como guardião, como espécie de função ao ser entronizado como detentor das capacidades por tudo aquilo que é criado. Ou seja, como se Deus tivesse criado tudo e tivesse colocado à disposição do homem, mas para que este guardasse o que foi criado, como se fosse seu, sem o ser. Sendo que nessa tarefa o ser humano, o homem, desafiou Deus e o traiu. Note-se como isso nos fornece uma ideia mitológica que explica por que o homem está no mundo podendo dominar todos os seres vivos e mesmo a terra, por meio do cultivo, e como nessa função ele parece não ter conseguido lidar com o fato de que tudo isso demanda dele o cumprimento de um dever: de não comer da árvore do conhecimento do bem e do mal. Ou seja, como se ele pudesse tudo, e se mantivesse como guardião de tudo, na medida em que não se dispusesse a ultrapassar essa linha, que é, em certo aspecto, a da ciência. Ou a da capacidade de saber o que realmente importa.

Espero que estejam gostando.


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