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E as coisas que continuam já se foram. E as que se foram continuam para nunca terminarem. Até um fim que nunca vem.

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O Éden - de volta ao mito que constrói nossa ideia de vida: História, Mito, Crenças e Religião (2)

Nesta minha nova série de textos sobre o Gênesis, recupero algumas questões pelas quais parecemos passar por cima quando lemos ou nos recordamos do que dizem do jardim do Éden. Em que medida a história é apenas um mito? Em que medida é apenas um texto tardiamente recuperado que não precisamos levar ao pé da letra? Quais são as acepções possíveis, até não cristãs, que podemos derivar dele? O jardim do Éden é apenas uma história cujo corolário devemos encarar com ceticismo?


Masaccio._Head_of_Adam._Expulsion_from_the_Garden_of_Eden._Brancacci_Chapel.jpgAntes de retomarmos o mito do Éden, é preciso entendermos que existe um ponto mal explicado aqui, ou que faz com que esse mito tenha uma característica diferenciada em relação aos mitos de sociedades ditas atrasadas. Cito Eliade: "Na maioria dos casos, não basta (para as sociedades) conhecerem o mito da origem, é preciso recitá-lo; em certo sentido, é uma proclamação e uma demonstração do próprio conhecimento. E não é só: recitando ou celebrando o mito da origem, o indivíduo deixa-se impregnar pela atmosfera sagrada na qual se desenrolaram esses eventos miraculosos".

Eu já comentei as 5 características que, segundo Eliade, fazem do mito um mito. Essas características foram elencadas no texto anterior. Mas uma aqui faz jus a ser mencionada: "que, de uma maneira ou de outra, "vive-se" o mito, no sentido de que se é impregnado pelo poder sagrado e exaltanate dos eventos rememorados ou reatualizados". Nota-se que no caso do Éden há algo estranho aqui: não pretendemos rememorá-lo de nenhuma forma, ele como que está adstrito a um tempo para todo o sempre restrito ao passado. Ou seja, é uma história mitológica que não buscamos rememorar.

Um descrente irá dizer que na missa fazemos de um mito algo presente, revivido. Tudo bem, pode ser, se formos entender o que se sabe sobre missa como algo real, em que comeríamos e beberíamos do sangue e da carne de Jesus Cristo (muitas das críticas que a religião leva são da ordem de questionar o status desse tipo de cerimônia). Mas aqui no Éden isso não ocorre. Ninguém busca retomar o exemplo de Adão, nem considera que o mito esteja sendo revivido de alguma forma em outro tipo de situação. Não, aqui o evento está restrito ao passado, e colocado como mito com ares de história efetivamente ocorrida.

Nesse sentido, o mito da criação e o jardim do Éden não faz parte de ritos. Claro, temos muitos ritos relativos à Igreja Católica e todas as igrejas de inspiração cristã resultante. Mas não temos ritos sobre o mito da criação. Isso, por um lado, mantém o mito meio afastado das cerimônias e de algo que pudêssemos reviver ou reatualizar por vontade própria. Mas também lhe dá um caráter mais sério, digamos, por não ficar apenas restrito ao caráter de história imaginária, mas, por merecer tratamento quase fidedigno, digamos, histórico, parecer história realmente ocorrida. E é por causa disso que sua simbologia importa. E que é ela que importa, acima de tudo.

Mas voltemos à história.

Éden

Há diversas formas de entender o mito do jardim do Éden e a escolha de Adão, respectivamente a ele. Primeira delas é entender a situação de Adão como sendo apenas a de um filho (criatura) que decide desobedecer à ordem do criador, que havia disposto um Paraíso para ele. Outra forma é entender a situação de Adão enquanto se deixando submeter à influência de outra criatura, Eva, sendo esta influenciada por sua vez pela serpente. Outra forma ainda é entender o caráter desse tipo de influência, em que Eva passaria a simbolizar alguma coisa de errada, ou de pecadora, em si, ou mesmo a entender o caráter da serpente nessa história. Outra forma ainda é tentar entender a posição de Adão, "condenado" a lavrar o jardim do Éden por Deus, sem que pudesse optar por isso, nem optar pelo conhecimento do bem e do mal.

Por outro lado, podemos imaginar Adão sozinho, em seus pensamentos, invejando a posição de Deus, e como se colocar diante da proibição de Deus diante da árvore do bem e do mal. Podemos também lembrar-nos de que Adão podia ter escolhido (e deve ter escolhido) comer da árvore da vida, mas que algo poderia estar-lhe sendo, em vida, restringido por não saber o que era o bem e o mal. Podemos também entender a parábola de outra forma, como se o ser humano tivesse de se submeter necessariamente a não saber o que é o bem e o mal, e que Deus estaria por detrás do seu reencontro com o paraíso ou com a verdadeira vida, a vida após a morte, ou a fuga da morte, na qual ele não poderia recair caso tivesse acreditado em Deus. São muitas as leituras, e algumas delas são fornecidas por um pensador sério sobre o assunto, o escritor e filósofo romeno Emil Cioran.

Fato é que a simbologia em meio à qual paira toda a história do jardim do Éden é bastante aberta, e nesse sentido, pegando-a por intermédio apenas do que está escrito, podemos inferir muita coisa, especialmente para nós mesmos. Eu mesmo entendia a questão apenas como se referindo à desobediência, sem entrar no mérito da escolha de comer da árvore do conhecimento do bem e do mal nem da morte resultante. Mas agora, lendo-a melhor, e com ajuda de várias Bíblias, noto seu caráter negativo, como se expressasse um destino inelutável que nos expulsa do caráter positivo do começo do Gênesis, mas ao mesmo tempo que revela nossa salvação, pois remete necessariamente à continuação da história, ao povo escolhido e ao papel de Jesus Cristo em nossa salvação. Porque notamos, com o passar do tempo, nossa insegurança quanto a sabermos o que é bom e o que é mau, e notamos também que precisamos da ajuda de Deus, revelada nos livros sagrados, para conseguirmos sair da morte e atingir a vida eterna. Ou seja, a história assume um outro caráter, mais avançado, mais relevante, em que o resto do livro assume um papel ainda maior, superior.

É nesse sentido que o Éden adquire um novo sentido para o crente. Em que ele, enquanto história mítica, passa a um imaginário que pode mudar, a depender das influências nas leituras, mas que sempre nos leva para mais além, em que queremos saber mais, e queremos saber como sair desse destino, de nossa perdição. Porque o livro continua, e ele nos revela: há salvação, e ela passa por Deus, por códigos, por histórias, e por Jesus Cristo. É quando entendemos o mito sempre de forma renovada, em nosso interior, e o revivemos sempre que passamos por provações que coloquem tudo isso em questão. Pois é assim que a religião passa a crescer em nós, em nosso interior.

Nos próximos posts retomarei o mito do Éden, mas agora com os outros fatores envolvidos, em que poderemos ver como pode ser entendida a figura de Eva, o porquê de haverem duas árvores, a da vida e a do conhecimento do bem e do mal, e esta levar à morte, e por outro lado por que a decisão de Adão não nos recrimina para todo o sempre - já adianto: porque Deus perdoa, e ninguém mais. E isso está prenunciado em histórias posteriores.

Até a próxima.


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