o olhar amor na arte após o fim da arte e da filosofia

Veja ao seu redor - a saída existe e está em tudo e em todos nós

Contreraman

Antes:
E as coisas que continuam já se foram. E as que se foram continuam para nunca terminarem. Até um fim que nunca vem.

Depois:
Vale o que tem amor.

Para ler o Gênesis: história, mitologia, crença e leitura textual (1)

Pois foi por meio de uma conversa de um vizinho aqui no meu prédio que me veio claramente que o Gênesis explica uma história, e que essa história tem a ver com uma continuação a ela, e que em última instância tem também a ver com a existência de Jesus, e seu papel nessa história toda.


the-manuscript-of-the-bible.jpgQuando a gente se defronta com o Gênesis, a gente já entende que algumas mensagens são claras, e que outras, não. Ou seja, que alguns significados envolvidos naquilo que está escrito são expressos e claros, e que outros demandam outra forma de entender o que está escrito, seja fazendo conexões com nosso conhecimento sobre mitologia, história ou mesmo a própria religião, seja fazendo conexão com simbologias diversas - isso sem contar que cada um de nós recebe o que está escrito de uma forma, nunca igual para cada um de nós.

Pois foi por meio de uma conversa de um vizinho aqui no meu prédio que me veio claramente que o Gênesis explica uma história, e que essa história tem a ver com uma continuação a ela, e que em última instância tem também a ver com a existência de Jesus, e seu papel nessa história toda. Porque quando lemos sobre o começo da história segundo a Bíblia a gente tem a tendência a deslocar a história escrita no Gênesis da história do povo de Israel em todas suas atribulações, e do papel desse povo na história de Jesus, e do papel de Jesus na questão de em que medida Israel tem a ver conosco, com os gentios, com povos que vieram depois a ser envolvidos nessa trama toda.

Não irei aqui entrar no Gênesis, o que fica para outra vez. Irei entrar num texto introdutório que a Bíblia Pastoral da Paulinas - que é uma das Bíblias que eu uso - apresenta para explicar o livro. Também tentarei me referir a Histórias das Religiões, dentre elas a de Mircea Eliade, romeno que no segundo tomo de sua história narra as influências existentes para a criação do livro do Gênesis. Irei também me referir ao ótimo texto introdutório, presente na Bìblia de Jerusalém, sobre o Pentateuco, os cinco primeiros livros do Antigo Testamento e da Bíblia, assim como ao texto do mesmo livro que se refere especificamente ao Gênesis. Com isto, pretendo explicar em que consiste o livro como um todo, assim como referir-me aos diversos entendimentos que podemos ter dele.

Irei transcrever os pequenos trechos da apresentação da Bìblia Pastoral e em seguida comentá-los, para explicar melhor o que tudo isso significa - e o que não significa.

"Os dois primeiros capítulos narram a criação do mundo e do homem por Deus. São duas composições que procuram mostrar o lugar e a importância do homem e da mulher dentro do projeto de Deus: eles são o ponto mais alto e o centro de toda a criação".

Quando a gente ouve as pessoas se referirem ao Gênesis, notamos quanta ênfase elas costumam dar ao aspecto, digamos, científico ou concreto da criação aqui narrada. Mostra-se como Deus estava num determinado estado, e depois dividiu o mundo de alguma forma determinada. Mas aquilo a que precisamos prestar atenção aqui é que aqui o Gênesis narra a criação do mundo, sim, mas com um foco absolutamente fundamental no homem, no ser humano. Ou seja, conforme o texto explica, não é tanto a questão de como o mundo foi criado que aqui importa, mas o lugar e a importância dos seres humanos no projeto de Deus. E vejamos bem aqui a palavra projeto. Pois o relato que vemos aqui é teleológico, ou seja, tem um sentido, tem um projeto, que estará pronto somente ao final do livro, que chega ao Apocalipse, e que passa por Jesus. Ou seja, é preciso entender que o livro se refere a uma história feita para narrar o lugar do ser humano concreto diante de Deus, e mais seu lugar num projeto que Deus estabelece para nós. Ou seja, o texto do Gênesis tem uma função que escapa a ele, e que só vai ter um sentido possível de ser decifrado após entendermos todo o sentido da Bíblia, que é dado no decorrer de todos os seus livros. E mais: no projeto de Deus, o ser humano é o ponto mais alto e o centro da criação. Isso significa que o livro não faz sentido se não for lido pelos seres humanos, e se não fizer sentido para você, ser humano particular, que o está lendo. Nesse sentido, o livro é um chamamento a algo que Deus quer de nós, e não apenas uma descrição. Nesse sentido, é preciso entender que ao ser chamado a gente é provocado, e todos os nossos sentidos o são nesse sentido. O livro é um chamamento, é um convite, é algo que temos que ler não mais descompromissadamente, mas sabendo que ele está nos chamando, e que ele é a voz de Deus.

Antes de continuar falando a partir do texto introdutório da Bíblia Pastoral, é bom comentarmos que, segundo Eliade - que se baseia em textos históricos e mesmo arqueológicos -, e que é confirmado pela Bìblia de Jerusalém, o Gênesis não é, ao contrário do que podemos acreditar, o primeiro livro escrito da Bíblia, mas originou-se bastante depois dos livros que comentam a escolha de Abraão por Deus para guiar o povo escolhido por Deus para a Terra Prometida. Por outro lado, tanto Eliade como a Bíblia de Jerusalém concordam com que o Pentateuco, os cinco primeiros livros da Bíblia, possuem diversas origens e diversos estilos, os mais comuns, para os primeiros livros, sendo a Javista e a Eloísta. Sem entrar nesse mérito, que depois se torna mais confuso, porque entram textos de outras origens, o mito do Gênesis é um livro historicamente datado depois dos primeiros, que narram a escolha de Israel como povo por Deus, e ainda de menor relevância, para os primeiros povos que usaram a Bíblia como referência, que os livros seguintes, em que Abraão é um dos maiores personagens. Ou seja, atribuir ao Gênesis importância decisiva para comprovar a teleologia que Deus teria determinado para o ser humano, assim como é um contrasenso, é também uma perda de tempo. Porque o destino que Deus determina ao ser humano, e mais, ao ser humano particular que tem acesso a ele, NÓS, EM SUMA, diz respeito a outras questões, a outros relatos e a outro tipo de relevância. Porque, aqui, o que importa, para Deus, é o ser humano em particular que o lê, em suma, nós mesmos, e não se estamos discutindo realmente com a ciência ou tentando provar a existência concreta de Adão e Eva (notemos que existem diversos registros pelos quais podemos ler os textos sagrados, literalmente ou enquanto imagens a serem decifradas e entendidas no contexto geral).

Mas continuemos descrevendo o livro do Gênesis segundo o texto de introdução da Bíblia Pastoral.

"Feitos à imagem e semelhança de Deus, possuem o dom da criatividade, da palavra e da liberdade. Os capítulos 3-11 mostram a história dos homens dominada pelo mal e, ao mesmo tempo, amparada pela graça".

Aqui, como é óbvio em qualquer texto que pretenda aproximar os textos sagrados a nós, há uma interpretação. Mas, não nos atendo especificamente a ela, percebemos algumas questões bastante óbvias. Primeira delas é que, no contexto da imagem totalizante da Bíblia, e enquanto recebedores de uma mensagem salvadora, o homem e a mulher são feitos à imagem e semelhança de Deus, e que, assim sendo, possuem dons inerentes a todos. Nesse sentido, imaginemos qual a grandiosidade de um Deus que assume os seres humanos como feitos em imagem e similitude a si mesmo. Ou seja, imaginemos a grandeza de um Deus que, embora esteja acima dos homens e mulheres, os cria em simulacro de si mesmo, ou seja, tentando reproduzir o caráter propriamente divino dele mesmo no mundo que ele acabou de criar. E imaginemos sua grandeza ao dar-lhe dons que fazem tudo por eles, quais sejam, a criatividade, que lhes permite crescer no mundo, a palavra, que lhes permite criar novos mundos a partir dela, e a liberdade, que lhes permite decidir o próprio destino. Imagine-se a grandiosidade de um Deus que faz isso gratuitamente para seres que ele cria do nada, para o seu próprio bem. Por outro lado, a liberdade é o que faz com que o homem escolha o mal, traindo o seu Deus, e com isso escolhendo sua perdição. Agora, vejamos só este detalhe. Por causa do seu próprio dom, e tentado pelo mal - sem entrar em seu mérito -, vemos o homem escolhendo o próprio destino, que o afastaria inapelavelmente de Deus. Ocorre que Deus, em toda a mensagem que é este livro, encontra uma saída para ele, para o homem, saída essa que irá passar pelo povo escolhido, e por encontrar a Terra Prometida. Ocorre porém, em acréscimo, que mesmo assim, Israel trai Deus, e para isso é novamente condenado à própria perdição. Mas eis que, nesse contexto, Deus manda à Terra o seu próprio filho, Jesus Cristo, que este, sim, lhe dá a possibilidade final de salvação, por meio do Espírito Santo. Ou seja, vemos aqui que o Gênesis é apenas a primeira de muitas partes da história, e que a tentação a que Adão cede, pelo mal, é acompanhada por outras tentações, explicadas inclusive historicamente, mas que, no contexto geral, Deus resolve tudo enviando Jesus com as mensagens definitivas que podem salvar qualquer um de nós. Percebemos então como o relato do Gênesis é exemplar, por constituir a primeira parte de toda uma história que vai descambar em Jesus, e na qual estamos todos envolvidos, desde Adão e Eva. É então que percebemos como Deus, em todo o relato que lemos, nos dá a libertação de nossos males, sejam eles quais forem, apesar de toda a história de Adão, do povo de Israel, e mesmo da nossa, dos gentios, que chegamos agora. É então que percebemos realmente o papel real desse relato, e seu caráter até metafórico em tudo o que está sendo envolvido.

"Não se submetendo a Deus, o homem rompe a relação consigo mesmo, com o irmão, com a natureza e com a comunidade, reduzindo a história ao caos (dilúvio) e a sociedade a uma confusão (Babel)".

É aqui então que, encerrando este pequeno começo de texto tentando entender o contexto para o Gênesis, vemos o principal erro do ser humano: não se submeter a Deus. Mas, entendendo isso apenas parcialmente, enquanto desobediência, parecemos ver pouco no contexto geral da obra. Pois, quando percebemos que o relato todo mostra como, em sua desobediência, o homem é, seguidas vezes, perdoado por Deus, e mais, que a ele são encontradas formas de se redimir, vemos como o ser humano segue a tendência inelutável a desobedecer à voz divina, e a com isso, sem merecer a salvação, romper as relações com tudo, passando por si mesmo, pelo irmão, pela natureza e pela comunidade, reduzindo o mundo a cinzas, todas por causa de sua irresponsabilidade. Entendamos como, pelo pecado original, que é o de desobedecer, o homem rompe com tudo o que o rodeia, partindo por si mesmo, e como Deus, na história como um todo, lhe dá seguidas chances de redenção, mas como o homem persiste em seu erro, de desobedecer, de ser ingrato, e para isso Deus encontra a solução de mandar parte de si, seu filho, ao mundo para ser morto pelos homens em nome de sua (deles) libertação. Note-se então a grandeza do relato, como um todo, e note-se como tudo assume uma simbologia absurdamente potente, que nos captura, a nós, por sabermo-nos perdidos em nossos pecados originais. É assim, e sabendo que o mundo desapareceu pelo dilúvio, também uma imagem, e ainda por cima pelo desencontro entre os seres humanos (Babel), que nos defrontamos com a real dimensão do relato, que encaramos então de outra forma, muito mais consciente e respeitosa, e em que começamos a auferir o valor de tudo o que é dito, e em que começamos a entender, com o coração aberto, a saída que Deus nos dá da morte, em direção ao Paraíso em que estávamos.

Espero que tenham apreciado.

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Antes: E as coisas que continuam já se foram. E as que se foram continuam para nunca terminarem. Até um fim que nunca vem. Depois: Vale o que tem amor..
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