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Antes:
E as coisas que continuam já se foram. E as que se foram continuam para nunca terminarem. Até um fim que nunca vem.

Depois:
Vale o que tem amor.

Para ler o Gênesis: história, mitologia, crença e leitura textual (2)

Neste momento de minha explicação, eu fujo um pouco dos textos de comentadores presentes nas próprias Bíblias para tentarmos entender como o livro do Gênesis se coloca em termos históricos, na sua relação com outras religiões, até mais antigas, e em diversos pontos-chave para entender a crença como um todo.


Open-Bible-Genesis1.jpgAntes de continuar meu processo de leitura do Gênesis, que se faz consultando diversas Bíblias e explicações em diversas edições, assim como livros de História das Religiões, é bom notar, só de passagem, que o começo do Gênesis, ao ser uma passagem mais recente do que os trechos em que se fala do povo escolhido, assim como de outros trechos em que começa a escolha de Abraão na liderença do povo de Israel, mostra como não tinha tanta relevância no começo histórico da religião em si. O estudioso Mircea Eliade nota isso já de chofre, ao comentar o livro, e mostra como as discussões de ordem cosmológicas em si também pouco interessavam. Isso pode, claro, colocar em risco todas as explicações subsequentes sobre o ato de Adão, ao comer do fruto proibido, e os significados subjacentes a tudo para a religião, o que, para os mais céticos, poderia colocar em xeque tudo ou muito de suas crenças.

A cosmogonia

Neste momento de minha explicação, eu fujo um pouco dos textos de comentadores presentes nas próprias Bíblias para tentarmos entender como o livro do Gênesis se coloca em termos históricos, na sua relação com outras religiões, até mais antigas, e em diversos pontos-chave para entender a crença como um todo.

Em sua História das Crenças Religiosas, uma obra portentosa em três volumes, Eliade deixa bem claro que, segundo as fontes consultadas, a redação do começo do Gênesis teria sido posterior à daqueles trechos em que fala do papel de Abraão na condução do seu povo, Israel, à Terra Prometida. Mas diz ainda mais: isso seria a prova de que os hebreus se interessavam mais pela história dita sagrada, ou seja, por suas relações com Deus, do que por acontecimentos míticos que falariam do começo do mundo. Ocorre que o próprio autor nos diz que parte da comunidade, sim, se interessava muito por esses relatos, e que isso teria demandado tanto a ponto de, de alguma forma, ser concernente à ideia do próprio ser humano, o homem, em suas relações com Deus; Notemos, porém, que entendendo a Bíblia como um todo, se torna patente que ela é, em si, uma mensagem de Deus para nós, que a lemos. E nesse sentido, a cosmogonia entra em relação com tudo o que veio depois. Daí que o homem desobedecer a Deus, no Éden, da mesma forma que depois também desobedece. O que muda é o objeto da desobediência, que no caso do Gênesis seria o acesso ao fruto proibido, comido na árvore do conhecimento do bem e do mal. Mas, se não nos ativermos ainda ao caso em especial da desobediência, notamos que um aspecto permanece: a própria desobediência. Ou seja, o homem, que é livre, tenta escapar do seu destino inelutável, e com isso foge do desígnio que Deus lhe dá.

Como iremos abordar em outros textos, a própria ideia da desobediência é algo que remete a outros povos, e mesmo a ideia da serpente e do fruto proibido. Mas entendamos, antes de mais nada, que o que o Gênesis narra é um ato de rebeldia, o primeiro promovido pelo homem, com a ajuda da mulher (que teria saído de sua costela). Nesse contexto, o ser humano parece já nascer motivado a errar, advinda daí a ideia do pecado original. Mas, notam como isso combina com o martírio de nosso Salvador, que veio para nos salvar de nós mesmos, mas que ao contrário do que seria de se esperar, é morto de forma especial justamente pelo povo escolhido? A ideia como um todo combina, o que fica a ser discutido é o tom do erro, da rebeldia, a que o homem se sujeitou enquanto ser livre, e mais, em que medida isso lhe proporcionou algo, ou lhe tirou tudo o que tinha. Todos esses significados, claro, estão no mito do Gênesis.

Mitos

No que diz respeito ao próprio texto do Gênesis, que irei abordar aqui en passant (porque meu intuito é comentar o texto do Gênesis em sua contextualização na obra como um todo), o mesmo Eliade nota como a ideia de um mar primordial sobre o qual aparece um Deus primordial teria tido origem mesopotâmica. Isso poderia deixar de lado a ideia de que o texto bíblico seria sagrado e inspirado, assim como uma verdade absoluta. Ocorre que todos nós sabemos: o texto foi feito por mãos humanas, sendo que essas mãos se deixavam influenciar. Por outro lado, nós também sabemos que cabe a nós entendermos que o relato é sagrado. Pois para os crentes o relato é sagrado, para a Igreja também, para muitas outras pessoas o relato mantém aspectos sacros, sagrados, indiscutíveis, sendo inspirado pelo próprio Deus. Mas acontece que CABE A NÓS, leitores, concordarmos com isso. Porque, se assim não acharmos, se assim não apostarmos, ele, o relato, torna-se um mero relato antropológico ou mitológico como qualquer um. Cabe a nós sentimos, em nossa fé (que pode ser pequena, ínfima, até): sentimos, acreditamos que esse relato é mesmo sagrado? Porque podemos encarar toda a história de Jesus como meramente histórica, podemos entender a história do povo escolhido por Deus como algo metafórico, podemos entender tudo da forma que nos aprouver. Como, então, nós entendemos o que lemos? Sentimos realmente a verdade que é dita? Sabemos em que medida ela nos diz respeito? Compreendemos por que ela tem tanto a ver com nossa vida cotidiana, corriqueira? Como vemos isso? Isso depende de como lemos o que está conosco, à nossa disposição. Porque, se lermos tudo apenas como pessoas que estão passando, como passam por templos que não lhes dizem nada, isso definirá nossa postura a respeito, e nossa receptividade à mensagem de Deus. Tudo está em nossas mãos, e Deus jamais retira ao homem a capacidade nem a liberdade por escolher. Mesmo no primeiro gesto de criação, ele lhe manteve esse direito e capacidade. Vêem como faz sentido?

Contudo, somos defrontados, já aqui com umas características peculiares do relato. Primeiro deles, a que Eliade alude, a criação, ou seja, a organização no caos, se leva a cabo por uma vontade de Deus, uma potência que ele tem por ter. Segundo, que isso, essa criação, se dá pela palavra, ou seja, pela menção, por Deus, de que ele queria que a luz existisse. Pois ele diz: faça-se a luz, sendo que assim a luz passou a existir. Nesse sentido, tudo surge (a organização em meio ao caos, e a criação em si) por vontade de um Deus que estava lá. Note-se também que Deus, é bom insistir, já estava lá, e que em meio ao caos criou o céu e a Terra. Nesse sentido, não se aplica qualquer questionamento quanto a quem criou Deus. Ele já estava lá, antes do céu e da Terra. E por outro lado, Deus, já estando lá, notou o caos em que a terra se consistia, e criou tudo o que veio a seguir. Nesse sentido, não há conflito algum. Deus está lá, cria o céu e a terra, estabelece uma ordem e faz tudo isso por meio da palavra. Pois, no que é dito depois, em toda a Bíblia, é para isso que Deus vem até nós, para nos falar a verdade, por meio da palavra, e para nos conduzir à vida eterna por meio dela. Nesse sentido, Deus, quando aparece, todas as vezes depois, também vem organizar um caos, em que o povo estava, e fazendo isso é traído e precisa voltar novamente, até trazer o seu próprio filho, que vem estabelecer a ordem perante todos os que estão naquela ocasião e que vêm depois. Porque Deus é um organizador primordial, e o ser que vem nos trazer a verdade. Essa verdade da qual não conseguimos escapar, e que nossa condição inelutável de pecadores nos impede ver.

Mas continuemos o relato da Bíblia Pastoral, com sua explicação antes da própria leitura do livro.

"O importante é que o Antigo Testamento é a história desse povo em aliança com Deus. Nada do que se conta a respeito de Israel está desligado do seu relacionamento com Javé, o nome com que Deus se revelou. O Antigo Testamento mostra como esse povo se comportou em relação a Javé, e qual é o projeto que Deus quis realizar no meio da humanidade através desse povo. Israel foi um povo escolhido, diferente, justamente porque estava encarregado de realizar esse projeto de Deus".

Note-se aqui, então, como o livro como um todo só faz sentido, de alguma forma, talvez da única, quando entendemos que ele narra o começo dos tempos numa história que explica como se dá a história do povo escolhido em relação ao seu Deus. Nesse sentido, tudo precisa estar subentendido numa história maior, em que a relação nossa, da humanidade, está representada pela história do povo de Israel. Mas Israel, como qualquer povo, não deixa de passar por crises e por eventos de descrença ou mesmo de traição. Pois é isso o que o livro todo mostra: é um livro que narra uma história de um relacionamento entre um povo e o Deus que o escolheu, uma história, como qualquer outra, repleta de eventos e de crescimentos de parte do povo, que vai aos poucos sendo mais e mais conduzido ao seu projeto, a algo que ele não conhece no começo da história, mas que vai se efetivando, pouco a pouco. Claro que nesse processo as coisas vão acontecendo, e o relacionamento com Javé, Deus, vai passando por crises e superações. Essa história, porém, só termina com o Apocalipse, em que os homens encontram sua saída, sua própria saída, diante de tudo o que acontece. Mas note-se: o povo de Israel é escolhido, e ele é encarregado de realizar o projeto de Deus.

Mas como fica Adão então, nessa questão toda? Ao que parece, Adão simboliza o povo de Javé enquanto cosmogonia, que o coloca em relação a Deus, antes mesmo de o povo de Israel existir, assim como a questão de sua aliança com Deus. Nesse sentido, a desobediência está já antevista no Gênesis, e ela é antevista da mesma forma com que Deus age por entre o povo de Israel: organizando em meio ao caos, e sempre por meio da palavra. Note-se a relevância desses fatores, e como eles são importantes na questão da crença. Porque depois, quando o Espírito Santo age sobre nossa liberdade, ele age meio que se insinuando por meio da palavra, mas jamais interferindo em nossa capacidade intrínseca de liberdade. Porque mesmo ele, o Espírito Santo, nunca interfere nesse caráter que temos por sermos criados: nossa liberdade de escolha. Mas acontece que quando ele se insinua, e nós percebemos a verdade (por meio da palavra), é que nós sentimos por que tudo isso é sagrado, e entendemos algo que não conseguimos explicar para os outros, que fica somente em nós: a Verdade. Ocorre que tudo está subentendido no mito, e faz todo sentido depois. Se bem que sem acreditar tudo torna-se mero discurso de mito, algo que poderíamos entender jogando a responsabilidade para outras tradições. Mas não, para quem crê, tudo assume um outro nível, um outro caráter, algo inamovível, que nos faz abrir os olhos e perceber mais e mais, assim como querer saber mais e mais.

Continuo a narrativa em outro texto. Espero que estejam gostando.


Contreraman

Antes: E as coisas que continuam já se foram. E as que se foram continuam para nunca terminarem. Até um fim que nunca vem. Depois: Vale o que tem amor..
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