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Antes:
E as coisas que continuam já se foram. E as que se foram continuam para nunca terminarem. Até um fim que nunca vem.

Depois:
Vale o que tem amor.

Para ler o Gênesis: História, Mitologia, Crença e Leitura Textual (3)

Neste meu terceiro texto tentando navegar pelo primeiro livro da Bíblia, sem nos prendermos a leituras chãs ou mal-explicadas do assunto, começo mostrando como, no próprio comecinho do Gênesis, vemos relatos com sentidos aparentemente díspares, que podem nos deixar muito confusos.


bigstock-spring-nature-beautiful-lands-45772306.jpgEstá bem no começo, como Eliade bem nota (não iremos aqui entrar no texto em si, contudo): Deus cria o mundo (o céu e a terra), ok; mas Deus então faz com que do caos que era a terra surja o dia e a noite; tudo isso ele o faz por meio da organização em meio ao caos, e por meio de sua palavra, ok; ocorre que o mundo é bom, a vida animal e vegetal também é boa e a criação é coroada pela criação do homem. Tudo então que é criado fica sob a égide do homem, e não há nada de ruim a rondar a criação. O mundo é bom, o mundo criado, em que o homem habita, o paraíso, e o mundo também é bom. Ocorre que esse é um tipo de relato, digamos, otimista, que olha para tudo que é bom.

Ocorre que outro tipo de relato surge a partir de 2,5, um relato que, para Eliade, não é tão otimista, paradisíaco, iluminado, mas um relato em que as coisas se tornam concretas, e de origem javista, que seria mais antigo do que o que já foi explicado. É o relato em que o mundo é um deserto (provavelmente em função da origem dos textos bíblicos), em que o homem nasce do barro, ou do solo, ou da lama, e em que Deus torna o lugar fpertil por meio de um manancial que brota da terra. Nesse contexto é que Deus (Javé) teria feito nascer o homem (do barro), e em que existia o Éden, um parque com árvores frondosas (que parecem, creio eu, remeter a oásis no deserto). É nesse jardim que o homem crescer, em meio a animais e aves, também feitos do barro, e em que Adão lhes dá nome. É também aí que surge Eva, da costela de Adão.

Essa dupla fonte dos textos é testemunhada por edições críticas da Bíblia, que fazem notar que o livro foi formado com textos que foram editados (juntados) de diversas origens. Mas a diversidade de fontes normalmente é testemunhada pelas edições críticas no que diz respeito aos relatos sobre o povo escolhido, ou algo desse tipo. Normalmente, pouco é dito do Gênesis bem no seu comecinho, trechos que analisamos aqui. Eu, lhes confesso, não havia de notar tamanha diferença entre os textos, mas realmente a gente se sente diferente quando lemos sobre o Paraíso terreno no relato cosmogônico da criação de quando lemos a criação do Éden em si, com os animais e aves (e o homem) criado a partir da lama, e como isso se dá no contexto geral. É como se víssemos o Éden sendo formado a partir de um contexto de escassez, e não de abundância em todos os sentidos. É como se fôssemos defrontados com um relato mais concreto, mais tosco, menos elevado, mais terreno mesmo.

Neste caso específico, dos textos do começo do Gênesis, a Bíblia de Jerusalém, da Paulinas, que tenho também faz menção, no caso da fonte sacerdotal dos primeiros parágrados, e da fonte javista da dos primeiros. Nota-se, pelas notas à Bíblia dessa edição, que os tradutores destacam o aspecto lógico e exaustivo das coisas e seres cirados, começando em um dia e terminando no sábado. Os seres criados, conforme as notas, aparecem num plano crescente de dignidade, terminando com o ser humano, imagens de Deus e rei da criação. Note-se como isso combina com o plano da obra (Bíblia) como um todo, dado que o livro não é um tratado de ciência, mas um relato sagrado, ditado por Deus aos homens, de uma travessia feita por um povo escolhido, depois do caminho de Jesus, até terminar no fim dos tempos, mas sempre orientando-se a nós, homens concretos que o estamos lendo. Notam os tradutores que, por ser um ensinamento revelado, não se deve esperar que ele combine com a ciência moderna, mas que seja entendido como o relato de um Deus único e transcendente. Nisso podemos entender como o relato escapa das discussões relativas a opor o relato às descobertas da ciência moderna. Pois o Gênesis é um relato feito ao homem comum, com respeito ao seu destino diante de Deus.

Por outro lado, lendo o Gênesis como um todo, concordamos com a leitura de Eliade, quando diz que existem dois relatos de criação do homem, um que vai até 2,5, e outro a seguir. O que distingue e mostra como os relatos podem ser contrapostos é o fato, em clara oposição, que o homem e a mulher são criados no primeiro relato, por um lado, e que depois, no segundo relato, Deus cria NOVAMENTE o homem e a mulher. Veja-se, claramente: "Gênesis 1,27: E Deus criou o homem à sua imagem; à imagem de Deus ele o criou (há essa repetição); e os criou homnmem e mulher. E Deus os abençoou e lhes disse" Sejam fecundos, multipliquem-se, encham e submetam a terra". Por outro lado, em Gênesis, 2, 4b está: "Quando Javé Deus fe a terra e o céu, ainda não havia na terra nenhuma planta do campo, pois no campo ainda não havia brotado nenhuma erva: Javé Deus (notem que aqui Deus aparece com essa denominação): não tinha feito chover sobre a terra e não havia homem que cultivasse o solo e fizesse subir da terra a água para regar a superfície do solo. Então Javé Deus modelou o homem com a argila do solo, soprou-lhe nas narinas um sopro de vida, e o homem tornou-se um ser vivente (notem que no primeiro relato Deus cria o homem e a mulher, mas não diz como; aqui, ele diz como fez). Javé Deus plantou um jardim em Éden, no Oriente, e aí colocou o homem que havia modelado. (...) 15: Javé Deus tomou o homem e o colocou no jardim de Éden, para que o cultivasse e guardasse".

Pois então, o que dizem outras Bíblias a respeito? A Bíblia Pastoral, das Paulinas, mostra bem claramente nas notas: "A narrativa da criação não é um tratado científico, mas um poema que contempla o universo como criatura de Deus (notem que eles falam universo como criatura). Foi escrito pelos sacerdotes no tempo do exílio na Babilônia (586-538 a.C.), e procura salientar vários pontos. Primeiro, que existe um único Deus vivo e criador. Segundo, que a natureza não é divina, nem está povoada por outras divindades. Terceiro, que o ponto mais alto da criação é a humanidade: homem e mulher, cirados à imagem e semelhança de Deus". Por outro lado, no que diz respeito aos trechos seguintes, que notamos, eles completam: "A primeira narrativa da criação (1, I-2,4a) apresenta as águas disformes como caos, desordem e ausência de vida. A segunda narrativa, elaborada no tempo do rei Salomão (séc X. a.C.), se originou entre nômades que viviam no deserto; para eles, terra seca é ausência de vida. Por isso imaginam, como início da criação, a chuva e a possibilidade de o homem encontrar água".

Para ficarmos por enquanto apenas nessas narrativas, vejamos como a discordância dos dois relatos (duas criações para os homens) combinam quando pensarmos na ordem histórica da criação dos textos (primeiro, a segunda, ou seja, a que veio depois), e em segundo lugar por que o relato aparenta contradição, sem apresentá-la (Deus é mantido em suas características como Deus uno e todo-poderoso, criador do céu e da terra, assim como determinador do papel do ser humano na criação. Vemos como, de acordo com o relato, tudo é feito para esclarecer aquele que lê ambos relatos, e como tudo é claramente explicado pela história. Não há o que duvidar, e mesmo que aceitarmos o primeiro relato, entendemos como e por que é feito o segundo: para mostrar de onde sai o homem, do barro, e o poder da água. Porém, há ainda questões que surge notar, e que dizem respeito ao relato, nem levando tanto em conta os problemas já discutidos, mas em termos de como Deus está, aparece, e qual o seu papel em ambos relatos da criação. Mas isso ficará para outro texto, com o qual comentarei ainda me atendo aos textos comentados nas Bíblias e a comparações feitas por historiadores de religião.

Espero que estejam apreciando.


Contreraman

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