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Antes:
E as coisas que continuam já se foram. E as que se foram continuam para nunca terminarem. Até um fim que nunca vem.

Depois:
Vale o que tem amor.

Para ler o Gênesis: História, Mitologia, Crença e Leitura Textual (4)

Para terminar esta minha primeira saga de leitor pelo Gênesis, livro que inicia a trajetória do povo escolhido na Bíblia e que demanda incontáveis interpretações, tentarei dar conta de aspectos subjetivos que podemos inferir do texto canônico, até o momento em que surge o Éden, e que será objeto de textos posteriores.


ceu.jpgNão pretendo aqui apelar a leituras de livros sobre Histórias de Religiões, mas tentar inferir, de um jeito muito particular, algumas acepções que podem ficar para quem lê o livro com mais calma e quer adentrar em camadas não tão explícitas nem tão facilmente acessíveis.

No princípio

Não é preciso se considerar superior a alguém, ou mesmo se entronizar como leitor por excelência do livro por excelência do Ocidente, a Bìblia, e o Gênesis em particular, para se defrontar com impressões inelutáveis ao lê-lo, que nos deixam ao mesmo tempo embasbacados com sentidos que levaremos a vida inteira para entender (ou para aceitar), e muito sofrimento para compreender (understand).

O livro mostra-se, já de cara, bastante soberbo. Não se propõe explicar. Não se propõe justificar. Não se propõe demonstrar. Ele simplesmente DIZ que no princípio Deus criou os céus e a terra. Simples assim. Não tem travas na língua, como percebemos. Nem se dispõe a nos dar algum material para entendermos a respeito do que ele diz, claramente. Que princípio? Que Deus? Que céus e que terra? A respeito do que, especificamente, ele está falando? Os céus são o universo? A terra é a terra como a conhecemos ou as terras em geral, neste e em outros mundos? O que é esse Deus? Ele tem origem? Não, aparentemente. Pois pelo que percebemos há um princípio, sobre o qual nada sabemos, e nesse princípio, que não sabemos se existia antes ou depois de Deus, Deus simplesmente criou. Nem diz por que ele o fez. Nem diz se teve vontade disso, nem se foi bom. Porque aqui nada sabemos.

Por outro lado, o texto é afirmativo e feliz. Não há espaço para negações. Não há espaço para dúvidas, nem para negativações. Não há espaço para o mal. Nem trevas ainda existem. Simplesmente, quando lemos isto, vemos tudo começando assim, sem mais nem menos, e de forma que não conseguimos, no fundo, entender. É um texto que não se dispõe a enrolar. Simplesmente diz e afirma, com todas as letras, como tudo aconteceu. Sem dar qualquer margem a dúvidas. Nesse sentido, é um texto soberbo. Que não se dispõe a explicar, ou a conversar. É um texto que nos invade com uma verdade, a maior verdade de todos os tempos, antes mesmo dos tempos inclusive, e da qual não podemos duvidar. Uma verdade que ficará depois de nós. A verdade.

Céus e traduções

Ilusório seria aqui cotejar (comparar as traduções) das infinitas Bíblias existentes. Mas podemos tentar vislumbrar problemas de traduções que não batem, até porque o cotejo, puro e simples, demandaria um conhecimento das línguas originais.

E eis que vemos, para nossos propósitos, que nas Bíblias que temos Deus cria, em algumas, o céu e a terra, e em outras, os céus e a terra. Se fosse uma exceção, mas não é. Muitas bíblias incluem céus e não apenas o céu. O que inferir disso, em termos filológicos? Por enquanto nada. Mas percebe-se como a acepção a "céus" pode criar confusão, por um lado, mas ao mesmo tempo esclarecimento, por outro. Pois o céu, nós, que moramos na Terra, temos apenas um, mas por céus podemos esperar os mais diversos céus do universo (que existem). O céu de Marte, ou dos outros planetas com certeza habitados.

Sentimos também um alívio, ao sabermos que tudo é assim, tão limpo e límpido, sem dúvidas, sem margem a qualquer dúvida. Deus simplesmente por ser criou no princípio os céus ou o céu. E também a terra. Que terra? Não sabemos, mas só conhecemos a nossa, então é ela.

Pois eis que em seguida vemos uma lista de criações feitas por Deus. E acepções dadas àquilo que está sendo criado. A terra não tem forma, no começo, e está vazia. "Há trevas sobre a face do abismo", se diz, e não sabemos que trevas são essas, nem em que consiste o abismo. Muitos irão discutir que Deus não cria as trevas, que elas estão lá, e que ele cria na verdade apenas a luz. Muitas leituras a respeito, sobre isso, inclusive. Pouco importa, aqui. Importa que a terra não tinha forma e que as trevas estavam sobre a face do abismo. Mas mais: que o espírito de Deus pairava sobre a face das águas.

Não sabemos que águas seriam essas. Nem sabemos que espírito seria esse o de Deus (que outras Bíblias colocam como "vento impetuoso" ou apenas "vento" pairando sobre as águas. Não sabemos e jamais saberemos. Pois as explicações vêm depois, distinguindo o espírito sobre o qual aqui se fala do Espírito Santo ou de algum outro tipo de entendimento de espírito. Por vento fica melhor.

Mas percebemos como as coisas parecem não combinar. Porque, se formos tentar entender sob um prisma literal, piramos. Que águas, se nem águas existem? Que espírito ou vento seria esse, se não temos nada? Se não temos nem luz ou noite? Não sabemos e jamais saberemos.

Pois onde é que quero chegar? Claro, a leitura do Gênesis, no seu começo, pode parecer árdua demais, desafio e tanto para quem mal sabe quatro línguas (mas não aramaico nem hebraico). Mas é preciso entender que, mesmo com todas suas aparentes incongruências, o discurso que lemos aqui faz parte de nosso imaginário. E que, de certa forma, o entendemos. Porque, se não entendemos o que está dizendo, entendemos o que pode querer dizer. E ele está em nós.

Pois há um momento em todo nosso esforço em que precisamos tentar ver, conosco mesmos, se queremos acreditar. Ou se simplesmente acreditamos. Porque, por tudo o que apenas foi esboçado, a crença mostra-se necessária. Daí o entendimento de que o texto é fruto de uma civilização, derivado de mitos, mas que faz sentido no contexto geral, enquanto livro dedicado ao ser humano comum, com mensagem em relação à qual se acredita ou não. Pois sempre haverá o problema da razão contra a crença, não entendendo o ser eminentemente racional que para crer não é preciso saber, e que para saber pode-se apenas crer. Enquanto para quem apenas quer saber, sem crer, jamais compreenderá. Pois é o enigma. Um enigma compreendido por muitos teóricos da Igreja, da sua história, e que quem acredita consegue entender.

Nos próximos posts a respeito, tentarei explicar como entender o Gênesis a partir da criação do Éden, referindo-me a pinturas e textos de História das Religiões. Espero que tenham gostado.


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