o olhar amor na arte após o fim da arte e da filosofia

Veja ao seu redor - a saída existe e está em tudo e em todos nós

Contreraman

Antes:
E as coisas que continuam já se foram. E as que se foram continuam para nunca terminarem. Até um fim que nunca vem.

Depois:
Vale o que tem amor.

Um novo tempo para velhos saberes

Já está na hora de os chamados profissionais das ciências humanas pararem de olhar para as religiões apenas sob um ponto de vista distante, como se elas fossem mitos a que somente ou principalmente pessoas de má formação cultural pudessem dar crédito.


religion and medicine.jpgExiste uma tendência, dentre as chamadas ciências humanas, em considerar que a revitalização religiosa no século XX, que se estende ao século XXI, parece levar a um obscurantismo crescente, assim como a uma intolerância relativa entre as religiões. É como se o ensino derivado do Iluminismo tivesse perdido a guerra contra as religiões, e hoje elas vissem o campo aberto a saberes antigos e inadequados, assim como descolados da evolução tecnológica e social que o mundo todo vem experimentando.

Creio que façam parte desse fenômeno todos os movimentos em prol da revitalização das Igrejas nos Estados-Nação, seja de que tipo forem, e na expansão das crenças para âmbitos que antes se considerava elas não poderiam invadir, como o ensino de ciências. Nota-se, coetâneo a esse fenômeno, um crescente conservadorismo das sociedades em que isso ocorre, com um questionamento antes não presente a lutas de minorias ou de parcelas excluídas da sociedade, com base em ditames religiosos (normalmente relativos a sexo). É como se as classes estudadas considerassem que aqueles que se convertem ou estudam os saberes religiosos antigos emburrecessem e, escudados em preconceitos ou momentos de crise, passassem a combater uma forma correta e inevitável por meio da qual as sociedades deveriam se desenvolver. Como se estivéssemos numa outra Idade Média, em que o obscurantismo estivesse necessariamente tentando retirar a ciência do seu lugar privilegiado.

Sou formado em ciências humanas, e entendo por que os profissionais dessas ciências tendem a considerar que religião é algo necessariamente ligado a obscurantismo. Entendo também que os profissionais laicos tendam a achar que estudar religião é de menor importância em relação a estudar antropologia, ou história das religiões, ou a posição do saber religioso na Filosofia. Ou seja, entendo que os meus colegas entendam o estudo de textos bíblicos (por exemplo) como algo de menor importância e em última instância que deveria ser entendido como restrito a campos outros, como sociologia da religião, história das religiões ou antropologia.

É claro, a esse respeito, que as religiões são um fenômeno humano, e podem ser estudadas, a partir de fora, como se estuda qualquer outro tipo de fenômeno, recuperando as origens, as conexões entre diversas religiões e mitos, inferindo como todas as religiões se desenvolvem, sem que necessariamente levemos as religiões a sério como tipos de saber. Ou seja, basta fazer o download dos três volumes da História das Crenças, por Mircea Eliade, por exemplo, para conseguir olhar o que vemos como crença com uma mirada mais distanciada e até mesmo cética. Claro que as religiões são e sempre serão objeto de estudo. Mas elas são crenças. E elas também são saberes. E seus saberes mudam as pessoas. Ou podem transmutá-las.

Mas não preciso apelar para o poder transformacional das religiões nas pessoas que se deixam envolver por elas para advogar no saber que elas traduzem.

Sabemos que, para qualquer pessoa com problemas de ordem íntima, a psicologia pode ocupar um papel fundamental em quase qualquer tratamento. Milhares de pessoas consultam profissionais dessa área tentando resolver questões de ordem pessoal, atualmente, mesmo quando não possuem nenhum problema de ordem fisiológica ou mental. E nesse papel os psicólogos ajudam muitas pessoas, como a mim mesmo, em terapias de grupo ou reencaminhamentos psicológicos e psiquiátricos. Isso quando não os reencaminham e resolver problemas mais sérios, que requerem o uso continuado e permanente de remédios.

Ocorre que o saber contido na religião também consegue "milagres" desse tipo. Basta ver o tanto de pessoas que, com problemas de ordem pessoal que requerem uma olhada melhor para si mesmas, conseguem uma luz em cultos, em missas, em reuniões diversas ou mesmo cumprindo os rituais de cada Igreja. Basta ver quantas pessoas conseguem se reencaminhar na vida por meio de exemplos que conseguem nos cultos, ou mesmo em programas de televisão, assim como em livros, e testemunhos escritos. Basta ver quantas pessoas conseguem tocar a vida com base nas máximas presentes nos seus livros sagrados, que elas tanto valorizam, e tão bem lêem.

Já está na hora de os chamados profissionais das ciências humanas pararem de olhar para as religiões apenas sob um ponto de vista distante, como se elas fossem mitos a que somente ou principalmente pessoas de má formação cultural pudessem dar crédito. Já está na hora de se entender que, por detrás da busca religiosa contemporânea, existe ao menos em parte a admissão de que as chamadas ciências psicológicas não conseguem lidar com certas questões ou mesmo certos fenômenos de âmbito íntimo. Pois não são somente pessoas desesperadas que lêem os textos que consideram sagrados. São também pessoas muito esclarecidas, que sabem distinguir os âmbitos e que preferem reservar um espaço para o sagrado, para o enigma, para o secreto.


Contreraman

Antes: E as coisas que continuam já se foram. E as que se foram continuam para nunca terminarem. Até um fim que nunca vem. Depois: Vale o que tem amor..
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