o olhar amor na arte após o fim da arte e da filosofia

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Contreraman

Antes:
E as coisas que continuam já se foram. E as que se foram continuam para nunca terminarem. Até um fim que nunca vem.

Depois:
Vale o que tem amor.

O saber religioso: por que ele basta a si mesmo

Afinal de contas, aquelas pessoas que creêm ou que se convertem passam por uma espécie de lavagem cerebral, na medida em que começam a consultar a Bíblia para qualquer coisa?


main-prayingtherosary.jpgQuem simplesmente vive muitas vezes pode se perguntar: qual a especificidade do saber religioso? Em que medida ele se basta a si mesmo? Para quem quer ter uma vida boa, de princípios, tanto faz fazer cursos sobre moral e ética, ou ele (o saber religioso) é insubstituível, ocupando um lugar especial, para além dos dogmas e da própria crença? Afinal de contas, aquelas pessoas que creêm ou que se convertem passam por uma espécie de lavagem cerebral, na medida em que começam a consultar a Bíblia para qualquer coisa? Ou os ditames da Bíblia servem de fato para lidar com a vida, em sentido prático, e para além de qualquer fanatismo?

Por que pessoas que se formam em faculdades de humanas, e que passam a se defrontar com outras leituras, consideram a Bíblia uma lavagem cerebral, algo que parece fazer com que muitas pessoas se emburreçam de repente, e não pareçam mais pensar por si próprias? As dúvidas são muitas e imensas, e podem fazer muitos se perder no meio do caminho, com leituras que podem levá-los a fanatismos, a repetirem trechos da Bíblia sem os compreenderem direito, e mesmo a começarem a ditar normas para outras pessoas, a torto e a direito, em leituras descontextualizadas e sem nexo.

Claro que existem os especialistas na matéria. Existem os padres, e mesmo as pessoas que os circundam, e que assumem grandes doses de religiosidade. Existem os livros que nos convidam a ler os Evangelhos de forma mais leve, mais descompromissada, para que deles nos aproximemos sem tanta rigidez, sem dar tanto valor à leitura fiel dos mesmos textos, entendendo aspectos que passam batido, às vezes, sem que deles consigamos nos dar conta numa primeira leitura. Existem diversas editoras que tentam nos aproximar dos livros sagrados por intermédio de livros de santos ou sobre santos, e mesmo a própria leitura dos textos, se feita com atenção, retidão e alguma desconfiança, servem para que nos abramos a eles de forma inusitada. Cada um tem um jeito particular de se aproximar dos livros que quer, e da experiência pessoal de cada um cada um tem que dar conta.

Mas creio que, do meu próprio processo, em que me converti passados alguns meses, eu possa ter auferido algumas lições bastante úteis, no aprendizado comparativo entre livros de todo tipo e livros religiosos, assim como dos livros do dogma cristão em particular, que tanto me revelam agora, sem precisar praticamente ler explicações, ou ouvir vídeos tentando aproximá-los mais e mais de minha vida corriqueira, de minha experiência de vida, de minha sensibilidade e mesmo de minha própria forma de ver o mundo. Porque os livros santos não impedem cada um de ver o mundo como quer, nem de vivenciá-lo como bem supõe. Os livros simplesmente são um convite a uma nova vida, repleto de dias com coisas novas e surpreendentes, que outros livros podem até também conseguir sugerir, mas de cuja tarefa não conseguem realmente se desimcumbir. Essa é um primeiro aspecto que nos aproxima dos livros, que chamamos de santos, de formas que não acontecem com nenhum outro tipo. Pois eles parecem sempre nos dizer tanto mais, em novas leituras, que sentimos serem inspirados de alguma forma especial. E sentimos que são santos, por nos revelarem coisas que nenhum outro tipo de livro consegue. Daí a especificidade dos livros religiosos - refiro-me aos cristãos, à Bíblia em si.

Primeiro contato

Antes de mais nada, é preciso entender que nós é que dizemos, no nosso interior, se consideramos esses livros sagrados. Porque, claro, a Igreja assim afirma, assim como os fiéis, mas somente quem realmente se sente tocado por eles e passa a experimentar algo diferenciado pode realmente passar a considerar isso. Porque, tem uma coisa: se o livro não te toca, é por alguma razão. Eu, que me reconverti, sei muito bem por que isso acontece, quando acontece: é porque ele não te tocou fundo no coração, e porque, no caso daquilo que você pode fazer a respeito, você não abriu o seu coração a ele. Para isso, só posso citar o meu caso particular, e como isso se deu para sustentar essa opinião.

Eu lia a Bíblia desde criança. Eu já havia inclusive sido contratado para traduzir livros que citavam trechos dela. Mas, por alguma razão que não vem muito bem ao caso, eu não estava aberto aos livros do Evangelho. Eu os lia, e CDF como sempre fui, tentava entendê-los pela razão, por aspectos literários ou mesmo de formas de entendimento de livros religiosos, mas não conseguia fazê-lo. Pois eu sentia que essas camadas de compreensão se somavam a outras, anteriores, mas não me faziam realmente sentir os livros tais como eles eram. Isso, contudo, passou a acontecer uma vez, quando, por algum motivo que eu não sei muito bem explicar, eu senti meu coração se abrindo à mensagem, àquilo que eu lia.

O processo de abertura aos livros do Evangelho não aconteceu, porém, de uma só vez. Foi gradual, de forma descontinuada, e de forma tal que passava a me revelar sentidos que antes passavam batidos para mim, cujo sentido sensível parecia escapar. Porque eu passava a me deixar envolver, com o coração se abrindo aos poucos, pelas mensagens e mesmo pela trajetória que era narrada. Porque os Evangelhos narram uma trajetória, enquanto aspectos da mensagem de Jesus começa a aparecer. E no começo eram essas pequenas mensagens, na sua passagem, que me chamavam a atenção. Note-se que eu, hoje sei, lia errado aquelas mensagens, lia-as como se elas me falassem algo em minha situação concreta (embora, claro, pudessem falar alguma mensagem, passar alguma mensagem), mas o que importa é que aquelas mensagens agora me TOCAVAM, pareciam tocar fundo, e me emocionavam. Hoje, em pequenas conversas com pessoas que também acreditam, percebo que essa forma como tudo aconteceu comigo acontece com as outras pessoas, também. Os livros parecem, num determinado momento, FALAR FUNDO para as pessoas, e dizer mensagens nas quais a pessoa para e pensa, com atenção. É um processo interessante, que se dá em meio a emoções bastante fortes.

Tudo isso eu digo para vocês meio que para garantir-lhes que, se os livros religiosos em questão não parecem dizer nada a vocês, é por um motivo claro: eles não tocam, e se não tocam é porque eles não atingiram o coração aberto de vocês. Vocês podem pensar que não, que mantêm o coração aberto a eles, que os abordam com amplitude de coração, e que mesmo assim os livros não os tocam. Acontece que eu duvido - infelizmente, tenho que assumir essa posição. Porque no meu caso, antes, eles não tocavam, e depois passaram a tocar tanto que começaram a chamar todo dia a atenção. Não lhes digo que os livros, depois que passaram a tocar meu coração, tenham passado a revelar coisas, mensagens específicas, algo que mudou minha vida. Não, simplesmente eles passaram a me tocar, e nesse toque passaram a mudar minha vida. É estranho dizer isso a vocês, mas os livros do Evangelho parecem com uma mensagem viva, que assume novas formas sempre que os abordamos, e que nos convidam a lê-los mais e mais, e mais, nos convidam a realmente entender a mensagem, que não é explícita, embora esteja sendo dita pela trajetória do Messias. Minto, a mensagem é explícita, e ela diz: siga-me. Simplesmente isso. É bastante forte, quando a gente percebe isso.

Abrir o coração

Essa impressão, de que o texto que lemos dos Evangelhos, vive, e se transmuta, permanece por momentos que sempre parecem nos surpreender, depois que abrimos o coração e parecemos entender, se bem que aos poucos, o texto que está à nossa frente. No meu caso, em particular, algumas parábolas ficavam em minha mente e seu significado parecia requerer alguém ou algo para me explicar. Em outros momentos, os acontecimentos pareciam me dizer algo em algum momento específico, e eu ficava com uma impressão estranha, como se precisasse de mais, ou seja, de maiores explicações. Isso durou algum tempo, quem sabe um mês, ou até mais. Enquanto isso, claro, minha vida avançava, e com ela minhas tentativas de lidar com os problemas. Eu não ficava lendo o tempo todo, diga-se de passagem. Eu lia trechos, que me puxavam cada vez mais.

Eu já comentei que sempre fui CDF (ou tentei ser). Pois eu fiquei, durante algum tempo, lendo outros livros para que me explicassem melhor a religião como um todo (especialmente o Gênesis), e também escrevi em sites a respeito (sempre com bastante segurança do que eu lia e que repetia). Mas parecia que eu precisava de vídeos ou de outros textos que fizessem isso entrar em mim, que me fizessem saber, ou conhecer algo mais. Mas algo me retinha, porque aquilo que eu lia a mais parecia não entrar pelo coração, parecia satisfazer minha necessidade por saber, mas não me engrandecia o coração. Pois lhes digo que tudo está bastante bem escrito, em qualquer lugar. Claro, as traduções mudam, os tipos de Bíblias possuem mais ou menos recursos explicativos, existem Bíblias em outras línguas que explicam até mais, e hoje é possível facilmente descobrir Bíblias em hebraico e aramaico, assim como em grego, que possuem recursos indizíveis para alguns anos atrás. Mas tudo isso faz com que a Bíblia seja mais conhecida, e não necessariamente vivida. Porque, para quem pega qualquer Bíblia, tudo está inteiramente ali. Porque para quem lê com o coração tudo é bastante claro.

Aconteceu, ainda restrito ao meu caso, que num determinado momento, após ter lido diversos livros sobre a Igreja, sobre Jesus, até mesmo estrangeiros, eu decidi simplesmente ler os Evangelhos. E algo aconteceu, porque parece que eu estava finalmente pronto para isso. Nem lia as notas, nem lia a Bíblia de Jerusalém que eu tinha, nem me dispunha a ver os vídeos de padres conhecidos no Youtube para isso. Simplesmente passei a ler, sem qualquer outro artefato a me ajudar, e de repente eu comecei a entender tudo, realmente tudo, com o coração. Porque eu não sentia que precisava decifrar, tudo era claro para mim. Tão claro que as explicações que vinham de fora pareciam excessivas, pareciam algo de que eu não mais precisava, realmente. E foi então que os Evangelhos passaram realmente a me tocar. Eu via aquilo com os olhos abertos, com o coração aberto, sem nada a enquadrar o que aparecia, e eu sentia os Evangelhos, como se estivessem vivos EM mim (destaquei o em de propósito). Pois foi então que eu deixei então de querer decifrar ou ver outras coisas. Aquilo parecia me dizer algo que nada mais me dizia, sendo que o saber mundano parecia ficar para trás, realmente, e eu passava a sentir Jesus Cristo vivo em mim, realmente.

Mas isto não é um depoimento, deixo claro. Eu só estou distinguindo quando a gente lê os Evangelhos com o coração de quando a gente os lê com a mente, com o raciocínio. Claro, é possível, em última instância, separar os âmbitos? Claro que não. A gente lê entendendo e sente a partir de então. Mas é curioso, porque quando a gente lê realmente aberto, em nosso íntimo, algo a mais parece acontecer. Pois, é claro, as mensagens precisam, de alguma forma, ser compreendidas, e isso demanda do nosso raciocínio. Mas, por outro lado, quando a gente ouve com o coração, a gente passa a reparar em outras dimensões do texto, e até mesmo a imaginar as situações, de alguma forma menos raciocinante. É assim que o texto, que passando de um amálgama de pequenas lições em meio a uma história, se torna algo vivo, que passamos a vivenciar. Claro que para pensarmos com o coração a gente precisa de alguma forma, em alguma medida, acreditar nisso que estamos lendo. Mas essa crença, quando lemos com o coração, não parece se dar de forma raciocinante, como se estivéssemos simplesmente introjetando algumas frases que nos fazem crer, mas acontece (essa crença) de uma forma vivida, interna, à qual somente nós temos acesso. Não é à toa que muitos consideram que quando abrimos o coração é quando deixamos o Espírito Santo (que aparece sob a figura de uma pomba, e que é a forma pela qual Deus se comunica conosco) entrar em nós. Ou seja, quando vemos tudo com o coração é como se efetivamente (não apenas enquanto fala ou raciocínio) deixássemos Deus entrar em nós. Mas eu insisto: no meu caso, esse processo se deu muito aos poucos, levando muitas leituras de roldão e com um esclarecimento que acontecia muito aos poucos, em meio a meus problemas, e também a muitas dúvidas, seja em relação àquilo que era dito para mim, seja em relação àquilo que eu sentia.

Outra forma de distinguir o entendimento quando raciocinamos e quando deixamos entrar pelo coração é dizendo que, quando raciocinamos, buscamos a confirmação, por outras fontes, para aquilo que está sendo dito ou enunciado. Não é que necessariamente duvidemos, mas como que precisamos de maior apoio para realmente entendermos o que está sendo dito. Já quando deixamos entrar pelo coração a gente se surpreende com as revelações que nos são fornecidas aos poucos, e quando fazemos conexões as fazemos em relação a coisas que acontecem conosco, a nossas vivências (atuais ou passadas), à forma pela qual as outras pessoas recebem isso que está sendo enunciado (com crença ou de forma mais singela, como se fossem apenas frases ao léu), e com nossa própria sensibilidade. Ou seja, quando lemos raciocinando a gente precisa de confirmação, enquanto quando lemos com o coração a gente a encontra das mais variadas formas, e o resultado é quase sempre uma surpresa, uma sensação gostosa de que entendemos mais alguma coisa, sabendo contudo que jamais entenderemos completamente, porque para isso acontecer precisamos viver esse convite que nos é feito. Ou seja, quando lemos com o coração, é como se nos motivássemos a, mais do que apenas ler, viver o que está escrito, mesmo que isso aconteça somente em nosso interior. Ou seja, é uma leitura vivencial, não mais feita de fora, mas de dentro. A alegria que experimentamos quando entendemos o que lemos é bastante grande, assim como muitas vezes nos emocionamos com leituras que havíamos tido há muito tempo, por razões que às vezes nos passam desapercebidas (agora mesmo me emocionei com um milagre que li em Lucas e só com muita dificuldade entendi por quê (e foi pela emoção da cena, foi por ter imaginado a cena da mulher que roubou energia de Jesus para se curar de um mal, e que se revelou tremendo para ele (Lucas 8,43)).

Leitura

Por causa de todos esses motivos, é bastante diferente para uma pessoa ler um texto qualquer e ler, quando crê, a Bíblia. Porque essa pessoa entende, quando lê a Bíblia, com o coração. Por outro lado, as lições que a Bíblia lhe dá quando ela lê desse jeito são de índole totalmente diferente da das lições que ela pode auferir pelo conhecimento mundano. A leitura da Bíblia a captura por outros motivos, muito mais vívidos e relacionados ao seu dia a dia, do que os motivos pelos quais a pessoa aprende ou mesmo vivencia novas realidades por meio do saber mundano. Com a leitura da Bíblia, a pessoa passa a olhar a sua realidade meio que à distância, com uma espécie de lente que lhe dá subsídios para melhor entender seu destino de ser limitado e mortal. Enquanto isso, quando lê outras coisas, a pessoa entende o que lê sob o ponto de vista de ser humano, limitado e mortal, claro, mas não mais com o prenúncio de vida (agora) e de satisfação que a leitura da Bíblia lhe dá. Claro, existem pessoas que não lêem nada, exceto a Bíblia, e que por isso passam a usá-la para tudo o que imaginam, mas essas pessoas o fazem assim porque simplesmente não têm a capacidade de distinguir os âmbitos. São como pessoas de um livro só, mas um livro que elas levam no coração (o que não é pouco). Em suma, essas pessoas, quando seguem ditames da Bíblia, cegamente, o fazem sem entender as imagens que cercam o livro e que ajudam a explicá-lo. Mas a Bíblia a gente lê com o coração.

Tentei com este texto diferenciar as leituras, de textos sagrados e não sagrados, pelas ênfases utilizadas em quase todas elas. Como sou formado em Filosofia, sei bem como é diferente cada caso, e somente agora, que eu me converti, é que consigo distinguir os âmbitos. Claro, como é óbvio, que a leitura de todo texto é interessante por si só. Mas a leitura dos Evangelhos parece ser algo que não acaba, e que nos faz sair do nosso ramo e do nosso mundo fechado de problemas e nos mostra, de forma acabada, e sempre, um outro mundo.


Contreraman

Antes: E as coisas que continuam já se foram. E as que se foram continuam para nunca terminarem. Até um fim que nunca vem. Depois: Vale o que tem amor..
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