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Sam Peckinpah ou uma forma cruel e compassiva de enxergar o mundo

Peckinpah, todos sabem, marcou época e deixou muitos rastros. Mas poucos conseguem analisar seu cinema com a profundidade que ele supõe. Peguemos "The Wild Bunch" (Meu Ódio Será Sua Herança), por exemplo.


Wild_Bunch_Agua_Verde.jpgHá quem diga que o cineasta Sam Peckinpah fazia um cinema de macho. Outros consideram o seu cinema revelador do que há de mais profundo no ser humano, em termos de ambições e impulsos (independente de ele ser um cineasta "macho"). Peckinpah, todos sabem, marcou época e deixou muitos rastros. Mas poucos conseguem analisar seu cinema com a profundidade que ele supõe.

Claro que não irei aqui me propor a fazer isso. Existem diversos livros, feitos no exterior, que o conseguem, e algumas mostras apresentadas no Brasil fizeram jus à importância do legado que ele conseguiu, a duras penas, deixar para todo cinéfilo mas, mais importante ainda, para todo ser que reflete sobre o ser humano. Pois Sam Peckinpah é, para além de um cineasta de renome que deixou uma obra de respeito, um verdadeiro ensaísta sobre nós, os seres humanos, seres tão frágeis quanto cruéis.

Ocorre que Peckinpah não é apenas esse homem duro que expressou a dureza da vida. Peckinpah é um sujeito, ao contrário, que, ao destacar a crueza do que a todos nos acompanha, nos faz ver o quanto perdemos ao vermos somente o lado pesado de tudo, e como deixamos de reparar na compassividade inerente ao nosso destino quando vemos o mundo com cores mais róseas do que as devidas.

Peckinpah é mais conhecido por todos, em última instância, por algumas poucas obras-primas. Irei ressaltá-las em sequência, para tentar provar minha tese. A de que ele, ao ressaltar a crueldade, nos faz ver a compassividade inerente a nosso destino.

Peguemos "The Wild Bunch" (Meu Ódio Será Sua Herança), por exemplo. O recém-admitido na trupe dos admiradores de Peckinpah normalmente se foca, em especial, nas sequências finais e iniciais de ação desenfreada, de massacre total, em que uma trupe de bandoleiros parece fazer desaparecer uma cidade, em meio a um assalto, e, no final, em que a mesma trupe prefere desaparecer da face da Terra em honra aos seus valores.

Mas esta pequena peça tem diversos outros momentos, espalhados por si, em que vemos como é jogada a roleta do destino em meio a personagens que, se bem se mostram cruéis e desalmados, também se mostram totalmente desesperados, mas não querem desistir dos seus pequenos e parcos valores que fazem valer suas existências. Porque, para viver apenas por viver, por que lutar por algo mais do que a própria vida?

Eis que, nesta fita, diversos detalhes sobressáem ao mais fino perscrutador dos destinos. Por exemplo, o líder da gangue, bem no começo, parece compreender bastante bem o perfil de um de seus comparsas, um garoto jovem que parece interessado apenas em ação. Pois ele não faz a menor questão de salvá-lo (nem ele mesmo, de se salvar). Podemos interpretar isso como uma crueldade maior do que todas: a de conduzir o boi velho para a piranha. Mas não: temos de entender que ele, o líder, sabe melhor do que nós a regra do jogo. E sabe que na vida as coisas são assim. Sua compassividade é realmente decidir deixar o outro ao seu destino, condenado-o de antemão. Isso não é crueldade: é sabedoria.

Vemos, em seguida, como, após o massacre do começo do filme, um de seus comparsas, atingido no rosto, pede clemência ao líder, dizendo-lhe que consegue montar (a cavalo). Ocorre que, entre esses sujeitos, sabe-se muito bem qual a verdade, e não se pode mentir. A mentira, que está no pedido de clemência, chega a ser até mais cruel e condenatória do grupo (porque o que importa é o grupo) que a própria verdade. Ocorre, porém, uma pequena pausa na conversa entre eles. Uma pausa oferecida pelo líder. A pausa da verdade. E nessa pausa o comparsa atingido precisa admitir: não consegue. Portanto, precisa ser condenado à morte. Precisa ser sacrificado. E é o que os que conhecem a regra do jogo entendem. Ele o é, e só lamenta quem não entende a regra do jogo da vida. Pois o líder foi quase compassiva ao matá-lo. Cumpriu as regras que todos assumiram para si, e nessa tarefa continuou fazendo o que era correto. Ao não dar clemência, foi clemente para todos.

Em seguida, o colega mais próximo dele joga a regra clara do chefe em jogo, deixando quem poderia a ela se opor a ver navios. Nesse momento, vemos como a clemência, que não vale para eles, é a regra que os torna o que são: uns zé-ninguém, afastados da sociedade, e portanto sem salvação. Porque eles, em seus destinos, se consideram impossíveis de serem salvos. E o colega (Borgnine), ao colocar isso na cara de todos, torna-se o padre a fazer a reza daqueles crentes do nada. Pois nesses detalhes Peckinpah mostra-nos que, ao não serem clementes, todos os presentes nesse grupo estão sendo-o diante da noção de seres humanos que eles encarnam. Ou seja, eles ainda encarnam valores, não os de todos nós, mas ainda valores pelos quais eles matam e morrem. Pois podemos ser contra eles matarem, mas eles não matam apenas por sobrevivência. Eles matam porque acreditam em algo. Em um algo que os supera, que os torna mais do que apenas animais escapando do cerco.

Pode-se supor, estranhamente, que eles, os homens do bando, defendem uma ética da crueldade. Mas não é isso. Eles, ao se suporem defensores de uma ética, supõem-se sujeitos a ela, e portanto clementes àqueles que a defendem. Como iremos comprovar nos próximos posts.

Espero que tenham gostado.


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