o olhar amor na arte após o fim da arte e da filosofia

Veja ao seu redor - a saída existe e está em tudo e em todos nós

Contreraman

Antes:
E as coisas que continuam já se foram. E as que se foram continuam para nunca terminarem. Até um fim que nunca vem.

Depois:
Vale o que tem amor.

Sobre ler os Evangelhos como história, e como isso esclarece

Os Evangelhos, que são apenas uma pequena parte da Bíblia, são livros que muitos de nós lemos desde criança, mas que podemos passar boa parte da vida sem compreender. Por vezes, lemos apenas trechos deles, e lhes damos excessiva importância (a depender de como os lemos), mas por vezes acontece, quando temos sorte, que finalmente conseguimos lê-los tal qual precisamos. E é então que percebemos como são sábios, como nos traduzem um saber que nos ultrapassa, e como sempre parecem guardar lições que não nos cansam de iluminar.


op.jpgOs Evangelhos, antes de mais nada, contam uma história. Uma história que tem a ver com algo que já foi contado antes, por profetas, mas uma história que também vale por si, porque nos conta a chegada do Messias, e como ele passou a época em que ele foi considerado por muitos como tal, mas também como isso não bastou, pois ele teve de ser imolado, crucificado e morto, para mostrar quem ele de fato ele era e por que ele nos diz a sua mensagem até a nós mesmos, homens comuns, vivendo neste século, muito depois de tudo o que aconteceu.

Ver os Evangelhos como quatro narrativas de uma mesma história, cada uma com uma determinada ênfase, faz com que a gente perceba as coisas com começo, meio e fim, e com que a gente entenda por que Jesus fez as coisas, cada uma do seu jeito, a cada momento. Vendo-os como uma história, uma trajetória, a gente quase sente Jesus andando naqueles locais, avançando por cidades que existiram de fato, subindo em barcas concretas, curando gente real, e convidando aqueles que iriam ser seus apóstolos, que eram homens comuns, a seguirem-no, da forma mais literal possível. A acompanharem os seus passos e a reproduzirem seus atos, seus gestos e seus atos de cura e milagres.

Mas não é assim que costumamos nos defrontar com os Evangelhos. Na maioria das vezes, vemos esses livros por trechos, repetidos por padres, ou por pessoas que dizem entender o significado das parábolas neles presentes. Muitas vezes paramos em algum desses trechos e pensamos que eles querem nos dizer algo em nossas situações concretas, em nossas necessidades rasteiras, ou mesmo que têm algo a ver com nossos problemas. Quando fui me reaproximando da religião católica, foi assim que eles passaram a falar para mim, enquanto abria meu coração e me deixava levar por mensagens que eu achava que entendia.

Ocorre que os Evangelhos são o clímax de profecias ditas em livros anteriores. Pois nesses livros os profetas já avisavam que ele iria chegar, que algo iria acontecer com ele de determinada forma, e que ele iria ser recusado e iria inclusive ser crucificado. Nesse sentido, os Evangelhos narram os acontecimentos da vinda de um homem que havia sido profetizada, e cuja reação havia também sido explicada muito tempo antes. Pois no fundo a história de Jesus é a revelação de algo que todo mundo já esperava, mas que cada um via a seu modo.

Quando leio os Evangelhos do começo ao fim, enquanto história, percebo como Jesus fazia tudo do começo ao fim, quase consigo vê-lo naqueles lugares, avançando aqui e acolá, e meto-me a refletir sobre os motivos pelos quais ele fez tudo do jeito que fez. Mas entendo melhor as parábolas, porque elas têm a ver com uma mensagem maior, e começo a distanciar-me de meu trajeto pessoal, de meu caminho, e entendo por que sua mensagem é tão forte. Compreendo alguns momentos de tudo por que ele passou, e entendo até mesmo a reação dos homens que o acompanharam, transmitindo a Palavra.

Quando isso acontece, percebo como ele é real, como ele diz coisas que entram realmente em meu coração, e como ele diz a mensagem que todos nós queremos ouvir. Percebo isso ao mesmo tempo em que noto como sou pequeno, como minhas verdades são transitórias e muitas vezes falsas, e como sou fraco, ao não acreditar por vezes no que há de mais verdadeiro a ser apresentado por ele e pelo mundo. Noto como sou humano e fraco e rasteiro, e percebo como ele me convida a segui-lo, nessa trajetória que tanto tem de simples e singelo, mas que nós, seres humanos, traduzimos cada um de nosso modo, ora dando um valor excessivo à ideia da cruz, ora reproduzindo com tintas quase cinematográficas momentos que estão na história mas que são apenas isso, momentos, ora modificando o que ele disse de acordo com nossas próprias conveniências, quando o que ele diz é realmente simples. E é um convite, que a depender do estado do nosso coração a gente ainda reluta em admitir, e ainda mais importante, em seguir.

É então que percebo como minhas leituras anteriores da Bíblia eram insuficientes, como minhas escolhas por trechos daqui ou de acolá eram arbitrárias, como no fundo apenas pegava as mensagens escritas como lições que eu deveria me prontificar a seguir cegamente, ou sem reparar realmente naquilo que importava, e como tudo no fundo era fraco, instável, e uma desculpa para seguir alguma lição de sabedoria mundana. Porque quando a gente lê os Evangelhos de cabo a rabo, como uma história, e em que vemos os eventos se sucedendo e as mensagens sendo ditas, diretamente ao nosso coração, é que percebemos como ele nos fala claramente ao nosso coração, e como, em suas mensagens singelas, nos pede que o sigamos, que o acompanhemos na jornada, nos prometendo o que mais queremos, viver para sempre. Porque no fundo é isso o que ele nos dá, uma garantia de vida para além de nosso sofrimento, de nossas atribulações, dando-lhes um sentido que escapa de nossa trajetória particular, mas que depende dela, depende daquilo que façamos tão logo ouvimos a Palavra.

Não digo que os outros livros da Bíblia não tenham muito a nos oferecer. Têm e muito mesmo. Mas é lendo os Evangelhos, tal qual eles se apresentam a nós, é que conseguimos entender o convite que nos é feito, enquanto homens e mulheres comuns, e é então que percebemos a sabedoria contida em tudo o que está lá, algo que parece nos superar sempre em muito, mas que está claramente, e o tempo todo, a nosso alcance. É linda a sensação de lermos esses livros e descansarmos conosco, com nosso espírito, logo depois. A gente se sente tão livre e solto, realmente salvo, em nossos desejos, e no que há de mais profundo de nosso ser. Mas para que possamos passar por isso precisamos ler com calma, abrindo os olhos e principalmente o nosso coração. Só assim, ao que parece, a mensagem realmente consegue entrar. E quando entra é um paraíso por si só.

Convido-os a essa tarefa, tão simples quanto é simplesmente viver. Leiam, como se estivessem lendo uma história, e não se deixem enganar com as dúvidas que ficarem, nem com as certezas que lhes são inculcadas bem no interior de si mesmos. Elas são reais, e quanto mais vocês vivenciarem a verdade mais perceberão como tudo isso é real. Talvez o que há de mais real no mundo todo.


Contreraman

Antes: E as coisas que continuam já se foram. E as que se foram continuam para nunca terminarem. Até um fim que nunca vem. Depois: Vale o que tem amor..
Saiba como escrever na obvious.
version 4/s/literatura// @obvious, @obvioushp //Contreraman