o olhar amor na arte após o fim da arte e da filosofia

Veja ao seu redor - a saída existe e está em tudo e em todos nós

Contreraman

Antes:
E as coisas que continuam já se foram. E as que se foram continuam para nunca terminarem. Até um fim que nunca vem.

Depois:
Vale o que tem amor.

Toda a própria salvação em um mísero pequeno gesto

Porque lá na frente, a gente sente palpavelmente, algo nos espera. É como se precisássemos nos alertar de nossas fraquezas para perceber que precisamos ser fortes.


nao ee bonito.jpgQuando eu era repórter de geral, um dia visitei uma Igreja evangélica de origem norte-americana, em Guarulhos, em cujo local havia um sujeito, com uma tala na perna (havia recebido tiros), que era obrigado a fazer pequenas tarefas repetindo a todo momento algo que dizia respeito a Jesus. Um superior olhava para ele com muita determinação, e a gente entendia que ele, o sujeito, só iria receber alguma ajuda se cumprisse fielmente aquilo que estava lhe sendo dito. Na hora, fiquei um pouco surpreso, mas eu me perguntava: seria necessário?

Nós, seres humanos, tendemos, por influência ou burrice mesmo, a fazer coisas erradas. Na hora, sentimos que não há de mal nisso. Que ninguém iria se importar se, por algum motivo maior, resolvermos dar uma pequena escapadela e fazer algo indevido. Um pequeno gesto, uma pequena mentira, uma pequena traição. Só depois, quando aprendemos algo mais da vida, é que percebemos que não devemos escapar nem um pouquinho que seja da trilha certa. Porque lá na frente, a gente sente palpavelmente, algo nos espera. É como se precisássemos nos alertar de nossas fraquezas para perceber que precisamos ser fortes.

Acontece que, para aquela pessoa acostumada a errar, ou a pensar errado, o tempo pode funcionar tanto para o bem como para o mal. O tempo pode fazer com que aquela pessoa que cometia pequenos delitos depois cometa uns muito maiores. Ou pode também fazer com que, se sujeita a determinadas influências, a pessoa se corrija, e consiga lidar com sua tendência de forma a não errar mais, ou pelo menos não errar tanto a ponto de comprometer sua vida para sempre. A religião, noto eu hoje, serve como uma pequena influência que para aqueles bastante comprometidos pode resultar a grande diferença. Pode fazer com que a pessoa escolha, até contra a própria vontade, uma vida menor mais mais adequada a outra aparentemente mais livre, mas totalmente errada.

Para aquele sujeito com a tala na perna, aquela igreja deveria ser a última saída. Ocorre que essa igreja tinha normas, e tinha formas de entender sujeitos daquele tipo. Esse tipo de saída, para pessoas em tal situação, exige mudanças drásticas, obediência estrita e muita disciplina. Pois, para pessoas naquele estado de devassidão, moral e prática, somente uma norma muito clara e impossível de fugir poderia adiantar. É quando a gente percebe que, para aquele sujeito, naquelas condições, aquele tipo de tratamento vinha para o seu bem, era determinado para que ele realmente se reabilitasse, e era conduzido por quem sabia o que era aquilo, e sabia sentir-se na sua situação. Pois aposto que quem olhava por ele era alguém que talvez houvesse passado por algo muito pior do que ele.

Claro que, para quem se reabilita, qualquer escorregadela é fatal. Qualquer demanda moral mal cumprida pode acabar resultando em sua ruína. Qualquer pecado, mesmo que pequeno, pode representar, para aquele tipo de pessoa, uma perdição completa. Somente assim, então, é que percebemos claramente a situação daquele tipo de pessoa.

Sei bem o que é isso. Acordar e de repente, meio que sem perceber, fazer o que é errado. Dispor-se a pensar errado. Falar errado. Comportar-se errado. Vestir-se errado. Para quem está mal acostumado, tudo isso é tão fácil quanto respirar. Para quem tende a pensar o mundo de forma torta, fazer o que é certo é quase revolucionário. Mesmo que isso seja apenas limpar uma privada. Ou limpar a bunda.

Tem um filme, bastante conhecido, chamado "Expresso para o Inferno", em que isso fica absolutamente claro. Um sujeito que se acha esperto diz que gostaria de ser livre para fazer e acontecer. Enquanto outro, bem mais experiente e experimentado, lhe diz que não, que ele deveria querer ser aquele funcionário limpando uma privada que, quando chamado à atenção, por algum erro minúsculo, simplesmente abaixaria a cabeça diante do superior e cumpriria o que foi mandado. Ocorre que o sujeito (Jon Voigt, fantástico) que lhe diz isso afirma também que ele bem que gostaria poder fazer assim, simplesmente obedecer. Mas que não conseguia mais. Um filme triste, que acaba tristemente.

Por isso, quando você vir uma pessoa qualquer tentando se superar em algum aspecto que você considera pequeno demais, ou mesmo um crente, que sente que precisa rezar a toda hora para - conforme diz - se salvar, não ria nem nada. Nem sorria. Talvez ele tenha razão. Pois há ocasiões em que somente nós podemos ser os maiores carrascos de nós mesmos.


Contreraman

Antes: E as coisas que continuam já se foram. E as que se foram continuam para nunca terminarem. Até um fim que nunca vem. Depois: Vale o que tem amor..
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