o olhar amor na arte após o fim da arte e da filosofia

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Contreraman

Antes:
E as coisas que continuam já se foram. E as que se foram continuam para nunca terminarem. Até um fim que nunca vem.

Depois:
Vale o que tem amor.

O "problema" do Cristo na Cruz

Diria que a Cruz é a nota fiscal de um crime que todos nós cometemos. Uma nota fiscal porém que não expressa o ensinamento desse crime, que foi passado enquanto Jesus estava e ficou vivo entre nós.


10016-este-e-o-profeta-jesus-de-nazare-da-galileia.jpgQuando a gente se converte, e passa a ler, a frequentar missas ou cultos, e a trocar ideias com conhecidos a respeito, começa a refletir nessa questão das imagens. Não na questão que atingiu a Europa nos séculos XVI e XVII, nem nos conflitos resultantes, nem mesmo nos questionamentos que diversas igrejas fazem ao culto de imagens que é feito por muitos, católicos ou não. Mas na questão do ensinamento que as imagens passam, e que nos perpassam em sua divulgação de mensagens, e mesmo de formas de ver a religião como um todo. Ou mesmo na forma de nos relacionarmos com Deus.

A imagem por excelência do Catolicismo é a cruz. A cruz enquanto símbolo com Jesus crucificado, a cruz enquanto símbolo que fazemos (persignamos) quando rezamos ou assistimos missas, a cruz enquanto peso a carregar (por Jesus e por nós mesmos), a cruz enquanto estandarte de conquista do mundo, para o reino de Deus.

Quando vemos a cruz tal qual ela é vendida em terços (rosários), vemos ali Jesus Cristo dependurado e morto. Vemos seu corpo morto, enquanto sua alma vive, e sua ressuscitação ocorre no terceiro dia. Vemos também seu martírio, que alguns pintores, se não exageram, pintam com cores mais vivas, mais potentes, para nos lembrarem do que aconteceu. Vemos a humilhação, na inscrição INRI (aqui jaz o rei dos judeus), vemos também toda a Paixão (passio = sofrimento) pela qual ele teve que passar, de livre e espontânea vontade, tal qual dito nas profecias.

Mas vemos também um corpo alquebrado, distante do Jesus que ensinava. Vemos um corpo traspassado por lança, o mesmo corpo do homem que era seguido pelos apóstolos e por todos que sabiam que ele era filho de Deus. Vemos um corpo humilhado, o mesmo corpo com que Jesus falava com as crianças, ou que lavava os pés dos apóstolos, ou que dividia o pão entre os seus, na sua Última Ceia. Vemos, então, o fim da história. Não vemos aqueles momentos que fizeram de Jesus o que ele foi, nem ouvimos as palavras que ficaram para a eternidade e que abrem nosso coração, nem o vemos, a Jesus, tomando atitudes raivosas contra quem profana o templo de Deus.

A imagem de Jesus pendurado na Cruz nos perpassa muitas emoções. A gente se condói, se emociona, tende a esquecer o que ele disse, e nos prendemos em seu sacrifício, que ele fez por nós. Em suma, podemos, quando olhamos tanto a cruz, e quando nos perdemos nela, esquecer-nos da efetiva mensagem que ele nos passou, por que ele morreu, que é a mensagem de nossa salvação. Diria que a Cruz é a nota fiscal de um crime que todos nós cometemos. Uma nota fiscal porém que não expressa o ensinamento desse crime, que foi passado enquanto Jesus estava e ficou vivo entre nós.

Eu estava comentando isso com uma pessoa que me ajudou num pequeno problema. A pessoa me ouvia, absorta, mas concordante, dizer que o que importa é Jesus vivo, aquele que nos disse aquelas coisas, aquele que provou com atos como ele nos amava, aquele que ainda nos ama, por mais besteiras que façamos. Ela me ouvia concordante porque deveria sentir, há muito, que essa ênfase no Cristo morto parece maltratar o cuidado que temos, todos nós que cremos, com a mensagem mais do que viva de Jesus. Porque essa mensagem, essa mais do que viva, quando nos atinge, realmente nos salva.

Claro que é inevitável ficarmos focados na Cruz. Pois as missas realçam esse símbolo, porque ele diz tanto para nós, porque ele sintetiza tanto da mensagem que Cristo quis passar. Mas existem muitas outras imagens rondando toda a religião, toda a Bíblia, todo o trajeto em que ela consiste. Como, por exemplo, Jesus montado no burrinho fêmea que nunca havia sido montado (e as pessoas recebendo-o com mantos e flores no caminho).

Ou Jesus nascendo, no presépio. Ou Jesus no meio do mar, acalmando-o (ou andando nele). Ou Jesus apascentando suas ovelhas (seus discípulos). Existem incontáveis imagens espalhadas por toda a Bíblia que passam bastante bem os momentos mais importantes da vida, da obra e da paixão de Cristo. Claro que também existem muitas imagens somente da Paixão, que são reencenadas, mas essas imagens são do seu calvário, não necessariamente dos seus ensinamentos. Ela nos causam culpa, mas também horror. E desse horror só podemos nos sentir mais culpados. Quando ele já nos perdoou (claro que isso não quer dizer que estejamos agora livre para percarmos, mas, se ele nos perdoou, podemos ficar alegres com isso). Existem também muitas imagens de missa, das missas concretas, dos cultos, dos peregrinos, etc. Imagens são o que não falta.

Mas para além das imagens precisamos nos focar naquilo que efetivamente Jesus passou. Seja com suas palavras, seja com seu exemplo. E entendermos que o amor não está apenas no seu sofrimento por nós, naquilo por que aceitou passar. Porque o amor está em todas suas parábolas, em suas mensagens claras distantes de parábolas, nas provocações a que ele respondia o tempo todo (de parte de quem queria prendê-lo ou matá-lo), nos milagres que fazia (que em um Evangelho aparecem com maior destaque que em outro), em tudo o que os saberes souberam traduzir em crença estabelecida.

E se formos ver bem talvez nós nos identifiquemos mais com outras imagens, que não a da Cruz. Não há nada de errado nisso: é a forma como nosso espírito evolui, como ele entende melhor a mensagem e como sai de si mesmo em direção à eternidade.


Contreraman

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