o olhar amor na arte após o fim da arte e da filosofia

Veja ao seu redor - a saída existe e está em tudo e em todos nós

Contreraman

Antes:
E as coisas que continuam já se foram. E as que se foram continuam para nunca terminarem. Até um fim que nunca vem.

Depois:
Vale o que tem amor.

AQUELE PEQUENO PASSO

Pergunto-me por que em geral consideramos essas pessoas perdidas, se podemos, nós mesmos, ser capazes de lhes proporcionar esse pequeno afã, essa pequena crença.


jack_lemmon_naked_oscar_18gjq04-18gjq0n.jpgUm dia, na saída do cursinho do Etapa da rua Frei Caneca, no começo dos anos 80, eu me deparei com um sujeito que dormia embaixo de uma marquise em frente à escola. Não sei o que fez com que eu lhe perguntasse por que ele ficava ali. Ele me disse que era enfermeiro, mas que um dia havia ganho na loteria. No dia em que a esposa e os filhos foram comemorar fazendo uma viagem, eles morreram num acidente de estrada e ele decidira ficar ali. Fora uma fatalidade, mas ele prefirira desistir de tudo. Encontrei esse mesmo sujeito por anos a fio naquela região, andando no meio da Paulista, até que por volta da década de 2000 ele sumiu. Estava gordo e percorria a avenida fedendo.

Naquela época, eu andava muito pela avenida Paulista e familiarizei-me com pessoas praticamente de rua que com o tempo definhavam, se tornavam mendigos ou simplesmente desapareciam. Outros (guardadores de carro, por exemplo) sofriam algum tipo de acidente e passavam o resto dos seus dias andando pela região. Lembro-me de um, em especial (que não vejo há algum tempo), bastante forte, que foi ficando cego e fraco com o passar dos anos e que nos últimos meses que o vi andava por aquelas ruas com uma bengala. Perdeu também os dentes da frente e tornou-se uma miragem em relação ao homem forte que ele era.

Foi nessa época que passei a me focar com interesse nas pessoas chamadas de rua. Pessoas sofridas, que passam a vida fazendo pequenos bicos na frente de todos, que tratam a rua como uma espécie de patrimônio pessoal e que aos poucos se deixam afetar pelas péssimas condições de trabalho e de tratamento na rua, por vezes vindo a definhar e a falecer por alguma eventualidade de trabalho ou mesmo por doença. Claro que não todas as pessoas que passam suas vidas nas ruas assumem comportamentos que as fazem passar por riscos maiores do que os normais. Algumas dessas pessoas simplesmente passam por ali, e conseguem conciliar suas atividades com estilos de vida mais comedidos. Já outras parecem com o tempo uma espécie de cães sem dono, sem nada a guiá-los com maior força do que a rua mesmo.

Por outro lado, alguns frequentadores da rua são pessoas que passam parte dos seus problemas pessoais em lugares públicos. Pessoas que por algum motivo se sentem deslocadas nos lugares em que trabalhavam ou em que vivem e que escolhem a rua para tentar desanuviar ou se encontrar. Com o passar do tempo, a gente identifica essas pessoas facilmente. E percebe, em primeiro lugar, que as pessoas não são pessoas daqueles locais. São pessoas que buscam algo, em si ou em outras pessoas e ambientes, mas que não conseguem se enturmar praticamente em nenhum lugar que aparecem. Há algo no olhar dessas pessoas que trai seu aparente destino, e que as torna presenças desaconselháveis para as pessoas que efetivamente passam seu dia na rua. Porque essas pessoas, essas deslocadas, são pessoas que não sabem lidar muito bem consigo mesmas e com os outros nos locais em que aparecem. Ou falam muito alto, ou aparecem com coisas estranhas (como notebooks em lugares em que eles não costumam ser usados), ou tentam puxar papo com pessoas que claramente não querem conversa, etc. São pessoas às quais falta alguma coisa (ou parece faltar).

Muitas dessas pessoas aparentemente deslocadas se tornam "antigas" conhecidas dos atendentes, frequentadores, amigos dos donos dos bares ou das lojas, e por vezes criam problemas diversos. Ora porque não sabem se aproximar das pessoas que aparecem, ora porque falam coisas incômodas ou que ninguém quer ouvir, ora porque a própria presença parece incomodar as pessoas que passam. Porque essas pessoas deslocadas ficam ali sem nada para fazer, ou sem fazer nada, e parecem ocupar um espaço que poderia estar tomado por outro tipo de pessoa, ou por outras pessoas. Claro, muitas vezes essas pessoas deslocadas ficam em alguns bares ou lanchonetes por meras temporadas. Passam algumas semanas por lá e depois vão embora. Para aparecerem logo ali, em outros bares ou lanchonetes, e incomodarem (ou não).

Falo dessas pessoas com alguma categoria porque, de certa forma, eu fui uma delas. E em várias fases. Teve a fase das saídas na noite, em lugares mal-afamados, ou em lugares que só as pessoas perdidas frequentam (o resto é cliente, claro). Teve a fase das saídas em livrarias, ou em lugares que me promoviam alguma atração, intelectualmente falando. Teve a fase das idas a bares e lanchonetes antes e depois de passar no teatro, ou em lugares em que eu assistia espetáculos. Em algumas dessas ocasiões eu não estava propriamente sozinho, mas parecia estar. Eram situações em que o meu deslocamento superava qualquer relacionamento que eu pudesse ter, e situações em que eu parecia estar bem, ao menos com dinheiro e sabendo gastá-lo. Nessas situações eu chegava também a conversar com os atendentes, embora menos. Teve também a fase em que eu não tinha mais alguém comigo e em que eu ficava horas a fio usando a internet (wifi) alheia, tentando me convencer de que fazia algo para valer, para mim ou para mais alguém. Teve muitas fases. Nunca fingi me dar bem com as pessoas, pelo menos. Nunca puxava conversa com desconhecidos ou desconhecidas. Nunca me meti em enrascadas das quais eu não pudesse depois sair. Mas eu me lembro. Eu era uma dessas pessoas.

Um parente muito próximo, já falecido, era outra dessas pessoas que eu identifico como sendo dessas pessoas deslocadas, perdidas, sem saber onde ficar ou para onde ir. Essa pessoa no caso bebia nos bares e lanchonetes e conversava com os atendentes ou com as pessoas que passavam por lá. Era um sujeito solitário e sozinho (não é a mesma coisa) que não se sentia à vontade no lugar em que dormia e com quem lidava, que não tinha papo (passou a vida inteira sem ele) com as pessoas que poderiam ter sido próximas, e era de alguma forma antipático, por falar de assuntos que em geral só interessavam mesmo a ele. Essa pessoa foi a que me mostrou em primeira mão como uma pessoa deslocada se torna e se comporta. Mas depois, muito depois, vi bastante gente com esse perfil, assim como fiz o perfil, mesmo sem o saber. Porque essas pessoas meio que têm um buraco dentro de si. Elas precisam sair e conversar com alguém, ou tentar, para preencherem algum problema com o qual elas em geral não sabem ou não conseguem lidar. São pessoas que precisam de algum conforto, e cujos comportamentos lhes mostram quão desconfortáveis se encontram em qualquer lugar, e principalmente consigo mesmas.

Os filmes são pródigos em mostrar personagens como esses. São geralmente sujeitos de meia idade, ou até jovens, que ficam nos bares sozinhos, sem terem com quem falar, assumindo comportamentos até certo ponto arredios. Ou são mulheres solitárias, com problemas familiares ou sem relacionamento fixo, que bebem mais do que a média e que passam a assumir trajetórias até certo ponto erráticas, com as famílias, com os namorados ou maridos, mas principalmente consigo mesmas. São personagens que parecem perdidos na vida, que vão a bares e lanchonetes sozinhos ou acompanhados para passarem o tempo e tentarem encontrar uma luz para si mesmos. São em geral personagens urbanos (mas também existem os rurais), que vivem em meio a prédios sem conta, e que mesmo com perfis sócio-econômicos definidos e estáveis parecem não estar muito à vontade com o mundo tal qual ele se apresenta (para eles). São pessoas em geral solitárias e sozinhas, que assumem comportamentos morais muitas vezes erráticos, muitas vezes questionáveis, e que não parecem encarar as pessoas ditas normais de forma muito normal ou tradicional. São pessoas que parecem ter problemas.

A gente pode se perguntar se essas pessoas (ou personagens) têm alguma saída. Se eles realmente se perderam na vida ou se podem encontrar algum anseio a mais na vida que lhes permita esperar algo mais dela. Claro que cada um desses personagens possui seus próprios problemas. E que pode considerar-se submetido a eles, ou de alguma forma livre deles. Podemos considerar que essas pessoas estão perdidas, em busca de algo que as faça sair do estado em que se encontram, ou se já se habituaram ao seu destino, e consideram que não há saída viável para si mesmas. Não é possível estabelecer uma regra geral. Mas - é sobre isto que versa este artigo - considero que, em geral, há para essas pessoas, sempre, sim, uma pequena opção de saída - quando esta escapa do comportamento atual delas. Uma saída feita de pequenas indicações, pequenos passos, ou às vezes até mesmo apenas UM pequeno passo. Uma pequena impressão, um pequeno aviso, uma pequena ajuda, uma pequena resolução, que, tratada com carinho, pode demandar uma nova direção. Algo que faça a pessoa sair do estado lisérgico em que em geral se encontra. Algo que pode advir de alguém ou de algo que está bem à frente, ou que pode surgir de outro lugar, muito depois, por parte de um familiar, da família como um todo, ou mesmo de um amigo qualquer, que lhe diga algo que realmente entre em seu coração. Considero assim, porque sinto assim. E porque vejo que em geral, quando isso não acontece, a pessoa realmente se perde. Vai aos poucos, com pequenos passos, mas de forma inelutável, quase impossível de perceber mas que leva a um fim certeiro.

Pergunto-me por que em geral consideramos essas pessoas perdidas, se podemos, nós mesmos, ser capazes de lhes proporcionar esse pequeno afã, essa pequena crença. Pergunto-me se temos, em cidade grande, ainda continuar a tratar nossos desconhecidos sem essa vontade, que pode surgir no meio de nós, ou se podemos quem sabe lhes dar um alento. Pois sabemos que essa pequena diferença surge quando há amor. Um pequeno amor. Mas por outro lado ela só faz alguma diferença quando a outra pessoa consegue, no limite de suas forças, abrir-se a esse pequeno amor - em geral desinteressado. Hoje mesmo vi duas situações em que um sujeito, aparentemente perdido, se dirigia às pessoas ao seu redor, desesperado, mas não conseguiam compreender o que ele queria (eu mesmo não consegui). E por outro lado vi uma atendente que numa ocasião recente ouviu o que eu tinha a dizer e cujo olhar mudou um pouco, porque entendeu que eu lhe disse o que disse esperando o melhor da parte dela. Seu olhar melhorou. Talvez nos salvemos, talvez.

Na foto, Jack Lemmon em Sonhos do Passado


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