o olhar amor na arte após o fim da arte e da filosofia

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Contreraman

Antes:
E as coisas que continuam já se foram. E as que se foram continuam para nunca terminarem. Até um fim que nunca vem.

Depois:
Vale o que tem amor.

O TEOR DA MENSAGEM QUE DESCANSA EM UMA GARRAFA

Vai que alguém a pega.


ab403a5fb3df555c4b1621ef6dd20715.jpgVivemos numa sociedade em que as mensagens adquiriram um teor de gratuidade, são por outros promovidas e jazem condenadas a vagar em busca de cliques num mundo digital que a todos informa e a alguns deforma. Lemos a toda hora, tudo quanto é mensagem, derivada de tudo quanto é fonte (muitas vezes não confiável), algumas vezes rimos, a replicamos, comentamos e aos poucos esquecemos. Outros ficam com essas mensagens por algum tempo na mente, e até usam-na para comentar algo com algum vizinho ou colega de trabalho. Mas, como todos ou praticamente todos estão conectados, fazemos perfis mentais de quem lê e passa as mensagens e nem precisamos mais falar com essas pessoas.

As mensagens meio que pairam num espaço de nuvem de que todos participamos e no qual assumimos um perfil que pode sumir facilmente com o tempo. Somos ainda importantes enquanto pessoas físicas, reais, mas permanecemos na mente das pessoas que nos conhecem mais enquanto virtualidade, como se estivéssemos nos transformando na máquina virtual da pessoa que lembra de nós e assumindo caras que às vezes nos surpreendem.

Ocorre que nós também espalhamos mensagens. Não apenas as divulgamos, quando as pegamos enquanto passam nas redes sociais que nos conectam uns com os outros. Nós também escrevemos mensagens e buscamos algo com elas, nem que seja para nós mesmos (enquanto satisfação) ou na medida em que a gente atinge alguém (para fazer alguém qualquer pensar um pouco). Claro que nós, nessa barafunda de mensagens que pululam o tempo todo, que surgem a partir de jornais, sites, portais, agências de notícias, grupos de face, páginas de face, etc, competimos de forma desleal com toda essa quantidade enorme de fazedores e divulgadores de mensagens.

Nós somos apenas uma pessoa escrevendo numa garrafa, e jogando essa nossa mensagem no mar. Isso quando temos mensagem a espalhar. Isso quando temos ainda energia para termos alguma mensagem. Ou quando temos acesso ao mar. Porque muitas vezes estamos no deserto, e a mensagem que eventualmente tenhamos precisará, no deserto, ficar parada no meio da areia até ser coberta por ela e descoberta, milhares de anos depois, por algum arqueólogo do saber. Isso então quando temos mar a espalhar nossa mensagem. Qual o sentido, então, de nossa mensagem na garrafa? Se percebemos que muito poucos a lerão, quem sabe até ninguém? Se notamos que muitos que a lerão não gostarão e a deixarão passar, sem refletirem nem um pouco a seu respeito? Se percebemos que muitos que a lerão não terão condições de percebê-la melhor, caso seja um pedido de socorro, ou um conselho para a vida, ou apenas um recado que o emissor gostaria de passar ao pé da orelha, como uma espécie de desabafo (ou de pedido)? Qual o sentido de mensagens na garrafa como estas que às vezes vemos perdidas na web, esperando algum desavisado passar?

Houve uma época (não faz muito tempo atrás) que a demanda por expressão era premente. As pessoas e os grupos diziam que não tinham como se expressar. Que o discurso predominante decidia tudo. Hoje, o discurso predominante tornou-se mais complexo, e sujeito a maiores influências. Mas ele continua, como se diz, predominando. Por outro lado, as pessoas arrumaram formas de se expressar. Para poucas pessoas, algumas, grupos ou mesmo para muitas pessoas. As mensagens de garrafa tornaram-se meios de divulgar uma mensagem. De tentar alcançar mais gente, de ser mais influente.

Mas, aqui entre nós, a maioria das mensagens divulgadas por aí são mesmo de garrafa. Não atingem ninguém. Servem, na maioria dos casos, como uma forma de desabafo, de desafogo, de compartilhamento de algo que não tem muita importância, ou até como uma forma de apenas passar o tempo, perdê-lo, jogando impressões que ninguém vai ler e a quem ninguém importa. Nota-se que as mensagens de garrafa são então isso mesmo: formas de jogar ao léu algo que nos incomoda. De argumentar com aquele que muitas vezes nem quer nos ouvir.

Por que ainda ouvir ou ler mensagens de garrafa? Alguém se importa com elas? Alguém lê um textão (como este) até o fim? Pois é. Alguém lê. Porque, por mais longo que seja o texto aqui (claro que sem exageror), e por mais atabalhoada que seja a vida, nós por vezes estamos dispostos a ler mensagens em garrafas. Porque achamos que algo de novo irá surgir. Que alguém irá nos dizer algo importante. Porque talvez a gente pense que pode ser importante, afinal, para alguma coisa neste mundo. Nem que seja para contatar o autor e mandar um like. Tipo: continue. Porque no fundo somos pessoas isoladas com muitas mensagens de garrafa que não se cansam de querer sair de nós. Vai que alguém pega. Vai que alguém pega.


Contreraman

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