o olhar amor na arte após o fim da arte e da filosofia

Veja ao seu redor - a saída existe e está em tudo e em todos nós

Contreraman

Antes:
E as coisas que continuam já se foram. E as que se foram continuam para nunca terminarem. Até um fim que nunca vem.

Depois:
Vale o que tem amor.

QUANDO VISITEI PARIS (2) - OU A FUGA QUE TRAVEI DIANTE DE MIM MESMO

Porque quando a gente sai, a gente entra.


16712009_1885806351690747_266990045159972162_n.jpgQuando anunciei que eu iria à Cidade-Luz muitas pessoas se mexeram. A Cris, minha esposa, se preocupou muito com o que poderia acontecer. Minha irmã se prontificou em me ajudar no embarque (algo que me deixou muito cabreiro na hora). Eu mesmo não tinha a menor ideia de como iria ser. Note-se, era em 2003, depois do atentado das Torres Gêmeas, e havia já um clima de desconfiança com estrangeiros que só iria dar em mais atentados e clima de maior insegurança. Eu iria, com todos os documentos corretos, para um evento empresarial com tudo pago, nada tendo a ver com política nem nada, mas havia um certo clima de que algo poderia dar errado.

Eu sempre fui um sujeito econômico. E, mesmo tendo hotéis em lugares mais, digamos, chiques à minha disposição (perto de museus ou da vida noturna), escolhi ficar um hotel na Av. Gal. Leclerc, quase na periferia da cidade, mas mais próximo (indo a pé ou de ônibus) do Pavilhão de Exposições em que iria ocorrer a feira, chamada de JEC. A avenida Leclerc fica a poucos quarteirões do limite entre a Île de France (ou seja, a Paris que ficou célebre) e aquilo que começa a ser a grande Paris, que inclui a Paris industrial e a Paris dos subúrbios. Claro que o hotel em que eu iria ficar estava num ambiente ainda bastante importante (um bairro dos intelectuais, o Montparnasse), mas isso não fora o mais importante a ser considerado em minha escolha. Eu realmente estava mais interessado no trabalho (como sempre, aliás).

Eu iria levar muito material para divulgação, lotando malas que eu tive que jogar fora, porque estouraram. Iria também embarcar sem ninguém a me receber lá em Paris ou mesmo no hotel. Não haveria recepção alguma e eu estaria totalmente por conta própria. Era o que eu queria, mesmo que eu tivesse que amargar por problemas lá na cidade, no aeroporto ou em qualquer outro lugar. Na verdade, essa viagem era minha primeira estada, sozinho, numa cidade importante e inóspita para fazer algo profissional em que eu seria chefe de mim mesmo. Mas, como eu estava sozinho, também ficava muito nervoso com o que poderia acontecer.

Saindo de Cumbica, o vôo foi tranquilo, mas lá em Paris um sujeito do aeroporto cogitou em duvidar dos meus documentos. Perguntou-me algo questionando meu destino e o que eu iria fazer, e foi a primeira vez que eu senti realmente que não era considerado totalmente confiável. Como não havia nada de errado com meus documentos, eu passei normalmente, mas desde já senti o arbítrio, que eles simplesmente poderiam ter me recolhido e que eu poderia perder a viagem. Deveria ser realmente estranho um sujeito mal vestido como eu carregando duas pesadas malas cheias de revistas apenas, e de material de marketing, que para eles não dizia nada e que poderia esconder algo por detrás de tanto peso. Eu também praticamente não tinha dinheiro para me virar, e meu francês, além de ruim, causava uma estranheza adicional. Meus contatos no hotel eram meros papéis, e eu tinha muita dificuldade em me comunicar.

Mas o sujeito não me parou e eu segui em frente. Não sabia como sair do aeroporto, nem queria pegar táxi nem nada. Não me lembro realmente como fiz. Só sei que num determinado momento da ida ao hotel eu desci na estação de metrô mais próxima ao hotel e fui a pé, carregando duas ou três pesadas malas. Eu me lembro bem de como via as pessoas andando normalmente na rua, muito melhor vestidas do que eu, e como nem reparavam em como eu, com muita dificuldade, carregava as malas e tentava me localizar naquela avenida e achar o pequeno hotel naquela avenida secundária. Estava frio na ocasião, era março, e minha roupa, também excessivamente pesada, atrapalhava muito minha vontade férrea de chegar no local. Foram diversos quarteirões nesse esforço, que me parecia dantesco, até chegar no pequeno hotel, bastante humilde, que como quase todos os que conheci tinha um pequeno elevador para ajudar, mas ao qual as pessoas entravam por uma escada em espiral super estreita.

Fui recebido normalmente pelos atendentes, que eram sujeitos jovens que pareciam estrangeiros (marroquinos ou argelinos). Eram sujeitos que não aparentavam muita simpatia nem confiança, e que me encararam como um estrangeiro que vinha para uma viagem também meio passível de desconfiança. Fui bem recebido, admito, mas eu também sentia um certo xenofobismo na forma como eles me trataram e encararam meus documentos e tudo o que estava inteiramente correto. Eu não me sentia muito à vontade com todo aquele clima de falsa receptividade, mas mesmo assim lutei para conseguir um quarto naquele pequeno hotel, levando comigo todas aquelas malas. O quarto era bastante pequeno, simples, aparentando aquele clima de quarto europeu ou parisiense com que eu iria aos poucos me acostumar. A janela era ampla e a vista era daquela avenida. Não havia nada de chique naquilo tudo.

A feira a que eu iria durava três dias, e ocorria no meio da semana. Eu chegara alguns dias antes, e tinha algum tempo para percorrer a vizinhança ou a cidade. Mas eu estava cansado e não queria andar muito por ali. Mas queria sair, e foi o que fiz. Deixei as malas no quarto, peguei os poucos euros que eu tinha e saí (era fim de tarde) para quem sabe visitar algum lugar próximo. Quando saí para a rua, vi diversas pessoas isoladas andando com pequenas compras, aparentando serem trabalhadores de volta para suas casas. A avenida Leclerc tinha muitas lojas ainda abertas, mas existiam pequenos mercados atulhados com pães e pequenos quitutes em que as pessoas faziam fila. Havia restaurantes próximos, mas eu não estava muito a fim de jantar, propriamente dizendo. Eu queria primeiro ver o local.

A rua, que não tinha nada de tão atraente, parecia apenas uma avenida secundária de uma grande cidade. Plana, podia ser percorrida facilmente, sem que a gente se cansasse muito. Mas não tinha nada que especialmente chamasse a atenção. Havia um MacDonald's numa esquina, eu me lembro, e até outro tipo de negócio de inspiração norte-americana, mas a via não tinha nem livrarias que pudessem me atrair, nem restaurantes que eu pudesse considerar mais do nivel da grana que eu estava disposto a gastar, nem nada. Uma coisa em que eu reparei, já de cara, era como tudo era caro. Uma baguete simples saía tipo uns 15 reais, pura e simplesmente, fazendo a conversão para reais. E eu não tinha nada que realmente me agradasse. A estética do local era diferenciada. E eu estava quase no subúrbio da cidade.


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