o olhar amor na arte após o fim da arte e da filosofia

Veja ao seu redor - a saída existe e está em tudo e em todos nós

Contreraman

Antes:
E as coisas que continuam já se foram. E as que se foram continuam para nunca terminarem. Até um fim que nunca vem.

Depois:
Vale o que tem amor.

QUANDO VISITEI PARIS (3) - O QUE É SENTIR-SE SÓ NUM LUGAR EM QUE NOS SENTIMOS ACOMPANHADOS

Um passeio por uma cidade de mortos ilustres.


16729258_1886102064994509_8354850787285585887_n.jpgMas eu mal havia chegado então em Paris. Via as ruas à noite, planas, com lojas abertas mas muito caras, e não sabia aonde ir àquela hora (eram tipo umas 19h). Então fui andando pelas quadras, tentando aproveitar o tempo, e via pessoas - que como eu já disse estavam muito melhor vestidas do que eu - simplesmente andando na cidade que era delas. Mas que não era minha cidade. Eu me sentia estranho, como um estrangeiro, realmente, como nunca antes eu me sentira. Sentia que havia a barreira da língua - embora eu arranhasse o francês. Havia a barreira da grana - que, eu sentia, iria me limitar fortemente. Havia a barreira de não conhecer o local - elas estavam à vontade, e eu me sentia inteiramente deslocado, mais do que nunca antes. Entendi então o que era ser estrangeiro. E me contive, fiquei olhando a tudo de fora, e não avancei em restaurantes, nem em pequenas padarias, nem nada. Devo ter comprado algo bastante barato só para não passar fome. Mas voltei ao hotel. Não me lembro se liguei para o Brasil para dizer que havia chegado bem. Não me lembro. Estava bastante frio naquela noite. E levei tempo até me acostumar ao jeito daquele quarto de hotel. Mas era aconchegante. De um jeito diferente: sentindo-me bem ao me cobrir bem com as cobertas.

Eu devo ter tido algum tempo naqueles primeiros dias, antes de ir àquele pavilhão de exposições para trabalhar. Eu estava num canto de Montparnasse, e tinha alguns mapas comigo. Mas não tinha a exata noção das distâncias, então não sabia quanto poderia levar para ir a determinado local. Sei apenas que eu não queria necessariamente visitar o que todos visitam, os locais turísticos. Eu queria ver a região e andar por aquelas ruas que me lembravam Buenos Aires, com os prédios antigos e baixos.

Queria talvez remeter-me a locais que eu poderia considerar conhecidos de ouvir falar - como os Jardins de Luxemburgo, onde Cioran passava seus dias nos tempos de outrora. Eu segui os mapas e fui andando tentando cortar caminhos. Nesse afã, me defrontava com livrarias. Em geral, livrarias pequenas, bem arrumadas, com livros daquele jeito europeu de ser, menos chamativos que os norte-americanos, em formatos diferenciados, com cores mais suaves, com fontes também mais elegantes. Nessas livrarias eu sim me sentia muito bem. Claro que eu tinha pouco dinheiro. Claro que eu também queria visitar a cidade. Queria curtir o clima frio, por debaixo de minhas roupas inadequadas, e tentar aproveitar aqueles dias que se avizinhavam com pessoas agasalhadas em todo canto de rua. Então, entrava e saía daquelas livrarias rapidamente, às vezes comprando uma edição barata de algum livro de "amigo" (personalidade provavelmente enterrada ali perto), ou uma edição impossível de achar no Brasil de algum escritor menos conhecido (como o jornalista Karl Kraus, por exemplo, de quem comprei dois exemplares de livros que não existem onde moramos).

Creio que foi no primeiro dia na cidade que eu me decidi a visitar o cemitério. Não por uma fixação em especial, algo soturno ligado a cadáveres. Mas porque seria ali que eu teria meu primeiro contato mais próximo a meus heróis da época, em geral ligados ao ambiente da literatura e filosofia. O cemitério de Montparnasse não era muito longe, eu bem me lembro, dava para ir a pé, embora precisasse passar por ruas meio desconjuntadas, que poderiam fazer com que eu me perdesse. Fui até lá. Mas estava chovendo, e eu não tinha guarda-chuva. Eu queria porque queria chegar em frente a túmulos determinados, os do Cioran e de Beckett. O cemitério, claro, era bastante grande, e não havia quase ninguém nele. Eu não sei se peguei na hora um guia com os principais túmulos. Sei apenas que me meti a tentar encontrar na marra os túmulos que eu queria. Mas o tempo passava e passava e nada de encontrar nada que me interessasse. Haviam como sempre túmulos de diversos tipos em todo quarteirão do cemitério, e quanto mais a gente entrava no local mais começava a sentir que tudo parecia a mesma coisa. Mas eu insistia em minha fixação, sem saber direito por quê.

O Cioran havia sido o filósofo que me levantara o ânimo quando nada mais conseguia. Eu o lia e sorria ou mesmo ria. Beckett, o cara que me mostrara o limite da lucidez. Claro que não só eles estavam por ali. Havia outros, que depois eu encontraria. Mas agora meu objetivo eram os dois. Mas o tempo passava, escurecia e eu me molhava todo. Minhas energias estavam indo embora quando finalmente vi o túmulo do romeno. Quando cheguei ali, chorei. Fiquei um tempo parado em frente àquela superfície fria (que ele dividia com seu amor de vida, a Simone Boué), e depois depositei um cartão de visita. Era minha prova de ter estado ali. Lembro-me então que perto dali estava o irlandês, o Beckett, também com sua esposa. Mas nele eu não depositei nada. Só fiz minhas reverências, e fui aos poucos embora. Estava cansado, bastante esgotado da tarefa, e não sabia mais o que fazia por ali. Eu sentira que precisava dar minhas homenagens, apenas. Isso, eu consegui. Os outros dias seriam de trabalho.


Contreraman

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